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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Argumento Cosmológico

E se tudo tivesse mesmo começado por Alguém?

Já teve aquele momento de insônia em que você fica olhando para o teto e se perguntando: "Por que existe algo e não o nada?" Não é só coisa de quem tomou café demais. Essa pergunta atravessa os séculos. E lá na Idade Média, São Tomás de Aquino, um pensador que juntava fé e razão como quem costura céu e chão, tentou dar uma resposta com o que chamamos hoje de argumento cosmológico.

Mas calma. Não precisa vestir túnica nem aprender latim. Vamos tentar entender o que ele disse — e repensar com olhos de hoje, num mundo que fala de Big Bang, simulações de computador e multiversos.

 

Nada se move sozinho: a Primeira Via

Tomás de Aquino parte de algo bem cotidiano: tudo se move, mas nada se move por si mesmo. Um cachorro corre porque quis, mas esse querer é uma cadeia de vontades, desejos, impulsos... E mesmo o vento que bate na janela não se move por mágica. Ele também vem de algo — e esse algo, de outro algo.

É a tal da cadeia de movimentos, ou de causas. E ele diz: essa cadeia não pode ser infinita para trás, senão nunca teria começado. Logo, deve haver um primeiro motor imóvel, que move tudo, mas não é movido por nada. Tomás dá a esse motor o nome que já era conhecido: Deus.

 

O Big Bang... ou o Big Alguém?

Aí você pode dizer: "Ah, mas hoje a ciência já explicou o começo de tudo com o Big Bang." Sim, e é fascinante. Mas mesmo essa teoria parte de uma explosão inicial. E aí vem a pergunta inevitável de Aquino, ecoando pelos séculos: quem ou o que causou isso?

O argumento cosmológico não é tanto sobre "como as coisas começaram", mas por que elas começaram, ou melhor, por que elas existem. A ciência explica o mecanismo, mas não responde ao porquê último da existência. Nesse espaço entre o que se vê e o que se pergunta, entra a filosofia.

 

Inovando: e se o motor fosse uma ideia?

Agora, vamos ousar: e se atualizássemos o argumento cosmológico para o século XXI? Em vez de pensar Deus como uma entidade separada, com barba e trono, e se pensássemos o "primeiro motor" como a ideia que sustenta o ser? Como uma lógica fundante, uma consciência cósmica, ou um campo de informação primordial?

Afinal, no mundo da física quântica e da informação, o que move pode ser menos matéria e mais inteligência subjacente — como se tudo fosse código de um programa, e o motor fosse o próprio algoritmo invisível que sustenta o real.

Aí, o "Deus de Aquino" ganha uma nova roupa. Não mais o arquiteto com compasso, mas o princípio racional do universo, o porquê silencioso de tudo existir em vez de nada. Um Deus talvez mais próximo de Spinoza, ou até da física teórica.

 

O argumento ainda respira?

Sim, e talvez mais do que nunca. O argumento cosmológico não tenta provar um Deus pessoal com nome e endereço. Ele tenta dizer: não faz sentido que o ser venha do nada. Alguma coisa sempre existiu — e essa coisa deve ser necessária, não contingente. Não pode depender de outra.

Se antes isso parecia teologia pura, hoje volta a surgir, disfarçado nas conversas sobre consciência cósmica, origem do tempo, campos unificados. Não provamos Deus, mas sentimos que há algo que precisa estar lá para que tudo mais seja possível.

 

Um início sem começo

O argumento cosmológico de São Tomás continua relevante não porque dá uma resposta fechada, mas porque abre a maior das perguntas: de onde vem tudo isso? Num mundo acostumado a causas, algoritmos e impulsos, a ideia de que há algo sem causa, que causa tudo, ainda intriga, desafia, instiga.

E talvez, quando olhamos para o teto à noite e sentimos que há mais do que o vazio, estamos justamente vivendo essa experiência filosófica — uma intuição silenciosa de que, no fundo de tudo, há um motivo para o ser.


sábado, 14 de setembro de 2024

Um Bom Motivo

 

Às vezes, tudo o que precisamos é de um bom motivo. Pode ser para sair da cama em uma manhã fria, para enfrentar um dia difícil no trabalho, ou até para dar aquele passo arriscado em direção a um sonho que ainda parece distante. Mas o que faz um motivo ser bom? E como sabemos que ele é suficiente para nos mover?

Filosoficamente, a ideia de um "bom motivo" tem sido tema de reflexão por séculos. Um dos pensadores que se dedicou a explorar os motivos por trás das nossas ações foi Immanuel Kant. Ele acreditava que o verdadeiro valor de um motivo está na intenção moral por trás dele. Em sua ética, conhecida como imperativo categórico, Kant argumentava que um motivo só pode ser considerado "bom" se for algo que, ao ser aplicado universalmente, ainda se manteria justo. Por exemplo, se você ajuda alguém apenas para se beneficiar no futuro, seu motivo não é genuinamente bom. Já se você ajuda simplesmente porque é o certo a fazer, então esse é um bom motivo, segundo Kant.

No entanto, no cotidiano, nem sempre pensamos em nossos motivos com essa profundidade moral. Muitas vezes, eles são práticos, simples e imediatos. Precisamos de um motivo para levantar cedo? Talvez seja a necessidade de pagar as contas. Queremos um motivo para continuar em um relacionamento complicado? Pode ser o medo de ficar sozinho. Mas será que esses motivos nos sustentam a longo prazo?

A reflexão de Kant nos convida a pensar em motivos mais profundos, que nos conectam a algo maior. Um motivo que vá além de necessidades imediatas ou conveniências momentâneas. No fundo, a pergunta que fica é: nosso motivo reflete quem realmente somos ou apenas o que a situação nos pede?

Um exemplo prático pode ser encontrado em decisões de vida como trocar de carreira. Muitas vezes, o "motivo" inicial pode ser o descontentamento com o emprego atual. Mas, se o motivo de fundo é apenas o desejo de fugir de algo que nos incomoda, corremos o risco de cair em outra situação igualmente insatisfatória. No entanto, se o motivo está enraizado em um desejo genuíno de crescimento, aprendizado ou conexão com nossos valores, ele pode nos levar a escolhas mais significativas.

Nietzsche, por outro lado, abordava o tema de uma forma mais existencial. Para ele, um bom motivo para viver — ou para fazer qualquer coisa — só poderia vir de uma afirmação plena da vida. Em sua obra A Gaia Ciência, ele fala do conceito do "eterno retorno", onde ele questiona: se você tivesse que viver a mesma vida repetidamente, com todas as suas dores e alegrias, você escolheria viver da mesma maneira? Esse pensamento provoca uma reflexão profunda sobre nossos motivos. Se vivêssemos cada dia como se ele pudesse ser repetido eternamente, como isso mudaria o que consideramos um "bom motivo" para agir?

No final, um bom motivo não precisa ser grandioso ou filosófico o tempo todo. Pode ser algo simples, como o amor por alguém ou a curiosidade pelo desconhecido. Mas, ao refletir filosoficamente sobre ele, percebemos que quanto mais nosso motivo se alinha com o que é autêntico em nós, mais ele tem o poder de nos mover de verdade.

A vida nos pede motivos o tempo todo. A pergunta é: quais motivos são bons o suficiente para nos levar adiante? Talvez, como Kant sugeriu, seja importante que nossos motivos sejam guiados pelo que é justo e bom. Ou, como Nietzsche, podemos pensar que um bom motivo é aquele que nos faria repetir essa vida, com todos os seus altos e baixos.