O Silêncio que Escolhe e o Ruído que Expulsa
Há
quem diga que não existe pior surdez do que a de quem não quer ouvir. Mas essa
surdez voluntária — os chamados ouvidos moucos — não é apenas uma defesa
contra sons indesejados; é uma estratégia seletiva de preservação, poder e até
indiferença.
A
filósofa brasileira Marilena Chaui, ao discutir a escuta no espaço
democrático, lembra que ouvir é um ato político. Não basta que as palavras
cheguem ao tímpano; é preciso que sejam acolhidas como dignas de atenção. Ouvidos
moucos, portanto, não são um defeito físico, mas uma decisão: o fechamento
da escuta por conveniência, preconceito ou exaustão.
No
cotidiano, encontramos essa atitude em reuniões onde alguém finge anotar
enquanto a fala do outro passa como vento; em conversas de família nas quais um
conselho de um idoso é recebido com o olhar no celular; ou na criança que
ignora o chamado dos pais porque está mergulhada num desenho animado. O som
chega, mas não se instala.
O
curioso é que a surdez seletiva não é exclusividade de quem detém poder. Ela
também é mecanismo de autoproteção. Uma pessoa exausta pode praticar ouvidos
moucos para não absorver queixas ou demandas que, naquele momento, seriam
insuportáveis. É o corpo dizendo: não posso lidar com isso agora.
Mas
o perigo surge quando essa recusa se torna regra e não exceção. A surdez
voluntária mina vínculos, fragiliza acordos e cria a ilusão de que problemas
desaparecem quando não são escutados. Como lembra Chaui, “o diálogo é a base do
reconhecimento do outro” — e negar a escuta é, de certa forma, negar a
existência do interlocutor.
Fazer
ouvir não é gritar mais alto, mas criar as condições para que o outro queira e
possa ouvir. E escutar não é apenas captar sons, mas abrir espaço interno para
que o que chega não seja repelido de imediato. Talvez, no fundo, ouvidos
moucos não sejam sobre o silêncio que escolhem, mas sobre o mundo que
deixam de conhecer.

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