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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Ira Virtuosa

Quando o Fogo Purifica

A ira é, em geral, vista como uma emoção destrutiva, indesejável, um curto-circuito da razão. Mas e se ela pudesse ser virtuosa? E se, sob certas condições, a ira fosse sinal de consciência ética, de um impulso moral que se revolta diante do intolerável?

Diferente da fúria cega ou do ressentimento corrosivo, a ira virtuosa é lúcida: ela não visa o prazer da vingança, mas a restauração da justiça. Ela não explode sem direção; ela mira, pensa, age com coragem. É a raiva de quem vê o sofrimento alheio e não se conforma. É o incômodo justo dos que assistem à repetição de abusos e não mais toleram o silêncio.

A esse respeito, podemos recorrer a Aristóteles, que em sua Ética a Nicômaco não demoniza a ira. Ele afirma que o homem virtuoso é aquele que se ira "com as pessoas certas, pelas razões certas, da maneira certa, no momento certo". Para o filósofo, o problema não é sentir raiva, mas não saber usá-la com medida e finalidade moral.

Mas talvez o exemplo mais emblemático de uma ira que transcende a fúria pessoal e assume contornos éticos esteja na figura de Jesus, ao expulsar os vendilhões do templo. A cena é intensa: ele vira as mesas dos cambistas, derruba moedas, com um chicote de cordas expulsa os que comercializavam dentro do espaço sagrado. A ação não é um acesso de raiva irracional — é um gesto carregado de propósito moral. “Minha casa será chamada casa de oração, mas vocês a transformaram em covil de ladrões” (Mateus 21:13). Neste ato, Jesus encarna a ira virtuosa como denúncia. Ele se enfurece não por orgulho ferido, mas por ver o sagrado corrompido pela ganância. Sua ira não destrói por vaidade, mas purifica por fidelidade.

Essa mesma lógica ética aparece na filosofia de Simone Weil, mística francesa do século XX. Para ela, a verdadeira atenção ao sofrimento do outro é uma forma de oração — e a justiça é a expressão encarnada desse olhar atento. Weil não fala diretamente da ira, mas seu pensamento oferece um fundamento espiritual para a indignação ética: quando o mundo fecha os olhos à dor, a recusa silenciosa se torna omissão. Assim, a ira virtuosa seria, no fundo, uma forma extrema de atenção — um grito contra a distração, contra a normalização da injustiça. Não por orgulho, mas por compaixão radical.

Também N. Sri Ram, em A Natureza da Nossa Busca, sugere que existem sentimentos que brotam da alma e carregam uma intensidade sagrada. Ele nos convida a distinguir entre as emoções do ego e aquelas que nascem de um sentido de unidade com toda vida. Para Sri Ram, uma “ira da alma” pode surgir não como violência, mas como força moral diante da ignorância e da injustiça. Ela não deseja punir, mas despertar. Trata-se de um impulso que “não divide, mas liberta”, pois é uma energia que clama por harmonia onde há dissonância, por lucidez onde há cegueira.

No mundo atual, anestesiado por conveniências e diplomacias vazias, talvez precisemos de mais gente capaz de sentir uma ira virtuosa. Gente que, ao invés de se conformar, se levanta — não para destruir, mas para reconstruir. Como o fogo que queima o mato seco e prepara o solo para uma nova vida.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Percepção de Empédocles



Outro dia, me peguei observando o reflexo da rua numa poça d’água. Tinha sol, mas também ventava frio. As pessoas passavam apressadas, e eu, meio à toa, pensei: será que o que vejo é mesmo o que está lá fora? Ou é só um reflexo — não só na água, mas na mente? E aí me veio à cabeça um nome que quase ninguém cita numa conversa de bar: Empédocles.

A percepção como mistura dos elementos

Empédocles, o filósofo pré-socrático de Agrigento, talvez não ganhe o mesmo destaque que Sócrates ou Platão, mas ele teve uma sacada genial: tudo que existe é feito de quatro raízes — terra, água, ar e fogo — misturadas pelo Amor e separadas pelo Ódio. Agora, se ele pensava assim sobre o mundo físico, por que não pensar a percepção humana também como uma mistura dessas raízes?

Não percebemos com "os olhos" apenas, mas com a composição inteira do nosso ser. Empédocles dizia que "o semelhante conhece o semelhante", ou seja, só percebemos aquilo que já existe em nós. A terra em mim reconhece a terra do mundo. A água em mim se emociona com o rio. O fogo em mim vibra com a paixão. O ar em mim sonha com as nuvens.

Perceber é participar

Para Empédocles, não existe uma separação entre sujeito e objeto como a filosofia moderna adora discutir. Não somos uma câmera registrando o mundo. Somos parte do mundo. Ver, sentir, cheirar, ouvir — tudo isso é um encontro entre o que há dentro e fora de nós. Quando eu sinto o calor do sol na pele, não é só o sol me tocando — é também meu fogo interno reconhecendo um parente distante.

E é aqui que a coisa fica bonita: se percepção é mistura, então ela é fluida, mutável, dançante. Ninguém vê o mesmo pôr do sol duas vezes, nem mesmo a mesma pessoa. O que sentimos do mundo depende do que está mais forte em nós naquele momento — se é a água, talvez estejamos mais sensíveis. Se é a terra, mais contidos. Se o ar predomina, queremos voar. Se o fogo domina, queimamos por dentro e tudo ao redor parece mais intenso.

A ilusão da objetividade

A modernidade construiu a ideia de uma percepção objetiva, como se pudéssemos desligar nossa alma e virar instrumentos neutros. Mas Empédocles desmontaria isso com facilidade. Para ele, não existe olhar sem mistura. Até o ódio altera a percepção — ele separa os elementos, cria rupturas, endurece o que poderia fluir.

Um exemplo cotidiano? Quando estamos apaixonados (movidos pelo Amor, segundo Empédocles), o mundo parece mais bonito, as cores mais vivas, até o cheiro do asfalto molhado parece poesia. Mas quando estamos tomados pelo Ódio (ou pelo medo, ou ressentimento), tudo escurece, tudo encolhe.

Ver é ser

A grande sacada de Empédocles talvez seja esta: perceber não é apenas captar, mas também compor. Somos compositores da realidade a cada olhar. A percepção é o lugar onde o mundo e a alma se abraçam — ou se evitam.

Na próxima vez que olhar para uma poça d’água, pense: não é só a rua que está ali refletida. É também você. E sua terra, sua água, seu fogo e seu ar — dançando conforme a música dos elementos que você carrega.

Empédocles talvez não tenha tido Instagram, mas entendia uma coisa que a gente esquece: ver o mundo é sempre ver a si mesmo também.