No corre-corre do dia a dia, a gente costuma pensar em “nutrição” apenas como aquilo que alimenta o corpo: café da manhã, almoço, janta. Mas e o que alimenta o coração? Sentimentos também precisam ser nutridos — e talvez seja isso que mais negligenciamos.
O
problema é que, diferente da comida, sentimentos não chegam prontos. Eles não
se compram no mercado nem se aquecem no micro-ondas. Para florescerem, exigem
tempo, cuidado e uma espécie de cozinha interior. O amor, por exemplo, não se
mantém vivo só pelo “eu te amo” dito uma vez. Precisa de pequenos gestos,
atenção, paciência, memória compartilhada. A amizade também: se não for regada,
seca. Até a gratidão, se não for lembrada, se perde em meio às cobranças do
cotidiano.
O
pensador brasileiro Rubem Alves dizia que “o corpo se alimenta de pão,
mas a alma se alimenta de sonhos e de carinho”. Isso significa que sentimentos
não são automáticos, não brotam sozinhos — são cultivados. A indiferença, por
outro lado, é o “jejum” da alma, que nos deixa fracos sem percebermos.
No
cotidiano, nutrir sentimentos pode ser coisa simples: mandar uma mensagem sem
motivo aparente, escutar de verdade sem olhar para o celular, ou até parar
cinco minutos para lembrar de algo que nos faz sorrir. É dar consistência
àquilo que, sem cuidado, vira apenas sensação passageira.
O
curioso é que nutrir sentimentos não é apenas dar; é também receber. Ao cuidar
dos vínculos, fortalecemos a nós mesmos. Como uma planta que, ao ser regada,
devolve sombra e oxigênio, o sentimento nutrido oferece abrigo.
Nutrir
sentimentos é, portanto, um ato ético e estético. Ético porque reconhece no
outro a importância de existir. Estético porque torna a vida mais bela, mais
habitável. No fundo, é um modo de resistir à secura do mundo. Como lembrava
Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou, fica eterno.” E só fica eterno o que
foi bem alimentado.
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