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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Sentir nos Ossos

Quando a Percepção se Torna Matéria

Há experiências que não passam pela lógica, pela evidência ou pela palavra. Elas se infiltram no corpo, como um frio que não está no ar, mas no osso — um saber que não vem dos livros, mas de uma espécie de memória mineral. “Sentir nos ossos” é mais do que uma metáfora; é a sensação de que algo é tão verdadeiro que atravessa carne, pele e pensamento.

O jurista, brasileiro Fábio Konder Comparato, ao tratar da experiência humana para além da racionalidade estrita, lembra que certos saberes são “pré-discursivos”, ou seja, percebidos antes que possamos formulá-los. É como se o corpo tivesse sensores ancestrais capazes de pressentir o que a mente ainda não elaborou.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas antecipações: uma mãe que, sem saber por quê, acorda no meio da noite e descobre que o filho está doente; um pescador que sente que “hoje o mar não está para peixe”, mesmo com o céu limpo; alguém que entra numa sala e, antes de qualquer palavra, sabe que houve uma discussão ali.

Esse sentir profundo também carrega o peso das lembranças que se inscrevem fisicamente. Cicatrizes que doem quando muda o tempo, dores antigas que reaparecem em dias de tristeza, a postura que se fecha quando a vida pede defesa. O corpo é arquivo e oráculo.

Comparato talvez diria que “sentir nos ossos” é um modo de nos lembrar de que somos, antes de tudo, matéria viva — e que a inteligência não está apenas na mente, mas distribuída por toda a nossa estrutura. Nesse sentido, confiar nesse sentir não é superstição, mas reconhecer a sabedoria incorporada que milênios de experiência gravaram em nós.

O risco, porém, é esquecer que nem todo pressentimento é verdade. O frio nos ossos pode vir de dentro, de medos antigos, e não do mundo lá fora. A sabedoria está em saber discernir entre o eco do passado e o aviso do presente.

Talvez, no fim, “sentir nos ossos” seja como carregar um sismógrafo interno — que às vezes registra tremores distantes e outras vezes inventa terremotos. Cabe a nós aprender a ler esse mapa invisível.


segunda-feira, 23 de junho de 2025

Sentir e Pensar

… e o que mais?

A gente costuma achar que só aprende pela cabeça ou pelo coração. Ou você sente — e aprende com o calor, o frio, o medo, o gosto das coisas — ou você pensa — calcula, raciocina, organiza as ideias para entender o mundo. Parece não haver saída desse binário. Mas será mesmo?

Veja o exemplo do menino que aprende a andar de bicicleta. No começo ele pensa: “segura firme o guidão, olha pra frente, pedala devagar…”. Também sente: medo de cair, emoção ao deslizar pela rua. Mas chega uma hora em que nem sente nem pensa. O corpo aprende sozinho. Ele vira bicicleta. O saber passou para as pernas, os braços, o equilíbrio. É o conhecimento do corpo — o tal “saber fazer” que nenhum livro ensina.

Ou pense naquelas decisões que você toma sem saber por quê. Um desvio de caminho, um "não vou entrar nessa loja agora", um "vou ligar pra fulano hoje". Não foi pensamento lógico nem sentimento claro. Foi um saber que veio de outro lugar — a tal da intuição. E quantas vezes ela acerta? Muitas.

Tem também o saber da convivência. Você nunca parou para pensar como se espera uma fila no banco. Ninguém te explicou. Você simplesmente aprendeu — porque vive aqui, porque observa sem perceber. Isso é cultura agindo em silêncio. Nem sentir, nem pensar: é absorver pelo convívio.

E ainda há o saber do momento presente. O zen-budista diria: quando você come uma fruta e presta atenção total nela — no sabor, na textura, no cheiro — está conhecendo direto, sem pensar, sem julgar, sem interpretar. Conhecimento puro, sem intermediários.

Talvez o mundo não caiba só no sentir e no pensar. Há corpos que sabem sozinhos. Há intuições que chegam sem convite. Há culturas que moldam você sem pedir permissão. Há presenças que ensinam sem dizer palavra.

Os filósofos antigos sabiam disso. Espinosa, lá no século XVII, já dizia que o corpo tem uma inteligência própria — capaz de fazer coisas das quais a mente nem sonha. E Henri Bergson, no século XX, desconfiava que a intuição nos leva a conhecer verdades que o pensamento não alcança.

Quem sabe conhecer seja como viver: não se faz só com a cabeça e o peito. Também se faz com o corpo, com o instante, com o outro.

Talvez — no fundo — a gente seja uma soma estranha de tudo isso. E por isso aprender nunca se esgota.