Outro dia, enquanto esperava minha vez numa fila de padaria — aquela fila onde todo mundo finge que não está reparando em ninguém, mas está — percebi algo curioso: eu me senti “em casa” ali, mesmo num ambiente que pouco frequento. Às vezes basta o cheiro de pão quente ou o modo como alguém comenta “o tempo virou, né?” para acionar uma pequena certeza silenciosa: eu pertenço a algum lugar. Mas logo em seguida veio a dúvida: pertenço ao quê, exatamente? À cidade? À cultura? Ao idioma? À memória dos lugares que habitei? Ou pertenço apenas às minhas próprias narrativas internas?
Foi
nessa oscilação — tão cotidiana quanto filosófica — que percebi que identidade
e pertencimento são quase como dois irmãos siameses. Um tenta se diferenciar; o
outro tenta se integrar. E, curiosamente, nenhum deles vive sem o outro.
Identidade:
quem sou quando ninguém está olhando?
A
identidade não é apenas algo que temos — é algo que fazemos. O
filósofo Paul Ricoeur dizia que a identidade é uma história contínua que
contamos sobre nós mesmos. Não é fixa, não é imóvel; é um fio narrativo, um
entrelaçamento de lembranças, esquecimentos, rupturas e continuidade.
Aristóteles
já afirmava que somos aquilo que praticamos repetidamente: nossas ações criam
nosso caráter. Mas Ricoeur complementa: nosso caráter não é só hábito, é memória
— especialmente memória seletiva, porque ninguém lembra de tudo, e o que
escolhemos lembrar já diz muito sobre quem somos.
Assim,
a identidade emerge nesse espaço curioso entre práticas e narrativa; entre
aquilo que fazemos e aquilo que contamos sobre o que fazemos.
Pertencimento:
a casa invisível que construímos dentro de nós
Já
o pertencimento tem outra textura. É menos sobre “quem sou” e mais sobre “onde
me encaixo”. É um fenômeno ao mesmo tempo social e afetivo.
O sociólogo Anthony Giddens lembra que o indivíduo moderno não nasce
simplesmente inserido num grupo estável; ele precisa continuamente negociar
seus lugares de pertencimento. A modernidade liquefaz certezas.
Zygmunt
Bauman, por sua vez, dizia que o pertencimento é uma das
grandes buscas humanas porque fornece amparo em um mundo de fluxos, mudanças e
instabilidades. Pertencer é sentir que o chão tem forma, que as histórias
ressoam, que as palavras reverberam num campo compartilhado.
O
curioso é que o pertencimento não precisa ser real no sentido material. Às
vezes pertencemos mais a um grupo que nunca vimos presencialmente do que à
família com quem convivemos diariamente. Outras vezes nos sentimos estrangeiros
na própria casa e íntimos numa cidade que visitamos um único dia.
O
pertencimento é, assim, uma construção afetiva e simbólica, não apenas
geográfica.
O
encontro entre identidade e pertencimento
Se
a identidade é narrativa e o pertencimento é afeto compartilhado, então o
encontro entre ambos é o que dá estabilidade à experiência humana.
- A identidade precisa do
pertencimento para não se dissolver.
- O pertencimento precisa da
identidade para não virar mera massa indiferenciada.
O
filósofo Charles Taylor argumenta que a identidade se forma reconhecidamente:
isto é, preciso que o outro reconheça, espelhe e legitime quem sou para que
minha autoimagem se consolide. Não se trata de depender dos outros para
existir, mas de compreender que nossa identidade é sempre relacional.
Tornamo-nos alguém diante de alguém.
Portanto,
pertencimento não é apenas o lugar onde eu me sinto confortável; é o lugar que
me reconhece. É o cenário onde a minha narrativa encontra eco.
As
fraturas inevitáveis
Contudo,
tanto a identidade quanto o pertencimento contêm tensões inevitáveis:
- Às vezes pertencemos a um grupo
que já não corresponde à pessoa que nos tornamos.
- Às vezes nossa identidade cresce
para um lado e o grupo exige que permaneçamos pequenos.
- Às vezes mudamos tanto que já não
encontramos ambiente que acompanhe essa mudança.
E
o contrário também ocorre: grupos mudam, culturas se transformam, cidades
evoluem, e nós ficamos deslocados, como se tivéssemos ficado parados no tempo.
É
por isso que muitos autores contemporâneos — como Stuart Hall — afirmam
que a identidade moderna é fragmentada, híbrida, em constante
reconstrução. Não há mais uma essência fixa; há uma obra aberta, sempre em
andamento.
A
síntese possível: pertencemos ao que nos permite continuar sendo
No
fim, talvez identidade e pertencimento não sejam metas, mas processos.
Pertencemos ao que nos ajuda a crescer, ao que acolhe nossas contradições, ao
que não estranha nossa mudança.
Identidade
é o movimento interno; pertencimento é o espaço onde esse movimento se
sustenta.
A
pergunta não é:
“Quem
sou?”
nem
“A que pertenço?”
A
questão mais profunda é:
“Onde
posso continuar me tornando?”
Porque
a identidade é fluxo, e o pertencimento é o rio onde esse fluxo não se perde.