Quando o Fogo Purifica
A
ira é, em geral, vista como uma emoção destrutiva, indesejável, um
curto-circuito da razão. Mas e se ela pudesse ser virtuosa? E se, sob certas
condições, a ira fosse sinal de consciência ética, de um impulso moral que se
revolta diante do intolerável?
Diferente
da fúria cega ou do ressentimento corrosivo, a ira virtuosa é lúcida:
ela não visa o prazer da vingança, mas a restauração da justiça. Ela não
explode sem direção; ela mira, pensa, age com coragem. É a raiva de quem vê o
sofrimento alheio e não se conforma. É o incômodo justo dos que assistem à
repetição de abusos e não mais toleram o silêncio.
A
esse respeito, podemos recorrer a Aristóteles, que em sua Ética a
Nicômaco não demoniza a ira. Ele afirma que o homem virtuoso é aquele que
se ira "com as pessoas certas, pelas razões certas, da maneira certa, no
momento certo". Para o filósofo, o problema não é sentir raiva, mas não
saber usá-la com medida e finalidade moral.
Mas
talvez o exemplo mais emblemático de uma ira que transcende a fúria pessoal e
assume contornos éticos esteja na figura de Jesus, ao expulsar os
vendilhões do templo. A cena é intensa: ele vira as mesas dos cambistas,
derruba moedas, com um chicote de cordas expulsa os que comercializavam dentro
do espaço sagrado. A ação não é um acesso de raiva irracional — é um gesto
carregado de propósito moral. “Minha casa será chamada casa de oração, mas
vocês a transformaram em covil de ladrões” (Mateus 21:13). Neste ato, Jesus
encarna a ira virtuosa como denúncia. Ele se enfurece não por orgulho
ferido, mas por ver o sagrado corrompido pela ganância. Sua ira não destrói por
vaidade, mas purifica por fidelidade.
Essa
mesma lógica ética aparece na filosofia de Simone Weil, mística francesa
do século XX. Para ela, a verdadeira atenção ao sofrimento do outro é uma forma
de oração — e a justiça é a expressão encarnada desse olhar atento. Weil não
fala diretamente da ira, mas seu pensamento oferece um fundamento espiritual para
a indignação ética: quando o mundo fecha os olhos à dor, a recusa silenciosa se
torna omissão. Assim, a ira virtuosa seria, no fundo, uma forma extrema de
atenção — um grito contra a distração, contra a normalização da injustiça. Não
por orgulho, mas por compaixão radical.
Também
N. Sri Ram, em A Natureza da Nossa Busca, sugere que existem
sentimentos que brotam da alma e carregam uma intensidade sagrada. Ele nos
convida a distinguir entre as emoções do ego e aquelas que nascem de um sentido
de unidade com toda vida. Para Sri Ram, uma “ira da alma” pode surgir não como
violência, mas como força moral diante da ignorância e da injustiça. Ela
não deseja punir, mas despertar. Trata-se de um impulso que “não divide, mas
liberta”, pois é uma energia que clama por harmonia onde há dissonância, por
lucidez onde há cegueira.
No
mundo atual, anestesiado por conveniências e diplomacias vazias, talvez
precisemos de mais gente capaz de sentir uma ira virtuosa. Gente que, ao invés
de se conformar, se levanta — não para destruir, mas para reconstruir. Como o
fogo que queima o mato seco e prepara o solo para uma nova vida.
