Vamos
ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais
sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas
por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o
trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão.
A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo
bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar
pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar
vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história
que ainda nos cabe escrever.
Sentimentos
e emoções dos que ficam
Quem
fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é
um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as
ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma
coisa não continua.
Os
que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa,
raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem
ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente
lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.
No
cotidiano isso aparece em gestos pequenos:
—
no lugar vazio à mesa;
—
na mensagem que quase enviamos;
—
na música que não dá para ouvir até o fim;
—
no aniversário que vira um parêntese no calendário.
Os
que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos
cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É
como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.
Rubem
Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E
talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando
entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.
Com
o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas
menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença
invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.
Os
que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias,
risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o
outro dentro de si.
Porque,
no fundo, ficar não é só permanecer.
É
aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de
companhia.
Mais
velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me
aguarda, assim espero!
