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terça-feira, 16 de setembro de 2025

Êxtase Estético

O Limiar da Presença e a Dilatação do Ser

O êxtase estético é uma experiência que transborda os limites do cotidiano, um momento em que a consciência parece expandir-se e o sujeito se dissolve na intensidade da percepção. Diferente do prazer comum, que é passível de comparação e análise, o êxtase estético não se mede nem se traduz em palavras fáceis — ele acontece no limiar entre o sentido e o sem-sentido, onde a realidade parece suspensa.

Para entender essa experiência, podemos recorrer a Edmund Husserl, o pai da fenomenologia, que propôs a ideia da "epoché": a suspensão do juízo natural para alcançar a essência das coisas. No êxtase estético, algo semelhante ocorre — a "epoché" se dá em relação às preocupações práticas e racionais do mundo, e o sujeito suspende sua habitual relação utilitária para mergulhar em uma percepção pura, onde o objeto estético se apresenta como fenômeno em sua totalidade.

Mas esse êxtase não é apenas uma contemplação passiva. Inspirando-se na filosofia de Henri Bergson, podemos pensar o êxtase estético como uma dilatação do tempo vivido, uma "duração" onde passado, presente e futuro se entrelaçam em uma sensação contínua e indivisível. É nesse fluxo que o sujeito experimenta uma forma intensa de presença — um estar-no-mundo que é, simultaneamente, abandono e plenitude.

O êxtase estético, portanto, inaugura um espaço onde o ser se expande e o mundo se transforma em uma espécie de campo vibratório, onde a beleza não é um atributo fixo, mas um evento dinâmico. É a arte e a experiência estética que, nesse sentido, revelam uma dimensão do real que a razão instrumental não alcança — um real pulsante, quase sagrado, que convoca a alma para além de si mesma.

Assim, o êxtase estético não é um simples deslumbramento, mas um portal para um modo mais profundo de ser, um reencontro com o mistério do existir. Ele nos lembra que, em meio à rotina e à racionalidade, permanece a possibilidade de um abandono criativo, um instante em que o tempo se dissolve e a vida se faz presente em sua intenção.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nutrir Sentimentos

No corre-corre do dia a dia, a gente costuma pensar em “nutrição” apenas como aquilo que alimenta o corpo: café da manhã, almoço, janta. Mas e o que alimenta o coração? Sentimentos também precisam ser nutridos — e talvez seja isso que mais negligenciamos.

O problema é que, diferente da comida, sentimentos não chegam prontos. Eles não se compram no mercado nem se aquecem no micro-ondas. Para florescerem, exigem tempo, cuidado e uma espécie de cozinha interior. O amor, por exemplo, não se mantém vivo só pelo “eu te amo” dito uma vez. Precisa de pequenos gestos, atenção, paciência, memória compartilhada. A amizade também: se não for regada, seca. Até a gratidão, se não for lembrada, se perde em meio às cobranças do cotidiano.

O pensador brasileiro Rubem Alves dizia que “o corpo se alimenta de pão, mas a alma se alimenta de sonhos e de carinho”. Isso significa que sentimentos não são automáticos, não brotam sozinhos — são cultivados. A indiferença, por outro lado, é o “jejum” da alma, que nos deixa fracos sem percebermos.

No cotidiano, nutrir sentimentos pode ser coisa simples: mandar uma mensagem sem motivo aparente, escutar de verdade sem olhar para o celular, ou até parar cinco minutos para lembrar de algo que nos faz sorrir. É dar consistência àquilo que, sem cuidado, vira apenas sensação passageira.

O curioso é que nutrir sentimentos não é apenas dar; é também receber. Ao cuidar dos vínculos, fortalecemos a nós mesmos. Como uma planta que, ao ser regada, devolve sombra e oxigênio, o sentimento nutrido oferece abrigo.

Nutrir sentimentos é, portanto, um ato ético e estético. Ético porque reconhece no outro a importância de existir. Estético porque torna a vida mais bela, mais habitável. No fundo, é um modo de resistir à secura do mundo. Como lembrava Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou, fica eterno.” E só fica eterno o que foi bem alimentado.


sábado, 26 de julho de 2025

Devaneio Estético

Um ensaio filosófico com pés descalços e olhos abertos

Às vezes, entre o barulho do trânsito e a pressa dos dias, nosso olhar se perde num detalhe inútil: uma rachadura bela numa parede antiga, o modo como a luz atravessa um copo com água, a coreografia casual de folhas levadas pelo vento. Não estávamos procurando nada disso. Mas algo dentro de nós suspendeu o tempo e, por segundos, vivemos num devaneio estético — um mundo sem função, sem compromisso, sem resposta. Só o ver pelo ver, o sentir pelo sentir.

Mas o que é esse instante em que o mundo parece se justificar apenas pela sua aparência? O devaneio estético, diferente da contemplação artística dirigida, é um colapso suave do senso prático, um mergulho involuntário no supérfluo que se revela essencial. Não é preciso museu nem pintura famosa: o devaneio estético nasce no inesperado, no cotidiano comovente, no toque leve do real que se mostra de um jeito novo. Ele é uma brecha na funcionalidade das coisas.

A percepção que dança

Ao contrário da percepção utilitária, que busca informações, caminhos e soluções, o devaneio estético nos retira da lógica de uso. Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, já havia intuído que o devaneio é uma espécie de descanso da razão, onde a imaginação ganha sua própria casa. Mas quando esse devaneio é estético, ele não apenas imagina — ele vê, escuta, toca, sente. É uma experiência encarnada, mas sem propósito.

O filósofo francês Merleau-Ponty também pode nos ajudar aqui. Para ele, o corpo é o ponto zero da experiência, e é por ele que o mundo se revela. No devaneio estético, não estamos fora do corpo, mas mais intensamente dentro dele: é o corpo que nos guia até o instante belo, não a mente que o planeja. Por isso, o devaneio estético é sempre uma surpresa. Ele nos encontra — não o contrário.

O inútil que funda o sentido

Vivemos cercados de discursos sobre produtividade, otimização e finalidade. Mas o devaneio estético nos devolve o direito ao inútil. E é aqui que a filosofia pode se rebelar contra sua própria sisudez: pensar o estético como forma de existência sem teleologia, onde o fim não é exterior à própria experiência, mas está nela. Como dizia Oscar Wilde, “toda arte é completamente inútil” — mas é justamente aí que está sua potência.

Em tempos de algoritmos que preveem nosso gosto, o devaneio estético é uma insubmissão silenciosa: ele escapa ao cálculo, ao marketing, à lógica da tendência. Ele é pessoal, íntimo e intransmissível. É o momento em que não nos tornamos consumidores de beleza, mas cúmplices dela.

O ser que se desarma

O devaneio estético exige um certo esvaziamento. Não se entra nele com o peito inflado ou a mente armada. É preciso um tipo de disponibilidade, quase uma ingenuidade. Nisso, ele se aproxima de uma experiência espiritual, ainda que sem dogma. É uma forma de humildade diante do real. Ver a beleza não porque ela se impõe, mas porque nos deixamos afetar.

Nietzsche dizia que só poderíamos criar beleza quando houvesse em nós um caos. O devaneio estético é talvez a dança efêmera desse caos com a forma — um instante onde o mundo se apresenta sem necessidade de explicação, e nós, por um momento, paramos de querer explicá-lo.

Epílogo despretensioso

Talvez o devaneio estético não nos torne mais sábios, nem mais produtivos. Mas ele nos faz lembrar que existe algo em nós que ainda é capaz de maravilhamento. E isso, por si só, já vale o instante. Um instante que, quem sabe, seja o mais verdadeiro dos dias.