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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Saber o Futuro


Outro dia, enquanto esperava um amigo num café, notei uma senhora jogando cartas de tarô para uma cliente atenta. O ambiente tinha aquele ar de mistério misturado com aroma de café fresco. A cliente olhava fixamente para as cartas, como se, ao decifrar aqueles símbolos enigmáticos, pudesse antecipar o que lhe aguardava. Fiquei ali pensando: por que a ideia de saber o futuro nos fascina tanto?

Desde tempos imemoriais, a humanidade tenta desvendar o que está por vir. Oráculos gregos, astrologia, profecias religiosas, inteligência artificial prevendo tendências – a busca pela previsibilidade atravessa eras e culturas. Mas por que essa obsessão? Talvez porque o futuro represente o grande desconhecido, e conhecer o desconhecido é uma forma de controle. Se soubéssemos o que vai acontecer, talvez pudéssemos evitar tragédias, tomar melhores decisões ou, no mínimo, preparar-nos psicologicamente.

Porém, a possibilidade de saber o futuro também carrega um paradoxo: se o futuro já está determinado e pode ser conhecido, onde fica o livre-arbítrio? Se uma previsão é infalível, então nossa liberdade é apenas uma ilusão? Este dilema já inquietava os antigos estoicos, que acreditavam num destino inescapável, e também preocupou Santo Agostinho, que buscou conciliar a onisciência divina com a liberdade humana.

Por outro lado, se o futuro for apenas um campo de possibilidades abertas, então toda tentativa de predizê-lo é em vão. A filosofia existencialista de Sartre defenderia que o ser humano está condenado à liberdade, ou seja, sempre tem escolha e sempre está criando o futuro a partir do presente. Esse pensamento talvez nos liberte do medo do destino, mas também impõe uma grande responsabilidade: somos os artesãos do nosso próprio caminho, sem mapas garantidos.

Talvez a nossa busca por saber o futuro seja, no fundo, um desejo de aliviar a angústia da incerteza. Mas, paradoxalmente, é essa mesma incerteza que dá sabor à vida. Se soubéssemos exatamente como tudo vai acontecer, restaria algum encanto na jornada? A vida, como um romance, precisa do inesperado para ser emocionante. E talvez o maior mistério não seja saber o futuro, mas sim aprender a viver bem no presente.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Ceifador Sem Coração

Estava caminhando pelo parque outro dia, quando vi uma cena que me fez refletir profundamente. Devido aos grandes temporais que assolaram nosso Estado houve muita destruição no arvoredo, e em especial me chamou a atenção uma árvore majestosa, que certamente tinha presenciado inúmeras estações e gerações, estava sendo cortada por estar oferecendo risco de queda. O som da motosserra rasgando sua madeira ressoava no ar, e eu não conseguia deixar de pensar na figura do ceifador, aquele que corta, que põe fim às coisas, sem piedade ou remorso. Uma arvore derrubada me é sempre muito triste.

O ceifador, essa figura enigmática e sombria, muitas vezes é retratado como alguém sem coração. Ele vem, faz o seu trabalho e segue em frente, indiferente ao impacto de suas ações. Mas, será que ele realmente é sem coração, ou será que essa é uma visão simplista e incompleta da sua natureza?

Pensei nas vezes em que a vida nos força a ser ceifadores sem coração. Às vezes, precisamos tomar decisões difíceis, cortar laços, abandonar projetos que não estão dando certo ou até mesmo dizer adeus a pessoas que foram importantes para nós. Esses momentos são como o som da motosserra, incômodos e inevitáveis, mas necessários para que novas coisas possam surgir.

Lembrei-me de uma conversa de tempos atras que tive com um amigo do curso de filosofia, falamos sobre a impermanência das coisas, um conceito budista. E que a natureza da vida é o constante ciclo de nascimento e morte, de começos e fins. Assim como as árvores no parque, nós também precisamos passar por esse ciclo para crescer e evoluir. A figura do ceifador, então, pode ser vista não como um vilão sem coração, mas como um agente da mudança, um facilitador do ciclo natural da vida.

Esse pensamento me trouxe algum consolo. A vida é cheia de momentos em que precisamos ser fortes e tomar decisões que, à primeira vista, parecem frias e insensíveis. No entanto, esses momentos são necessários para que possamos seguir em frente e abrir espaço para novas oportunidades e experiências.

Quando eu vi a árvore caindo, percebi que, apesar da dor de vê-la partir, sua madeira agora teria novos usos. Talvez se tornasse parte de uma casa, um móvel ou algo que traria alegria e utilidade para alguém. Da mesma forma, as decisões difíceis que tomamos na vida podem abrir caminho para algo novo e positivo, mesmo que não possamos ver isso imediatamente. O ceifador sem coração, então, não é necessariamente uma figura a ser temida, mas sim compreendida. Ele nos lembra que a vida é feita de ciclos e que, para cada fim, há um novo começo esperando para acontecer.