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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Teoria Crítica da Sociedade

Com Žižek na fila do supermercado

Outro dia, numa tarde qualquer, entrei no supermercado só para comprar pão e café. Peguei uma fila relativamente curta, mas que, como sempre, andava lentamente. Foi então que notei um senhor de jaqueta puída ao meu lado, reclamando baixinho que “tudo hoje em dia é feito para a gente esperar”. Um instante depois, percebi que aquele senhor era ninguém menos que Slavoj Žižek. Sim, ele mesmo — fungando, ajeitando a camiseta amarrotada por dentro da calça e fazendo gestos exagerados com as mãos, como se a fila inteira fosse uma provocação metafísica.

“Veja”, ele me diz, cutucando meu ombro com um entusiasmo levemente desesperado, “a fila é o microcosmo da Teoria Crítica! Você acha que está esperando por pão… mas, na verdade, é o sistema esperando por você.” Ele ri, e aquela risada meio engasgada ecoa entre o corredor das bolachas e o freezer das massas congeladas.

Foi ali, segurando um pacote de pão de forma, que a Teoria Crítica da Sociedade fez todo sentido para mim. A Escola de Frankfurt inteira poderia ter sido citada naquela fila. Horkheimer e Adorno diriam que o supermercado, com sua música ambiente e seus corredores organizados para nos fazer gastar mais do que precisamos, é um templo da cultura transformada em mercadoria. A razão instrumental está presente até nos carrinhos com rodinhas que sempre emperram — não por mágica, mas porque a frustração também pode ser lucrativa.

Marcuse, por sua vez, teria olhado para aquela prateleira infinita de produtos idênticos e comentado que a “liberdade de escolha” é só outra forma de unidimensionalidade. Você acha que escolhe entre dez marcas de café, mas todas carregam o mesmo imperativo: consumir para existir. É a ilusão confortável de que decidir entre embalagens diferentes é ato de autonomia.

Žižek, ainda do meu lado, balança a cabeça como quem lê meus pensamentos. “Você pensa que está aqui por necessidade”, ele continua, “mas o sistema quer que você transforme até a fome num gesto político involuntário. É como se cada compra reafirmasse a ordem simbólica!” Ele abre os braços, quase batendo numa senhora que empurrava um carrinho cheio de detergentes.

Enquanto isso, Habermas provavelmente tentaria salvar alguma esperança. Talvez dissesse que, se pelo menos conversássemos realmente na fila — e não apenas murmurássemos reclamações —, poderíamos construir um pequeno espaço de racionalidade comunicativa. Mas basta olhar ao redor: metade das pessoas na fila está presa ao celular, deslizando o dedo por notícias ruins embaladas como entretenimento urgente. A comunicação virou ruído; o consenso, performance.

E é isso que a Teoria Crítica tenta nos mostrar: que a sociedade moderna cria mecanismos tão finos de controle que eles entram em nós sem pedir licença. O tempo que passamos na fila, a ansiedade diante do relógio, a necessidade de “ganhar tempo” comprando café para trabalhar mais — tudo isso compõe a paisagem onde a liberdade se confunde com hábito.

“Mas sabe o mais engraçado?”, Žižek me diz, agora sussurrando, como se fosse revelar um segredo. “Mesmo quando você percebe tudo isso, você ainda compra o pão. A crítica não te liberta magicamente. Ela só mostra o quão preso você está — e isso já é algo.”

E naquele instante percebo que a verdadeira força da Teoria Crítica não está em nos transformar em ascetas radicais que abandonam o supermercado, mas em nos lembrar que nada do que parece natural é realmente inevitável. Que aquilo que chamamos de normalidade — correria, consumo, distração, produtividade — é uma construção histórica. E o que é construído pode ser reconstruído.

Quando finalmente chega minha vez no caixa, Žižek me dá um tapinha no braço e diz: “A liberdade está nas pequenas rachaduras da rotina. Preste atenção nelas.” Depois atravessa a porta automática, que abre com um sopro gelado, como se o mundo estivesse suspenso por um segundo.

Saio também, segurando meu pacote de pão, e percebo que talvez a crítica comece exatamente assim: numa fila lenta, num gesto banal, numa consciência que desperta por alguns instantes. Uma espécie de fresta que o cotidiano, sem querer, deixa escapar.

E é nessas pequenas brechas — mesmo que rapidamente fechadas — que ainda podemos respirar.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Entraves Dialógicos

Sabe aquelas conversas que começam bem, mas de repente desandam, viram uma disputa de quem fala mais alto ou, pior ainda, acabam em silêncio constrangedor? Isso acontece mais do que a gente gostaria de admitir, seja num almoço de família, numa reunião de trabalho ou até num bate-papo com amigos. O problema não é só a falta de paciência ou o excesso de opiniões; existe algo mais profundo: os entraves dialógicos. E foi justamente pensando nesses obstáculos, que atrapalham o diálogo real e enriquecedor, que me veio a ideia de refletir sobre o assunto. Afinal, será que ainda sabemos conversar em tempos que só trocamos mensagens curtas e emojis?

"Entraves dialógicos" é uma expressão que remete às dificuldades encontradas no ato da comunicação, especialmente no diálogo entre pessoas. Um entrave dialógico pode ser visto como qualquer barreira que impede a fluidez, o entendimento ou a profundidade em uma conversa, sejam essas barreiras emocionais, culturais, linguísticas ou mesmo resultantes de vieses inconscientes.

O Diálogo Ideal e Seus Obstáculos

Para que o diálogo seja produtivo, ele precisa ser construído sobre uma base de escuta atenta, respeito mútuo e empatia. Filosoficamente, podemos buscar o conceito de diálogo em Sócrates, que via a conversa como um método para descobrir a verdade, e em Martin Buber, que propunha a ideia do "Eu-Tu", em que o diálogo verdadeiro ocorre quando as pessoas se veem como sujeitos iguais e genuinamente se conectam.

Entretanto, no dia a dia, esse ideal se choca com uma série de realidades práticas. Imagine, por exemplo, uma conversa entre colegas de trabalho onde as opiniões divergem sobre uma decisão importante. A ansiedade em ser ouvido, o medo de ser julgado ou desconsiderado, e a urgência de impor uma visão podem gerar interrupções, silêncios forçados ou até mesmo ataques verbais.

Esses são pequenos entraves dialógicos, que vão desde o tom de voz agressivo até a escolha de palavras que podem acionar reações emocionais desproporcionais. E, claro, há também a distração moderna – conversas permeadas pela checagem de celulares, pela pressa cotidiana, pelo multitasking (multitarefa).

A Cultura do Não-Diálogo

No Brasil, a tradição de conversas em mesa de bar ou reuniões familiares pode parecer rica em interações, mas muitas vezes esses espaços estão saturados de monólogos disfarçados de diálogo. O famoso “eu já sabia” ou a busca incessante por validação pessoal são entraves sutis, mas poderosos, que transformam a troca em uma sequência de afirmações individuais.

Esses entraves são exacerbados nas redes sociais, onde o diálogo se transforma em batalha de opiniões. Aqui, o que ocorre é uma disputa pelo poder de convencer, em vez de uma troca genuína de ideias. Não há espaço para reflexão, e muitas vezes os interlocutores nem leem completamente o que o outro diz antes de responder. As reações são impulsivas, transformando o que deveria ser diálogo em ruído.

Vieses Inconscientes e Barreiras Culturais

Outro entrave importante é o viés inconsciente, que afeta como percebemos e interagimos com o outro. Em uma discussão sobre política, por exemplo, é comum que os participantes estejam mais interessados em defender seu ponto de vista do que em ouvir o argumento do outro. O preconceito sobre quem o outro é (baseado em sua profissão, classe social, gênero ou raça) já define antecipadamente a resposta a ser dada, mesmo antes de escutá-lo de verdade.

Barreiras culturais também desempenham um papel fundamental. O que é considerado um gesto de respeito em uma cultura pode ser mal interpretado em outra. No Brasil, um país miscigenado e culturalmente diverso, os diálogos entre diferentes regiões ou grupos sociais muitas vezes enfrentam entraves baseados em estereótipos ou em diferenças de comportamento e costumes.

Superando os Entraves

Como, então, superar esses entraves? A resposta está no cultivo de uma consciência reflexiva. Para o filósofo Habermas, o ideal seria uma "situação ideal de fala", onde todos os participantes de um diálogo tivessem as mesmas oportunidades de expressar suas opiniões e onde o poder das melhores ideias prevalecesse sobre a imposição de autoridade ou status.

No nível pessoal, isso significa desenvolver habilidades de escuta ativa, praticar a paciência e criar um ambiente de confiança, onde os interlocutores se sintam seguros para expressar suas opiniões sem medo de represálias ou julgamentos. É necessário também reconhecer nossos próprios vieses e limitações, para que possamos nos abrir ao outro de maneira mais genuína.

Além disso, é útil introduzir um pouco de humildade intelectual: admitir que podemos não ter todas as respostas e que há valor na visão do outro. Isso cria espaço para o verdadeiro diálogo, onde, mais do que chegar a um consenso imediato, o objetivo é o crescimento mútuo.

Os entraves dialógicos são parte da vida, especialmente em tempos de polarização e sobrecarga de informações. Contudo, se nos esforçarmos para reconhecer e enfrentar esses obstáculos, podemos transformar o diálogo em uma ferramenta poderosa para a construção de relações mais saudáveis e compreensivas. No fundo, o diálogo é a base de qualquer convivência – e é preciso cuidar dele como um jardim que precisa de atenção constante. Como dizia o próprio Buber, "todas as vidas verdadeiramente humanas são encontros". Para que esses encontros floresçam, é necessário desviar dos entraves, promover o espaço de fala, e valorizar a arte da escuta.