Reflexos do Eu na Era das Telas
Há quem diga que o celular virou um espelho de bolso. Mas diferente daquele do banheiro, onde a gente se encara meio sonolento e sem filtro, esse novo espelho tem brilho, retoques e até música de fundo. Nele, a imagem aparece como queremos ser vistos — e não exatamente como somos. O problema é que, depois de tanto se olhar através desse espelho digital, muita gente já não sabe mais se está se mostrando ou se está se buscando.
Lacan
chamava
de “estádio do espelho” o momento em que o bebê, ainda descoordenado e
fragmentado, se reconhece pela primeira vez em sua imagem refletida. Ele sorri,
aponta, celebra — porque acredita ter encontrado ali uma unidade de si mesmo.
Mas é uma unidade ilusória: a imagem é só uma projeção, não o corpo real. A
partir daí, o sujeito passa a se construir através do olhar do outro, tentando
ser aquilo que imagina ser visto.
Hoje,
esse espelho se multiplicou em mil telas. Cada selfie é um pequeno estádio do
espelho repetido: “sou eu ali?” — a pergunta que o bebê fez diante do reflexo
agora ecoa no feed do Instagram. Só que o olhar do “outro” não é mais apenas o
da mãe ou do cuidador: é o de centenas de seguidores, amigos e estranhos. Cada
curtida confirma (ou nega) o reflexo que escolhemos mostrar. A identidade, que
já era uma invenção instável, se torna um mosaico de olhares.
No
cotidiano, isso aparece nas pequenas angústias: o adolescente que apaga uma
foto por não ter recebido curtidas suficientes; o adulto que se sente menor ao
ver a viagem perfeita do colega; a mãe que transforma o filho em conteúdo,
buscando reconhecimento materno no olhar digital. Todos, de algum modo, estão
diante do mesmo espelho que Lacan descreveu — só que agora ele é coletivo e
global. A fragmentação do sujeito deixou de ser teórica e virou notificação.
O
filósofo e psicanalista francês via nesse momento um ponto decisivo da formação
do “eu”: a imagem externa organiza o caos interno. Mas se o espelho se quebra
em mil pedaços, o reflexo também se dispersa. O sujeito contemporâneo, exposto
a tantas versões de si, corre o risco de não se reconhecer mais em nenhuma. A
unidade, que já era ficção, se dissolve em performance.
Talvez
o desafio de hoje não seja “ser visto”, mas reaprender a se ver — com
todas as imperfeições que o espelho sem filtro revela. Porque, como lembrava
Lacan, o “eu” não é o que se mostra, mas o que se constrói entre o olhar e o
desejo, entre o reflexo e o real. E quem sabe, um dia, a gente consiga olhar o
espelho — seja ele de vidro ou de tela — e dizer: “sim, esse também sou eu,
ainda que incompleto”.
