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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O Espírito da Dádiva

O que ainda nos move a dar e retribuir

Costumamos pensar que os gestos de dar e receber pertencem ao campo da gentileza, algo meio perdido no meio do cotidiano apressado: alguém cede o lugar no ônibus, outro paga o café, um vizinho empresta a furadeira. Coisas simples. Mas, se olharmos de perto, há algo muito mais profundo acontecendo ali — uma espécie de economia invisível que Marcel Mauss, no início do século XX, percebeu com rara lucidez. Não é só o objeto que circula. É um vínculo.

O que Mauss chama de dádiva não é apenas presente; é um sistema social inteiro, baseado em três movimentos fundamentais: dar, receber e retribuir. Para ele, todos os povos — dos mais antigos aos modernos — organizaram suas relações através desse tripé. Não por cordialidade, mas por necessidade estrutural: só a circulação de bens, favores, serviços, palavras e até sentimentos mantém a coesão entre indivíduos e grupos.

 

A lógica do presente que nunca é “gratuito”

No fundo, Mauss desconfia daquilo que chamamos de “presente sem intenção”. Para ele, todo presente traz um espírito — o hau, como aparece no estudo dos povos polinésios citado no ensaio. Não é magia metafórica. É a ideia de que o bem dado continua ligado à pessoa que deu. E por isso o receptor sente ou reconhece uma obrigação de reciprocidade.

Pense no cotidiano:

  • Você paga o almoço de um amigo. Ele diz: “Na próxima, é por minha conta.”
  • Você empresta o carro. A pessoa devolve limpo e abastecido.
  • Alguém te ajuda na mudança. Você sente que deve aparecer na casa dessa pessoa quando ela precisar de algo.

Não se trata de dívida moral pesada, mas de um tipo de circuito simbólico: para que a relação se mantenha viva, algo precisa circular. A dádiva é o movimento que impede que as relações fiquem estagnadas.

 

A dádiva como cimento social

Mauss observa que, em sociedades tradicionais, festas, alianças, casamentos e até guerras são inaugurados por presentes. Quem dá muito adquire prestígio; quem não retribui perde a honra. A dádiva gera um laço que pode tanto unir quanto obrigar. Ela cria compromissos — e, por isso, cria sociedade.

Se olharmos ao redor, veremos que o mesmo acontece hoje, mesmo que disfarçado:

  • Redes de troca de favores no trabalho.
  • A política que se estrutura em apoios, concessões e contrapartidas.
  • A vida afetiva, que só prospera quando ambos dão e recebem na medida do possível.
  • Até o simples gesto de indicar alguém para uma vaga de emprego envolve uma aposta, uma confiança que cria um elo duradouro.

Por isso Mauss insiste: não existe relação social sem reciprocidade.

 

A ilusão moderna da "autonomia"

O capitalismo trouxe a ideia de que o contrato, o pagamento e o preço substituiriam a dádiva. Pagou, acabou. Nada nos liga mais. Em teoria, sim. Na prática, não.

Quem compra sempre no mesmo mercadinho do bairro acaba ganhando fiado.
Quem frequenta sempre o mesmo café recebe o “extra” que o barista coloca sem cobrar.
Quem trata bem os vizinhos tem mais proteção silenciosa que qualquer cerca elétrica.

Mesmo na economia formal, o contrato é frio demais para explicar a confiança, a boa vontade ou os laços que nascem do simples gesto de dar sem calcular inteiramente.

Mauss já percebia isso em 1925. Hoje, quando nossa vida é tão monetizada, sua crítica é ainda mais atual: a dádiva é aquilo que mantém o humano respirando dentro dos sistemas técnicos.

 

O que a dádiva nos revela sobre nós

Dar é expor-se, é colocar algo de si no mundo. Receber é reconhecer que não somos autossuficientes. Retribuir é fechar o ciclo e, ao mesmo tempo, abri-lo de novo para o futuro. Cada gesto desse tipo impede que a vida social se torne puro interesse ou pura indiferença.

E talvez por isso sentimos tanta estranheza quando alguém dá demais ou de menos. Sabemos, instintivamente, que o equilíbrio da dádiva é também o equilíbrio das relações.

Comentário filosófico – com Darcy Ribeiro

Para fechar com um pensador brasileiro, Darcy Ribeiro certa vez afirmou que “a solidariedade é a ternura dos povos”. A frase é uma síntese perfeita do espírito da dádiva maussiana: aquilo que damos aos outros não é mero objeto, mas a forma como reconhecemos que precisamos uns dos outros para continuar existindo. Darcy diria que uma sociedade onde nada circula — nenhum afeto, nenhum gesto, nenhum favor — é uma sociedade doente, porque perdeu seu pulso humano.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nutrir Sentimentos

No corre-corre do dia a dia, a gente costuma pensar em “nutrição” apenas como aquilo que alimenta o corpo: café da manhã, almoço, janta. Mas e o que alimenta o coração? Sentimentos também precisam ser nutridos — e talvez seja isso que mais negligenciamos.

O problema é que, diferente da comida, sentimentos não chegam prontos. Eles não se compram no mercado nem se aquecem no micro-ondas. Para florescerem, exigem tempo, cuidado e uma espécie de cozinha interior. O amor, por exemplo, não se mantém vivo só pelo “eu te amo” dito uma vez. Precisa de pequenos gestos, atenção, paciência, memória compartilhada. A amizade também: se não for regada, seca. Até a gratidão, se não for lembrada, se perde em meio às cobranças do cotidiano.

O pensador brasileiro Rubem Alves dizia que “o corpo se alimenta de pão, mas a alma se alimenta de sonhos e de carinho”. Isso significa que sentimentos não são automáticos, não brotam sozinhos — são cultivados. A indiferença, por outro lado, é o “jejum” da alma, que nos deixa fracos sem percebermos.

No cotidiano, nutrir sentimentos pode ser coisa simples: mandar uma mensagem sem motivo aparente, escutar de verdade sem olhar para o celular, ou até parar cinco minutos para lembrar de algo que nos faz sorrir. É dar consistência àquilo que, sem cuidado, vira apenas sensação passageira.

O curioso é que nutrir sentimentos não é apenas dar; é também receber. Ao cuidar dos vínculos, fortalecemos a nós mesmos. Como uma planta que, ao ser regada, devolve sombra e oxigênio, o sentimento nutrido oferece abrigo.

Nutrir sentimentos é, portanto, um ato ético e estético. Ético porque reconhece no outro a importância de existir. Estético porque torna a vida mais bela, mais habitável. No fundo, é um modo de resistir à secura do mundo. Como lembrava Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou, fica eterno.” E só fica eterno o que foi bem alimentado.


terça-feira, 10 de outubro de 2023

O Mel e o Fel na Filosofia da Ação

 

Sou fã de Zé Ramalho, assisto com frequência e repetidamente suas exibições em shows, neste final de semana não foi diferente. Zé Ramalho é cantor, compositor e músico brasileiro cuja música é uma mistura única de diversos estilos e influências, tornando difícil categorizá-lo em um único gênero musical. Ele é conhecido por fundir elementos de rock, folk, música nordestina, música regional brasileira e letras poéticas.

As letras das musicas de Zé Ramalho muitas vezes apresentam uma abordagem poética e introspectiva, onde ele explora temas como espiritualidade, misticismo, amor, crítica social e questões existenciais. Suas composições frequentemente incorporam metáforas, símbolos e referências culturais, e são ricas em imaginação e profundidade. O estilo das letras de Zé Ramalho é fortemente influenciado pela cultura nordestina do Brasil, com referências a lendas, mitos, figuras históricas e paisagens do Nordeste. Ele também incorpora elementos de literatura, filosofia e espiritualidade em suas letras, o que contribui para a complexidade e riqueza de sua obra.

Em termos de estrutura poética, Zé Ramalho muitas vezes utiliza versos livres e métrica variada para se adequar à melodia e ao ritmo da música. Sua habilidade de transmitir emoções profundas através das palavras e sua voz distintiva contribuem para a atemporalidade e a universalidade de suas canções, logo, ele consegue conectar-se com todos que deram ouvidos a sua arte.

Musicas: https://www.youtube.com/watch?v=z_gMhoDbF3E

DA SAGRADA ESCRITURA DOS VIOLEIROS

A defesa é natural:
cada qual para o que nasce,
cada qual com sua classe,
seus estilos de agradar.
Um nasce para trabalhar,
outro nasce para briga,
outro vive de intriga,
E outro de negociar.
Outro vive de enganar -
o mundo só presta assim:
é um bom outro ruim,
e eu não tenho jeito pra dar.
Pra acabar de completar:
Quem tem o mel, dá o mel.
Quem tem o fel. dá o fel.
Quem nada tem, nada dá.

Zé Ramalho

 

“Quem tem o mel, dá o mel. Quem tem o fel, dá o fel. Quem nada tem, nada dá”

 

Com essa máxima Zé Ramalho nos faz refletir sobre a ideia de que as pessoas compartilham o que possuem, seja algo positivo (como o mel, representando coisas boas) ou algo negativo (como o fel, representando coisas ruins). Também destaca a ideia de que quem não possui nada não pode oferecer nada. É uma maneira de expressar a noção de que as ações e as ofertas de uma pessoa refletem o que ela tem dentro de si. No contexto filosófico, isso pode ser interpretado como uma reflexão sobre a influência que nossa condição, experiências e emoções exercem sobre nossas ações e interações com o mundo ao nosso redor. A máxima enfatiza que as ações são moldadas pela condição interna e pelo que possuímos, seja positivo ou negativo, e isso impacta nossa capacidade de compartilhar com os outros.

A máxima "Quem tem o mel, dá o mel. Quem tem o fel, dá o fel. Quem nada tem, nada dá" encapsula uma sabedoria que tem ecoado através das gerações. Esta afirmação simples, no entanto, carrega uma profundidade filosófica significativa que pode ser analisada à luz das teorias de diversos filósofos. Este ensaio explora a dualidade da natureza humana, representada pelo mel e pelo fel, e como as ações dos indivíduos são moldadas por aquilo que possuem.

A Dualidade Humana Segundo Aristóteles: Virtudes e Vícios

O filósofo grego Aristóteles destacou a importância das virtudes e dos vícios na ética. Segundo sua ética das virtudes, o "mel" representa as virtudes, que são qualidades positivas como a coragem, a temperança e a sabedoria. Aqueles que possuem virtudes são inclinados a compartilhar bondade e benevolência com outros. Por outro lado, o "fel" representa os vícios, tais como a raiva, a avareza e a crueldade. Quem está imerso nos vícios é propenso a disseminar negatividade e dor.

O Existencialismo de Jean-Paul Sartre: Liberdade e Responsabilidade

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre argumentou que os seres humanos são "condenados à liberdade". Eles têm a responsabilidade de criar seu próprio significado e valores na vida. Na perspectiva de Sartre, "ter o mel" pode ser interpretado como a responsabilidade de fazer escolhas éticas e altruístas, enquanto "ter o fel" representa a escolha de agir de maneira egoísta e prejudicial aos outros.

A Filosofia Budista: Desapego e Nirvana

Na tradição budista, o "mel" pode ser associado ao apego aos desejos e posses materiais, enquanto o "fel" simboliza o desapego e a renúncia. A sabedoria budista ensina que aqueles que estão livres do apego estão mais inclinados a compartilhar, pois não são escravos das aquisições materiais. Nessa ótica, quem nada possui está mais próximo do caminho para a libertação do sofrimento (Nirvana).

A máxima "Quem tem o mel, dá o mel. Quem tem o fel, dá o fel. Quem nada tem, nada dá" ilustra uma profunda reflexão sobre a natureza humana e a ética de suas ações. Através das lentes filosóficas de pensadores como Aristóteles, Sartre e a filosofia budista, percebemos que as escolhas e ações dos indivíduos são intrinsecamente ligadas ao que possuem e valorizam em suas vidas. Seja virtude ou vício, apego ou desapego, as ações de uma pessoa são moldadas pela natureza dual e complexa da condição humana. Compreender essa dualidade é crucial para promover uma sociedade mais ética e compassiva, onde o "mel" possa ser compartilhado e o "fel" possa ser transformado em sabedoria e compreensão.