O espelho como campo de batalha
À
primeira vista, rivalidade parece coisa de disputa concreta — empresas
competindo por mercado, irmãos pelo afeto dos pais, clubes de futebol pelo
título. Mas a rivalidade narcísica é mais sutil e corrosiva: não é sobre o que
o outro tem, mas sobre o que o outro é ou parece ser. É a competição
silenciosa que nasce no reflexo do espelho, quando o eu não se mede contra
parâmetros objetivos, mas contra a imagem idealizada que projeta em si mesmo e
nos outros.
Freud,
em Introdução ao Narcisismo, já sugeria que a autoestima está sempre
exposta a ameaças vindas de fora, porque a presença de um outro que encarne —
ou aparente encarnar — o nosso ideal desencadeia uma ferida narcísica. Não
suportamos ver fora o que gostaríamos de possuir dentro. O rival narcísico,
portanto, não é o inimigo declarado, mas o “espelho ambulante” que lembra o eu
de sua insuficiência.
No
cotidiano, isso aparece quando um colega de trabalho recebe elogios e, mesmo
sem termos interesse direto na promoção dele, sentimos um incômodo difuso. Ou
quando um amigo posta uma foto aparentemente banal, mas que nos desperta
irritação, pois ele “parece” viver a vida que projetamos para nós mesmos. A
rivalidade aqui não é por bens materiais — é pelo direito de ocupar um lugar
simbólico de superioridade ou reconhecimento.
Jacques
Lacan, ao descrever o estádio do espelho, mostrou
que a identidade se constrói na relação com a imagem, e essa imagem é sempre
mediada por outros. Assim, o rival narcísico é aquele que nos força a
confrontar as falhas no “espelho interno” — o eu idealizado que carregamos. Não
é à toa que essas rivalidades tendem a ser silenciosas e persistentes: é
difícil combatê-las sem combater a si mesmo.
As
redes sociais elevaram essa lógica a um laboratório constante de rivalidades
narcísicas. Ali, cada “like” é um microato de validação que pode ser
interpretado como triunfo ou derrota. O feed não é apenas uma vitrine de vidas,
mas um corredor de espelhos distorcidos, onde a imagem do outro é amplificada
e, inevitavelmente, comparada à nossa. O “story” de alguém tomando café em
Paris pode não nos afetar pelo café, mas pelo que ele representa: a narrativa
de uma vida mais bela, mais desejável, mais “perfeita” que a nossa. E, nesse
espaço, a rivalidade não precisa sequer ser nomeada — basta deslizar o dedo e
sentir o leve desconforto que cada imagem provoca.
O
problema é que, enquanto a competição comum pode gerar crescimento e
aprimoramento, a rivalidade narcísica tende a aprisionar. Ela não busca criar,
mas nivelar — não quer ser mais, quer que o outro seja menos. E, nesse ponto, a
batalha é infinita, porque a imagem do outro não depende só do outro, mas
também do quanto projetamos nela.
Talvez
o antídoto mais radical não seja vencer o rival, mas dissolver o espelho —
deslocar o eixo do valor próprio da comparação para a criação. Como sugere Byung-Chul
Han, em A Sociedade do Cansaço, é preciso sair do ciclo da
performance incessante e entrar em um ritmo de afirmação, onde o outro não seja
ameaça à nossa imagem, mas um possível coautor de nossa narrativa.
No
fundo, rivalidades narcísicas são sintomas de um mundo em que o reconhecimento
foi deslocado do encontro real para o reflexo. E enquanto ficarmos presos a
esses reflexos — agora retroiluminados pela tela do celular — a batalha será
contra uma imagem que nunca se quebra, apenas nos quebra.
