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domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Sabedoria Instantânea

Reflexões Filosóficas sobre o Tempo e a Pressa no Mundo Contemporâneo

Este é mais um de meus momentos dezembrino de reflexão, este mês de dezembro carrega com ele toda sua energia de finalização e recomeço, o ano está chegando ao fim e sinto que o ano que finaliza avançou com tudo muito rápido, tudo muito instantâneo.

A ideia de sabedoria instantânea soa quase como um paradoxo em minha mente. Percebi que vivemos em uma época em que tudo é rápido: notícias, comida, relações, decisões. Tudo precisa ser resolvido agora. "Instantâneo" se tornou uma palavra que define não apenas a tecnologia, mas também o modo como buscamos respostas e soluções para a vida cotidiana. Então, o que significa ser "sábio" em um mundo onde a pressa parece ser a regra?

Eu estava pensando nisso outro dia enquanto observava o movimento frenético das pessoas ao meu redor. Alguém, com pressa de sair de casa, mal teve tempo de se despedir dos filhos, já estava no carro e, no minuto seguinte, mandando uma mensagem urgente. A vida não para, e nesse turbilhão, a ideia de sabedoria instantânea vai ganhando força. Mas será que, ao buscar sabedoria de forma tão rápida, não estamos perdendo o que é essencial: o tempo para refletir, para parar e simplesmente ser?

O que é Sabedoria?

A sabedoria não se resume apenas ao conhecimento. Para Aristóteles, por exemplo, ela era uma virtude intelectual, algo que se alcança com prática e experiência. Sabedoria é mais do que ter informações; ela envolve um tipo de discernimento profundo sobre o que realmente importa e como reagir de maneira equilibrada e justa aos desafios da vida. A sabedoria, então, é uma qualidade que requer tempo. E aqui mora o dilema: como podemos ser sábios em um contexto que nos exige decisões rápidas, onde a reflexão profunda parece ser um luxo que não podemos nos dar?

A Sabedoria Instantânea nas Pequenas Coisas

É interessante como o cotidiano moderno reflete essa busca por sabedoria instantânea. Um exemplo clássico é quando estamos navegando pela internet, buscando uma resposta para uma pergunta. Em questão de segundos, encontramos milhares de respostas, fóruns, vídeos explicativos. Essa rapidez nos dá a sensação de que conseguimos resolver tudo de forma eficiente, mas será que a "sabedoria" que obtemos dessa forma é verdadeira? Será que, ao procurar uma solução rápida, não estamos negligenciando a complexidade da questão?

Outro exemplo pode ser visto nas interações sociais. Você já reparou como, em uma conversa, muitas pessoas estão mais focadas em responder rapidamente do que realmente ouvir o outro? Esse comportamento, muitas vezes impulsionado pela urgência de encontrar uma resposta ou uma solução, faz com que, em vez de construir uma troca profunda de ideias, criemos um ciclo de respostas superficiais. A verdadeira sabedoria, talvez, não resida em sempre ter uma resposta pronta, mas em saber escutar, em entender o outro sem pressa.

Filosofia e a Pressa do Mundo

O filósofo francês Henri Bergson, que refletiu sobre o tempo, nos traz uma perspectiva interessante. Para ele, o tempo não é algo que possa ser medido apenas em segundos ou minutos, mas sim vivido de forma qualitativa. Em um mundo onde tudo é pressa, a verdadeira sabedoria talvez esteja em desacelerar e perceber o "tempo vivido" – aquele que não pode ser apressado, mas que se revela lentamente, no presente, nas experiências do dia a dia.

Imaginemos, então, uma pessoa que está esperando numa fila, com o olhar impaciente, checando o celular, descontente com a "perda de tempo". Se ela se permitisse, no entanto, observar o que está ao seu redor – as conversas das outras pessoas, os detalhes do ambiente, o movimento das coisas – ela poderia descobrir, de forma quase inesperada, um momento de sabedoria. Aquele tempo "perdido" pode se transformar em algo significativo, um pequeno instante de percepção mais profunda sobre o que realmente importa.

A Sabedoria como Transformação, não Resposta Rápida

Ao invés de buscar por respostas rápidas, talvez a sabedoria esteja em permitir-se ser transformado pelas experiências, sem a pressa de precisar de uma conclusão imediata. Não se trata de ter a resposta instantânea, mas de permitir que o processo de questionamento e reflexão nos leve a uma compreensão mais rica, mais profunda e, acima de tudo, mais humana.

Portanto, a sabedoria instantânea, como um conceito, não parece se encaixar muito bem na filosofia clássica ou mesmo na maneira como a vida realmente funciona. O que encontramos em nossas interações rápidas e decisões precipitadas muitas vezes é apenas uma ilusão de controle. No entanto, ao desacelerar, ao buscar compreender o tempo e as experiências com mais profundidade, podemos descobrir uma sabedoria mais rica – a sabedoria de estar plenamente presente e consciente no fluxo da vida.

Quem sabe, no final das contas, a verdadeira sabedoria não seja algo que possamos conquistar de forma instantânea, mas sim algo que se revela a partir da paciência, da escuta e da reflexão cuidadosa sobre o que realmente importa, sem pressa. As festas de final de ano estão logo ali, hoje pensamos nos preparativos para que tudo seja feito com o melhor, aproveitemos esta distancia no tempo para desacelerar e reduzir a velocidade do caminhar, do olhar, do ouvir, procurando sentir mais e dar-nos tempo de processar a energia que desde já está impregnando nossa atenção.

Penso que esse ensaio reflete a nossa busca incessante por respostas rápidas e soluções prontas. O que você acha disso? Já teve momentos em que sentiu que a sabedoria veio de um instante simples do dia a dia?


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Enfim, Dezembro


Dezembro sempre chega como quem abre a porta devagar, deixando entrar um vento que não é só de verão — é um vento de balanço. Um mês que parece ter memória própria, que nos chama para aquele tipo de reflexão que só aparece quando o ano começa a se despedir.

É curioso como, nas festas de final de ano, todo mundo tenta colocar a vida em ordem: arrumamos a casa, repensamos escolhas, revisitamos arrependimentos como quem folheia um álbum antigo. É quase um ritual filosófico, ainda que ninguém admita. A gente percebe que o tempo não corre — ele nos atravessa. E dezembro é o lembrete final, quase pedagógico, de que tudo muda, até aquilo que jurávamos eterno.

Nessas semanas, as luzes piscam nas ruas como se quisessem imitar o que sentimos por dentro: um misto de esperança, saudade e esse desejo meio secreto de recomeçar direito. Talvez seja isso que faz dezembro tão único: ele nos coloca diante do que fomos, mas também nos empurra para o que ainda podemos ser.

E, no fundo, há uma sabedoria simples escondida nesse mês: a de que celebrar não é esquecer a dureza do caminho, mas reconhecer que seguimos caminhando. Que apesar dos tropeços, chegamos até aqui. E que, por um instante, é permitido respirar, abraçar, agradecer — e sonhar de novo.

Dezembro não é só o fim. É o intervalo em que o espírito encontra um lugar para se ajeitar antes de começar outra jornada. E isso, por si só, já é filosofia suficiente para encerrar o ano com o coração um pouco mais inteiro.

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Inadequações Intelectuais

Há algo profundamente humano em nos sentirmos inadequados diante de nossas próprias capacidades intelectuais. É um desconforto que emerge na interseção entre o que pensamos que deveríamos saber e o que, de fato, sabemos. Esta sensação de inadequação não é apenas um reflexo da ignorância, mas também da consciência de uma vastidão intelectual inatingível. Para alguns, é um impulso para a busca; para outros, uma prisão invisível.

O que significa ser intelectualmente inadequado?

A inadequação intelectual não é, necessariamente, um sinal de falha. Ao contrário, ela pode ser o reconhecimento honesto de nossas limitações. Como Sócrates proclamava, “só sei que nada sei.” Este paradoxo socrático revela que a verdadeira sabedoria não está em saber tudo, mas em compreender a extensão da própria ignorância.

No entanto, a sociedade moderna, obcecada por produtividade e desempenho, transforma essa humildade intelectual em motivo de vergonha. Espera-se que saibamos sobre tudo: política, ciência, cultura pop, tecnologia e, preferencialmente, com opiniões articuladas e convincentes. Não há espaço para dizer "não sei."

Inadequação e o confronto com o outro

O sentimento de inadequação intelectual é intensificado na presença do outro. Um colega que cita autores desconhecidos, um amigo que expõe conceitos complexos com naturalidade, ou mesmo as redes sociais, com suas “mentes brilhantes” destilando sabedoria em 280 caracteres, nos fazem sentir minúsculos em nossas limitações.

Essa comparação, frequentemente, é injusta. Como o filósofo brasileiro Vilém Flusser argumenta em Filosofia da Caixa Preta, somos moldados por informações de contextos diferentes, e nossas habilidades cognitivas são tão específicas quanto as ferramentas que utilizamos. A inadequação, portanto, pode ser menos sobre falhas reais e mais sobre expectativas desajustadas que colocamos em nós mesmos.

O paradoxo do saber e a evolução pessoal

A inadequação intelectual também pode ser vista como motor de evolução. Quando nos sentimos aquém, surge a oportunidade de aprender, questionar e expandir nossos horizontes. Esse movimento é essencialmente humano. Como N. Sri Ram observa em O Coração da Religião: “A verdadeira busca não está no acúmulo de conhecimentos, mas no despertar da compreensão.”

Esse despertar, entretanto, não vem sem angústia. A inadequação nos lembra de que o saber nunca é completo, e a cada resposta encontrada surgem novas perguntas. É como caminhar por um deserto em que o oásis sempre parece estar no horizonte.

A inadequação como uma ilusão social

É necessário também perguntar: será que as inadequações intelectuais são, em grande parte, fabricadas pela sociedade? Um sistema educacional voltado mais para resultados do que para o entendimento, combinado com uma cultura de competição, pode exacerbar a sensação de que nunca sabemos o suficiente.

O filósofo brasileiro Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, defende que a educação deve ser um ato de liberdade, não de opressão. Quando o saber é instrumentalizado para moldar indivíduos em padrões predefinidos, a inadequação intelectual se torna uma forma de controle.

Aceitação e serenidade

Aceitar nossas inadequações intelectuais não significa resignação, mas sim compreensão. Reconhecer que o saber é um processo infinito nos libera da pressão de sermos "suficientes" para os outros ou mesmo para nós mesmos.

Como um rio que flui sem fim, nosso intelecto é sempre renovado. A inadequação, portanto, não é um problema a ser corrigido, mas uma condição intrínseca da jornada humana. Por fim, talvez devêssemos olhar para nossas inadequações intelectuais como o poeta Fernando Pessoa via o mar: vasto, incontrolável, mas também belo. É no movimento constante das ondas – na busca pelo saber – que reside a essência de nossa humanidade.


terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Rasgos de Lucidez

A lucidez, esse brilho fugaz que atravessa o véu do cotidiano, aparece quase como um relâmpago: breve, intenso e, às vezes, perturbador. Há momentos em que, no fluxo incessante de preocupações e distrações, somos tomados por um clarão de compreensão, um instante em que tudo parece fazer sentido – ou ao menos, um sentido que escapa à lógica ordinária. Esses “rasgos” não são apenas vislumbres do real, mas também momentos em que somos arrancados de nossas ilusões, confrontados com verdades que preferiríamos ignorar.

A Lucidez como Ruptura

Albert Camus, em O Mito de Sísifo, descreve a lucidez como o reconhecimento do absurdo da existência. Para ele, esse instante de clareza não oferece consolo, mas uma espécie de liberdade. Ao percebermos que a vida não tem sentido intrínseco, podemos finalmente criar nosso próprio significado. Nesse sentido, os rasgos de lucidez muitas vezes surgem como uma ruptura: um corte no tecido confortável da vida cotidiana que nos força a enxergar além.

Imagine alguém preso em um ciclo repetitivo de trabalho e consumo. De repente, enquanto espera o ônibus, um pensamento invade sua mente: “Para quê tudo isso?” Esse momento de lucidez não traz respostas prontas, mas provoca um mal-estar criativo. É a rachadura que permite à luz entrar, parafraseando Leonard Cohen.

O Cotidiano e a Névoa

A lucidez, entretanto, não é o estado natural do ser humano. Na maior parte do tempo, vivemos mergulhados em uma espécie de névoa. Essa névoa é feita de rotinas, preocupações triviais e distrações tecnológicas. Gastamos horas rolando telas, discutindo banalidades ou evitando o silêncio – tudo para escapar do confronto com questões fundamentais.

Mas essa névoa tem uma função: protege-nos da angústia de pensar demais. Nietzsche, em A Gaia Ciência, sugere que o ser humano precisa de ilusões para viver. A verdade nua e crua, sem adornos, seria insuportável. No entanto, é precisamente por isso que os rasgos de lucidez são tão importantes: eles nos relembram que há algo além do ordinário, que nossa existência pode – e deve – ser interrogada.

O Peso da Lucidez

Há, contudo, um preço a pagar pela lucidez. Ao percebermos a fragilidade das certezas que nos sustentam, podemos sentir o peso esmagador da responsabilidade. É mais fácil viver no automático, deixar-se levar pela correnteza da vida, do que assumir o controle do barco. O filósofo brasileiro Vilém Flusser argumenta que a lucidez exige coragem, pois implica sair de um estado de “programação” e encarar a liberdade com suas consequências.

Pense no artesão que, após anos produzindo peças iguais, percebe que sua criação perdeu o sentido para ele. Esse rasgo de lucidez pode levá-lo a abandonar seu ofício ou a redescobrir sua paixão por criar algo novo. Em ambos os casos, há um custo: o conforto da familiaridade é substituído pelo risco do desconhecido.

Lucidez e Transformação

Apesar do desconforto que provoca, a lucidez carrega um potencial transformador. Ela nos faz questionar hábitos, valores e até mesmo as estruturas sociais em que estamos inseridos. Ao percebermos a arbitrariedade de certas convenções, ganhamos a oportunidade de escolher conscientemente como queremos viver.

Por exemplo, um jovem que, após uma conversa profunda com amigos, percebe que está seguindo uma carreira apenas para agradar à família. Esse momento de lucidez pode levá-lo a tomar decisões difíceis, mas necessárias, para alinhar sua vida com seus desejos autênticos.

Os rasgos de lucidez são, portanto, momentos em que deixamos de ser apenas espectadores passivos de nossas vidas para nos tornarmos agentes conscientes.

O Preço e a Beleza da Lucidez

Os rasgos de lucidez não são constantes, nem deveriam ser. Se vivêssemos em um estado permanente de lucidez, talvez fôssemos consumidos pela angústia. Mas esses momentos de clareza, ainda que breves, são o que nos mantém humanos. Eles nos lembram de nossa capacidade de reflexão, de nossa liberdade e do poder que temos para transformar o mundo – começando por nós mesmos.

Como disse o poeta Olavo Bilac: "Há, na alma humana, recantos a que só se chega por essa luz violenta do desespero ou da lucidez." Os rasgos de lucidez são essa luz violenta que ilumina, ainda que por um instante, os recantos mais profundos de quem somos. E, por mais dolorosa que seja, é nela que reside a possibilidade de renovação.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Águas Uterinas


Na loucura diária da vida, às vezes esquecemos de dar uma olhada no retrovisor e lembrar de onde viemos. Logo pensei na frase "Nos aninhar em águas uterinas é preciso retornar diariamente ao começo" é como um lembrete cósmico de que, em meio a toda a correria, vale a pena parar por um momento e mergulhar nas raízes da existência. Essa metáfora intrigante, que nos convida a nos conectar com o que somos, aceitar as mudanças como parte do pacote e abraçar o recomeço como se fosse um abraço caloroso de um velho amigo. Então, vamos fazer refletir pelas águas uterinas da filosofia do cotidiano, onde o passado e o presente se encontram na dança interminável da vida.

Assim como o útero é um símbolo de renascimento, a ideia de retornar diariamente ao começo nos lembra da importância de recarregar nossas energias e renovar nosso espírito. Em meio aos desafios cotidianos, é fácil se perder, mas ao começar cada dia com a mente aberta e o coração renovado, podemos enfrentar as adversidades com uma perspectiva mais clara e resiliente. Cada manhã é um novo começo, cada noite ao término do dia agradecemos pela jornada do dia e nos recolhemos ao descanso merecido e na preparação do dia que há por vir, neste ciclo vamos seguindo em frente assim como as estações do ano num ato eterno de renovação.

As "águas uterinas" representam nossas raízes, o lugar de onde viemos. Em nossa busca incessante por progresso e sucesso, muitas vezes deixamos de lado a importância de nos conectar com nossas origens. Voltar às raízes não significa estagnação, mas sim uma base sólida para construir nossa jornada. Conhecer nossas histórias, tradições e valores nos dá um senso de identidade e pertencimento.

No nosso corre-corre diário, dar um jeito de retornar às "águas uterinas" pode parecer um desafio, mas é mais fácil do que a gente pensa. Que tal começar o dia com um cafézinho demorado, prestando atenção em cada gole? Ou, quem sabe, dar uma escapadinha para um respiro profundo ao ar livre, só você e a natureza. Antes de dormir, vale a pena refletir sobre o dia, anotando coisas bacanas num caderninho, como um tipo de gratidão noturna. Desconectar do mundo digital também é uma ótima pedida, dando espaço para uma despedida relaxante do dia. E, claro, não esquecer da dose diária de criatividade, seja rabiscando em um caderno ou soltando a voz no chuveiro. Ao fazer dessas coisinhas simples um hábito, a gente está meio que voltando para casa todos os dias, sentindo aquela água uterina de renovação. É tipo um lembrete de que, mesmo no meio do caos, a gente pode se dar um tempo e recomeçar, porque, afinal, cada dia é como uma chance fresquinha de voltar ao começo e se reconectar consigo mesmo.

Recomeço Constante

A frase sugere que o retorno ao começo não é uma ação única, mas um processo contínuo. Em um mundo que muda rapidamente, a habilidade de se reinventar é uma vantagem valiosa. A cada desafio superado, a cada aprendizado, temos a oportunidade de nos renovar e crescer. O recomeço constante não é sinal de fracasso, mas de adaptabilidade e resiliência. Podemos agregar uma perspectiva filosófica as nossas reflexões, enriquecendo a reflexão sobre a metáfora das "águas uterinas" e o retorno constante ao começo. Vamos considerar a filosofia de Heráclito, o filósofo pré-socrático conhecido por sua ênfase na mudança e no fluxo constante, vamos conversar com nosso amigo filósofo e ver o que ele tem a nos dizer.

Na perspectiva Heraclitiana, Heráclito acreditava que a única constante no universo é a mudança. Sua famosa frase "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio" destaca a natureza dinâmica da realidade. Ao aplicarmos essa perspectiva ao nosso tema, podemos considerar que nos aninhar nas "águas uterinas" simboliza reconhecer a fluidez da vida e a necessidade de se adaptar a essa constante transformação. Em sua filosofia, Heráclito enfatiza a importância de aceitar a mudança e aprender com ela. Podemos integrar essa ideia as nossas reflexões, argumentando que retornar ao começo diariamente não implica apenas em uma nostalgia estática, mas sim em abraçar ativamente o fluxo da existência. Ao nos aninharmos nessas águas simbólicas, podemos encontrar a sabedoria em aprender com cada experiência, assim como o rio continua a fluir, nós também fluímos no sentido do amadurecimento e somos diferentes ao pulsar de nosso coração.

Heráclito também falava sobre a tensão entre opostos e a necessidade dessa dualidade para a harmonia do todo. Isso pode ser aplicado à ideia de recomeço constante, onde os desafios e os momentos de renovação se entrelaçam para formar uma narrativa significativa. O recomeço não é apenas um retorno ao começo, mas uma parte essencial do processo de crescimento e evolução. Ao incorporar a perspectiva heraclitiana, nossas reflexões ganham uma dimensão filosófica que destaca a importância da aceitação da mudança, do aprendizado contínuo e da compreensão da dinâmica do recomeço. Esses elementos filosóficos podem enriquecer a reflexão sobre a metáfora proposta, nos oferecendo uma visão mais profunda sobre como a sabedoria antiga pode iluminar nossas experiências cotidianas.

Como sugerimos anteriormente, a metáfora das "águas uterinas" pode ser encontrada em pequenos gestos do cotidiano. Desde a pausa para a meditação matinal até a reconexão com a natureza, encontramos maneiras de nos aninhar e renovar. Também está presente quando reconhecemos e valorizamos nossas raízes, seja através de tradições familiares, conversas com entes queridos ou simples momentos de introspecção, enfim temos diariamente oportunidades belíssimas para renovação, só precisamos estar conscientes a cada passo dado.

Em um mundo onde a velocidade muitas vezes obscurece o significado mais profundo da vida, a metáfora das "águas uterinas" nos lembra da importância de retornar ao começo. A renovação diária, a conexão com nossas raízes e o recomeço constante são elementos cruciais para uma vida plena e significativa. Então, vamos nos aninhar nessas águas simbólicas, mergulhar nas nossas origens e encontrar a força para recomeçar a cada dia, cada dia é uma oportunidade que inicia ao acordarmos e percebemos que estamos vivos e plenos, aproveitemos as oportunidades.

Então, enquanto encerramos esta navegada pelas águas uterinas da reflexão cotidiana, vale a pena lembrar que a vida é um rio incessante de mudanças e recomeços. A metáfora das "águas uterinas" nos ensina a não apenas navegar nesse rio, mas também a nos banhar em suas águas revitalizantes, reconectando-nos com nossas raízes e abraçando as reviravoltas inevitáveis. Assim como Heráclito nos lembra, a mudança é a única constante, e talvez, nos aninhar nas águas do começo diariamente seja à nossa maneira de surfar as ondas do inconstante. Da próxima vez que se sentir sobrecarregado pelo turbilhão da vida moderna, respire fundo, sinta o seu “chi” (a respiração expande-se, o corpo parece encher-se de ar, que entra e sai livremente do nosso corpo), mergulhe nessas águas simbólicas e permita-se recomeçar, porque, afinal, a mágica muitas vezes acontece quando nos damos a chance de retornar ao começo, rejuvenescendo a alma para o que o futuro ainda tem a oferecer. Que as águas uterinas da sabedoria e do renascimento continuem a nos guiar em nossas jornadas diárias. E vamos lembrar, que não se trata apenas de sobreviver no rio da vida, mas de nadar, dançar e abraçar cada onda que vem em nossa direção. Até a próxima maré de reflexão e recomeço no Maré Cheia Papareia.