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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Rivalidades Narcísicas

O espelho como campo de batalha

À primeira vista, rivalidade parece coisa de disputa concreta — empresas competindo por mercado, irmãos pelo afeto dos pais, clubes de futebol pelo título. Mas a rivalidade narcísica é mais sutil e corrosiva: não é sobre o que o outro tem, mas sobre o que o outro é ou parece ser. É a competição silenciosa que nasce no reflexo do espelho, quando o eu não se mede contra parâmetros objetivos, mas contra a imagem idealizada que projeta em si mesmo e nos outros.

Freud, em Introdução ao Narcisismo, já sugeria que a autoestima está sempre exposta a ameaças vindas de fora, porque a presença de um outro que encarne — ou aparente encarnar — o nosso ideal desencadeia uma ferida narcísica. Não suportamos ver fora o que gostaríamos de possuir dentro. O rival narcísico, portanto, não é o inimigo declarado, mas o “espelho ambulante” que lembra o eu de sua insuficiência.

No cotidiano, isso aparece quando um colega de trabalho recebe elogios e, mesmo sem termos interesse direto na promoção dele, sentimos um incômodo difuso. Ou quando um amigo posta uma foto aparentemente banal, mas que nos desperta irritação, pois ele “parece” viver a vida que projetamos para nós mesmos. A rivalidade aqui não é por bens materiais — é pelo direito de ocupar um lugar simbólico de superioridade ou reconhecimento.

Jacques Lacan, ao descrever o estádio do espelho, mostrou que a identidade se constrói na relação com a imagem, e essa imagem é sempre mediada por outros. Assim, o rival narcísico é aquele que nos força a confrontar as falhas no “espelho interno” — o eu idealizado que carregamos. Não é à toa que essas rivalidades tendem a ser silenciosas e persistentes: é difícil combatê-las sem combater a si mesmo.

As redes sociais elevaram essa lógica a um laboratório constante de rivalidades narcísicas. Ali, cada “like” é um microato de validação que pode ser interpretado como triunfo ou derrota. O feed não é apenas uma vitrine de vidas, mas um corredor de espelhos distorcidos, onde a imagem do outro é amplificada e, inevitavelmente, comparada à nossa. O “story” de alguém tomando café em Paris pode não nos afetar pelo café, mas pelo que ele representa: a narrativa de uma vida mais bela, mais desejável, mais “perfeita” que a nossa. E, nesse espaço, a rivalidade não precisa sequer ser nomeada — basta deslizar o dedo e sentir o leve desconforto que cada imagem provoca.

O problema é que, enquanto a competição comum pode gerar crescimento e aprimoramento, a rivalidade narcísica tende a aprisionar. Ela não busca criar, mas nivelar — não quer ser mais, quer que o outro seja menos. E, nesse ponto, a batalha é infinita, porque a imagem do outro não depende só do outro, mas também do quanto projetamos nela.

Talvez o antídoto mais radical não seja vencer o rival, mas dissolver o espelho — deslocar o eixo do valor próprio da comparação para a criação. Como sugere Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, é preciso sair do ciclo da performance incessante e entrar em um ritmo de afirmação, onde o outro não seja ameaça à nossa imagem, mas um possível coautor de nossa narrativa.

No fundo, rivalidades narcísicas são sintomas de um mundo em que o reconhecimento foi deslocado do encontro real para o reflexo. E enquanto ficarmos presos a esses reflexos — agora retroiluminados pela tela do celular — a batalha será contra uma imagem que nunca se quebra, apenas nos quebra.


terça-feira, 27 de maio de 2025

Neutralidade Axiológica

Coisa difícil olhar sem julgar...

Outro dia, numa fila de padaria, um senhor comentava com indignação sobre um jovem tatuado que estava à frente, dizendo algo como: “Esses de hoje em dia não respeitam nada”. Ninguém respondeu, mas ficou aquele silêncio meio constrangido. O senhor não sabia nada sobre o rapaz — nem seu nome, nem sua história, nem se ajudava a mãe doente ou lia poesia russa à noite. Apenas julgou. E eu fiquei pensando: como a gente tem dificuldade de observar o outro sem já carregar um julgamento pronto na mochila.

Essa mania de “colocar adjetivo em tudo” não é só uma questão de educação. É também um desafio para quem tenta estudar o mundo social com seriedade. Por isso, Max Weber cunhou um conceito que hoje ainda soa radical para muita gente: neutralidade axiológica. A ideia de olhar um fenômeno sem misturar os próprios valores pessoais no meio da análise. Em outras palavras: observar, registrar, compreender — mas não transformar tudo numa pregação moral.

Weber não era ingênuo. Sabia que ninguém é uma folha em branco. Todo pesquisador tem ideais, crenças, paixões políticas. Mas ele dizia: quando estudamos a sociedade, é preciso tentar separar o que é um fato do que é uma opinião. Isso não significa virar uma pedra ou fingir que não sentimos nada. Significa ter o compromisso de não impor nossos valores ao objeto estudado, mas sim escutá-lo com atenção, mesmo que ele nos incomode.

Um exemplo bem cotidiano: um sociólogo estudando o tráfico de drogas numa comunidade não pode chegar já dizendo que todos ali são bandidos. Ele precisa entender o contexto, as escolhas limitadas, as redes de poder, as relações de sobrevivência. Se ele já entra com a moral pronta, fecha os olhos para a complexidade do real. E aí, ao invés de ciência, faz panfleto.

Na vida cotidiana, esse esforço de neutralidade pode até parecer impossível — e talvez seja mesmo, no sentido pleno. Mas isso não quer dizer que não valha a tentativa. Talvez, mais do que uma técnica científica, a neutralidade axiológica seja um exercício ético: o de dar ao outro o direito de existir sem ser imediatamente rotulado.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti dizia que pensar exige “rigor e delicadeza”. Rigor para não nos deixarmos levar pelos ventos fáceis da opinião. Delicadeza para acolher o que é diferente de nós. Neutralidade axiológica é isso: um gesto de respeito. Um silêncio que escuta antes de falar. Uma espera que observa antes de bater o martelo.

Talvez, se aquele senhor da padaria tivesse esse olhar, visse no jovem tatuado não uma ameaça, mas uma história. Talvez visse nele alguém tão humano quanto ele próprio. E, quem sabe, se interessasse mais pelo pão quentinho do que pela vida alheia.