Filósofo e Teólogo - padroeiro dos teólogos dos impressores e até dos cervejeiros
“É
preciso compreender para crer, e crer para compreender.”
Começamos bem! Começamos com um
pensamento de Agostinho
que dá a liga entre a filosofia e a teologia, ele foi um dos filósofos da época
medieval que desejava unir dois conceitos distintos: fé e razão. Dessa forma,
para ele, só haveria entendimento sobre o mundo se fosse possível crer em um
ser divino que o criou, que deu ao ser humano o poder de ser racional e
desenvolver ideias.
A densidade da obra de Santo Agostinho é imensa indo além do preconceito de que trata apenas de assuntos religiosos, sua obra é tida como
patrimônio universal. Dada a sua importância, mesmo aqueles que não professam a
fé cristã, o têm em grande estima, tanto por seu valor filosófico como por seu
valor literário.
Desde o momento que o
professor José Luiz Novaes (IPA/2006) me apresentou a filosofia de Santo Agostinho me
interessei pelas obras e inicialmente li “Confissões”, a partir daí me senti agostiniano,
não deixo de ler algum trecho de suas obras, sinto que lá tem encaixe para
muito do que vivemos.
Agostinho fala muito ao homem atual, sua linguagem, seu
modo de ser e de se colocar, torna sua filosofia muito atual. Ele fala ao
coração das pessoas, a carência de afeto e a necessidade de segurança que a
sociedade de hoje sente falta.
As Confissões e A Cidade de Deus (principais
obras) são tidas como obras-modelo por biógrafos, teólogos, historiadores,
filósofos e autores diversos.
Santo Agostinho narra sua
história de conversão no livro Confissões. Enquanto
estava sentado embaixo de uma árvore, ele ouviu uma voz que dizia: “Toma e lê”.
Foi então que Santo Agostinho, ao ler Romanos 13.13-14, converteu-se
definitivamente ao cristianismo.
Padroeiro dos cervejeiros
Santo Agostinho nasceu provavelmente em 13 de
novembro de 354 (354-430), em Tagaste, na Numídia, atual Souk Ahrais, na
Argélia. Filho de Patrício e de Santa Mônica, Santo Agostinho tinha dois irmãos,
Navílio e Perpétua.
A corrente filosófica que Agostinho seguiu e defendeu com dedicação é a
Patrística,
suas principais obras são Confissões; Cidade de Deus; Sobre
a Doutrina Cristã; Sobre a Trindade.
A “Patrística” é a denominação para a filosofia
cristã formulada pelos padres da Igreja nos primeiros cinco séculos de
nossa era, buscando combater a descrença e o paganismo por meio de uma
apologética da nova religião, calcando-se freq. em argumentos e conceitos
procedentes da filosofia grega.
Ler “Confissões”
é prazeroso, a leitura flui com leveza, mas com seriedade, pincei duas amostras
para degustação, são trechos de dois capítulos, um trata da memória e outro
sobre o tempo.
Capitulo 8 –
Palácios da Memória
“Quando lá entro
mando comparecer diante de mim todas as imagens que quero. Umas apresentam-se
imediatamente, outras fazem-me esperar por mais tempo, até serem extraídas, por
assim dizer, de certos receptáculos ainda mais recônditos. Outras irrompem aos
turbilhões e, enquanto se pede e se procura uma outra, saltam para o meio, como
que a dizerem: "Não seremos nós?" Eu, então, com a mão do espírito,
afasto-as do rosto da memória, até que se desanuvie o que quero e do seu
esconderijo a imagem apareça à vista.”
Capitulo 14 – O que é o tempo?
“O que é, por
conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a
quem me fizer a pergunta, já não sei.”
Biografia
Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta (hoje Suk
Ahras), na Argélia. Estudou retórica em Cartago e seguiu várias linhas
filosóficas, como de início o maniqueísmo, corrente baseada no conflito entre o
bem e o mal, e o ceticismo. Ao ler a vida de António do Deserto, de Atanásio de
Alexandria, Agostinho decide se converter ao cristianismo católico
e abandonar toda sua antiga vida de conforto e hedonismo para servir a Deus. A
conversão de Agostinho ocorreu também sob a influência do bispo de Milão, Santo Ambrósio, sendo
batizado em 387. Foi nomeado bispo de Hipona (atual Annaba), na Argélia, onde
morreu aos 75 anos.
É considerado o maior teólogo do cristianismo e o
maior filósofo desde Aristóteles. Agostinho realizou a primeira grande
sistematização do pensamento cristão, incorporando as ideias de Platão ao
cristianismo. Seu sofisticado pensamento serviu como base para toda a teologia
cristã ocidental.
A filosofia de Santo Agostinho é
essencialmente uma fusão das concepções cristãs com o pensamento platônico.
Subordinando a razão à fé, Agostinho de Hipona afirma existirem verdades
superiores e inferiores, sendo as primeiras compreendidas a partir da ação de
Deus.

Livro: Cidade de Deus
“A civitas Dei [Cidade de Deus] ficou tão
intimamente ligada à situação [histórica] que a filosofia da história e
da política quase se converte numa crítica sociológica da civilização
romano-cristã, com o sentimento fatalista ultrapassando a vontade de ordem
espiritual. Mas o que quer que a civitas Dei tenha sofrido como sistema
de política cristã, não se pode esperar que o homem das Confissões,
fascinado com o crescimento histórico da sua própria vida, se liberte da
estrutura íntima da sua personalidade e não se deixe impressionar profundamente
pelos determinantes da situação política à medida que estas cresceram
historicamente.”
A Cidade de Deus de Agostinho é uma reflexão
filosófica, teológica e política, dali podemos aprender como uma sociedade como
a romana se tornou fraca e tenha caído nas mãos dos bárbaros, Agostinho traz a
luz as causas da queda de Roma, ele afirma que foi causada pela corrupção dos
costumes, a sociedade ficou frágil deixando-se levar pelas paixões humanas, seguiu
mais as paixões do que propriamente a razão e inteligência. Tenho a impressão
de que nossa sociedade segue os mesmos passos de Roma quando foi saqueada em
546 caindo nas mãos dos Godos.
Pensamentos de Santo Agostinho
Agostinho parte da noção de um Deus que habita nossa
alma: “Deus é mais íntimo a nós do que nós em nós mesmos”. Nesse sentido, o
exercício da fé, para esse filósofo, se processa de maneira bastante pessoal,
como se percebe pela leitura de suas Confissões, na qual ele diz
que Deus estava “dentro de mim, e eu lá fora a procurar-te”.
A teoria da iluminação é a teoria agostiniana, a qual
afirma ser a ação de Deus que leva o homem a atingir as verdades superiores,
Agostinho, de maneira alguma desvaloriza a razão; mas, para ele, a Verdade
plena só é encontrada se o pensamento humano estiver iluminado por essa fé que,
como vimos, habita no interior de nossa alma.
Em sua máxima, “Conhece-Te, Aceita-Te e Supera-Te!”, Agostinho, apresenta-nos
um caminho, um caminho que poderá ser trilhado por nós seres humanos joias
raras.
Quando
queremos ter conhecimento é necessário inicialmente analisar – é o conhece-te,
apontando os pontos fracos e pontos fortes; aceita-te é estar ciente da
realidade atual; supera-te é a iniciativa em ser proativo superando os pontos
fracos e as ameaças, trabalhando as oportunidades.
A máxima é um convite ao autoconhecimento ao
alcance de cada um de nós. Através do autoconhecimento poderá ser obtido de
forma natural através da experiência de vida e dos bons hábitos, principalmente
o de se auto indagar, serão como ferramentas que irão proporcionar a iluminação
para uma vida melhor sendo está uma das razões de estarmos neste mundo.
Há
pessoas que não conseguem se olhar no espelho, isto é ocasionado por algo
interno que não vai bem, a baixa autoestima se expressa nas atitudes,
sentimentos e pensamentos, o tempo todo a ficar remoendo a insegurança e o
vazio, muitos não conseguem ficar sozinhos sem sentir angustia.
Agostinho
entendia
bem das paixões e enganos do ser humano, ele sabia que no fundo da alma habita
o medo da tristeza e do fracasso, inevitáveis quando se é mortal. Atualmente a
sociedade vive uma exposição exagerada nas redes sociais, a internet e a redes
sociais que vieram para facilitar nossas vidas, estão sendo usados desenfreadamente
criando problemas como a dependência da constante aprovação da curtida.
“Se gostou dá um
like”, este termo contemporâneo viralizou, surgiu com a sacada de alguém atento
ao interesse da sociedade em se tornar cada vez mais visível, agora é um
negócio lucrativo, onde sempre tem alguém querendo mostrar alguma coisa, seja
de sua produção ou até do compartilhamento, fake News ou não. Isto reflete a
forma exagerada e perigosa que a sociedade está se envolvendo, a internet é
vista como a maior praça pública do mundo, este é um mundo real refletido no
mundo virtual, mas é real, assim se não curtiram sua publicação não tem porque
sentir o vazio ou pensar que o estão criticando por que deixaram de curtir.
A exposição exagerada
geralmente está associada a um sentimento da necessidade de admiração e aprovação,
aguardamos a aprovação do outro até por conta da aparência estética, vivemos na
era do silicone, botox, peeling, nada contra, desde que isto não sirva para
preencher espaços que só cabem energias imateriais pertinentes ao processo de
aperfeiçoamento do ser humano, vai chegar o momento que nenhum destes paliativos
irão dar conta do processo de envelhecimento.
A vaidade e orgulho são
parte de nossas emoções humanas, são necessários no processo de bem-estar, no
entanto, o exagero contamina nossa alma, o exagero alimenta o demônio narcisista
que está em vigília habitando dentro de cada um.
Traçando
um paralelo com os tempos atuais, podemos dizer que vivemos numa era marcada
pela vaidade, defensiva e por pouca humildade. As pessoas ignoram as críticas e
rebatem até mesmo suas piores posições, em uma tentativa desesperada de manter
seu orgulho. Santo Agostinho, conhecido em sua época como uma das grandes
mentes pensantes, nos dá um exemplo de humildade quando reconhece que suas
palavras foram, às vezes, imprecisas, destemperadas ou imprudentes. Alguns anos
antes de sua morte, ele fez algumas correções de seus comentários sobre as
Escrituras, publicou “Retratações” que é uma coleção de reflexões sobre suas
obras, observando que passou a compreender melhor a Bíblia em sua velhice.
Se quiser se libertar
destas amarras, converse com Agostinho, ele já dizia que: se você quiser ser livre, ame.
E é amando que seremos amados por aquilo que somos, é deixando de ser egoísta que
afastaremos a solidão.
Esta máxima é um convite ao trabalho com início
imediato e sua iluminação levara uma vida inteira, trata-se de uma proposta de trabalhar em cima de nossas qualidades e
defeitos, com desejo de superação e crescimento. Cientes que somos falhos como
humanos, nossa motivação é o desejo de superação, ao buscar o melhor de nós, poderemos nos
tornar a cada dia um pouquinho mais raras joias humanas.
"Minha
memória contém meus sentimentos. Não da mesma forma que estão presentes na
mente quando os experimenta, mas de uma maneira bastante diferente. Isso está
de acordo com os poderes especiais da memória. Pois, mesmo quando estou
infeliz, lembro dos tempos quando fiquei alegre. E quando eu sou alegre, posso
lembrar a infelicidade passada. Posso lembrar os medos passados, e ainda assim
não tenho medo e quando lembro que, uma vez que queria algo, posso fazê-lo sem
querer obtê-lo agora.
Às vezes, a memória pode induzir a sensação oposta. Pois
posso me alegrar ao lembrar a tristeza que acabou e foi processada. E lamento
lembrar a felicidade que chegou ao fim.", este pensamento é tão atual que foi citado no
final da primeira temporada da série "Marte" da Netflix!
“Não há dúvida de que a
memória é como o ventre da alma. A alegria, porém, e a tristeza são o seu
alimento, doce ou amargo.”
“O orgulho é a fonte de
todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios.”
“A medida do amor é amar sem medida.”
“Ninguém faz bem o que faz contra a vontade,
mesmo que seja bom o que faz.”
Sugestão de cinebiografia de Agostinho de Hipona é o filme (DVD) do
diretor italiano Roberto Rosselini (Roma, Cidade Aberta), com áudio original em
italiano e opção de dublagem em português, tem duração de 115 min., colorido
produzido em 1972, comercializado pela Paulinas.
Fontes:
Agostinho, Santo. Confissões / De Magistro; tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e Ambrósio de Pina, S.J. - Angelo Ricci; São Paulo: Abril S.A, 1973 - Coleção Pensadores
Agostinho, Santo.
A Cidade de
Deus (Contra os
pagãos). Petrópolis/São Paulo:Vozes/Federação
Agostiniana Brasileira, 2001.
Agostinho, Santo,
Bispo de Hipona, 354-430 Retratações
/ Santo Agostinho; tradução e notas de Agustinho Belmonte. – São Paulo: Paulus,
2019. Coleção Patrística.
https://www.erealizacoes.com.br/blog/santo-agostinho/
https://guiadoestudante.abril.com.br/especiais/santo-agostinho/
https://www.umineiro.com/post/171305998632/minha-mem%C3%B3ria-cont%C3%A9m-meus-sentimentos-n%C3%A3o-da
https://pjnazaresbc.webnode.com.br/products/conhece-te-aceita-te-e-supera-te-disse-santo-agostinho/
http://www.paroquiasantoafonso.org.br/a-licao-de-santo-agostinho-para-a-era-da-internet/
https://escoladepais.org.br/publicacao/limites-e-cuidados-no-uso-das-redes-sociais-os-perigos-da-exposicao-publica/