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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Medo Egoísta


Há medos que nascem para proteger a vida — o medo de uma queda, de um animal selvagem, de uma notícia médica incerta. São medos que têm um sentido biológico, quase nobre, porque servem à sobrevivência. Mas há outro tipo de medo, mais discreto, mais íntimo e, de certo modo, mais perigoso: aquele que não protege o corpo, e sim o ego. É o medo egoísta — o medo de perder o papel que acreditamos ter no mundo, a imagem que criamos de nós mesmos, ou o controle sobre o que amamos.

Esse medo aparece em gestos cotidianos: quando deixamos de expressar uma ideia para não parecer tolos, quando não elogiamos o outro para não sentir inveja, ou quando tememos mudar de vida porque alguém pode nos julgar. Mas ele se revela com mais força nas relações afetivas — quando o medo de perder alguém disfarça o próprio egoísmo. Queremos a pessoa por perto não porque desejamos o bem dela, mas porque precisamos dela à vista, sob nosso alcance emocional, como se a distância apagasse o amor. É o medo que transforma o afeto em vigilância e o cuidado em posse.

Amar, nesses casos, é querer ter, não querer ver. E esse querer ter é uma forma disfarçada de fraqueza: é o pavor de ficar só, de não ser lembrado, de não ter importância. O medo egoísta é o guardião da aparência — o medo de não sermos o centro do outro.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, disse que a angústia é a vertigem da liberdade — aquele mal-estar que sentimos diante do infinito das possibilidades. O medo egoísta é, justamente, a recusa dessa vertigem. Ele quer segurança em tudo: nas escolhas, nas relações, no amor. É a tentativa de domesticar o imprevisível. Só que o amor, como a existência, não cabe em grades.

Quando o ego tem medo, ele constrói fortalezas — mas esquece que toda fortaleza é também uma prisão. O medo de perder o outro faz com que percamos o essencial: o respeito pela liberdade do outro de ser, de ir, de crescer. E esse medo, que parece amor, é na verdade apego ao espelho: queremos o outro como reflexo, não como horizonte.

O educador e pensador brasileiro Rubem Alves escreveu que “amar é ter um pássaro pousado no ombro. Se ele quiser ficar, fica. Se quiser ir, vai. Amor que prende é amor que mata”. Essa imagem sintetiza o antídoto contra o medo egoísta: o amor que liberta, que permite o voo, mesmo que a ausência doa.

Superar o medo egoísta não significa eliminar o medo, mas transformá-lo: trocar o medo de perder pelo medo de não viver com verdade; trocar o medo da distância pelo desejo de que o outro floresça; trocar o controle pela confiança. Porque, no fim, quem vence o medo egoísta não perde ninguém — apenas deixa de aprisionar o que ama. E descobre, enfim, que o amor só existe quando o outro é livre o bastante para ficar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Os Perâmbuladores

Reflexões sobre o andar sem destino

Há uma classe de pessoas que não marcham, não caminham, nem viajam: perambulam. Não se dirigem a um fim, mas se deixam levar por um movimento interior que não pede destino, apenas deslocamento. São os perâmbuladores — figuras que desafiam a lógica finalista da produtividade e da direção. À primeira vista, parecem vagos; à segunda, são profundos como o silêncio entre os passos.

Perambular é uma forma de resistência ao tempo cronológico. Enquanto o mundo gira em torno de horários e metas, o perâmbulador faz do passo um gesto filosófico: não acelera, não recua, apenas está. Ele transforma a cidade em pensamento, o caminho em corpo, a errância em morada. Nessa leveza errante, há uma sabedoria sem livro.

Walter Benjamin, em sua reflexão sobre o flâneur, já intuía esse espírito errático. O flâneur, que vagava pelas passagens parisienses do século XIX, não buscava sentido no destino, mas no olhar atento às vitrines, às pessoas, aos sons. Era um leitor da cidade com os pés. O perâmbulador vai além: não apenas observa, mas dissolve seu eu no movimento. Já não há separação entre quem anda e o mundo por onde se anda.

Enquanto o flâneur ainda se reporta a um contexto urbano e estético, o perâmbulador é uma figura quase existencial. Como diz o filósofo brasileiro Vilém Flusser, em Filosofia da Caixa Preta, “existir é ser jogado num mundo e ter de escolher caminhos.” O perâmbulador escolhe o caminho sem mapa, não por ignorância, mas por ousadia. Ele não teme se perder porque compreende que, no fundo, tudo o que é vivo já está fora do lugar.

Na cidade há ruas que todos conhecem: a que leva ao trabalho, ao supermercado, à escola, à igreja. São linhas retas de um desenho previsível. Mas há outras ruas — menos lembradas, feitas de calçadas tortas, muros grafitados e gatos que dormem sob carros antigos. É nelas que habitam os perâmbuladores, mesmo que só de passagem.

Perambular é como ser uma pipa solta entre os prédios, navegando não pelo vento da pressa, mas pela brisa da curiosidade. Cada esquina é uma pergunta. Cada semáforo, uma pausa para ouvir o coração da cidade bater. O perâmbulador não está atrasado nem adiantado — está em compasso com o que ainda não tem nome.

Imagine uma cidade como uma partitura. Os carros são as notas marcadas; os pedestres apressados, as batidas regulares. Já os perâmbuladores são os silêncios, as pausas, os improvisos de jazz que acontecem entre os compassos. Eles não seguem a melodia — escutam o som das rachaduras no concreto, o assobio do vento entre as grades de um edifício velho, o tilintar de um vendedor de picolé.

Há quem diga que são vagabundos. Mas só porque se esqueceram de vagar. A cidade — quando olhada com olhos que não buscam utilidade — revela pequenas epifanias: uma criança dançando na chuva, uma árvore nascendo entre dois tijolos, uma senhora alimentando pombos como quem distribui bênçãos.

O mundo precisa dos que andam sem rumo. São eles que lembram aos demais que a vida não é só chegada, mas travessia. E que, às vezes, é na rua errada que se encontra a janela certa.

Perambular é uma forma de liberdade quieta. Quem perambula não foge nem busca: apenas está, em suspensão entre o lugar e o fora-do-lugar. É um modo de escutar o mundo com os pés, de pensar sem palavras, de estar presente sem ser esperado.

E talvez, no fundo, todos sejamos perâmbuladores — apenas esquecemos disso quando nos aprisionamos em rotas, metas e relógios. Quem reaprende a andar sem saber onde vai, talvez reencontre, sem querer, o que nunca deixou de procurar.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Sujeito Normativo

 


O que há por trás de quem obedece (ou não)!

A gente passa a vida achando que está escolhendo. Desde cedo nos perguntam o que queremos ser quando crescer, como se a escolha fosse uma estrada aberta. Mas, se olharmos com mais atenção, muitas das nossas decisões já vieram meio prontas: o modo como nos vestimos, o jeito de falar, até a forma de amar — tudo parece já ter uma receita, mesmo antes de perguntarmos qual é o gosto.

Nesse cenário, surge uma figura discreta, mas poderosa: o sujeito normativo. Ele não é alguém específico, mas um tipo de presença que habita todos nós. É aquele que atua conforme as normas, internaliza as regras, se identifica com o que é esperado. Mas quem é esse sujeito, afinal? E, mais importante, ele é livre?

A construção do sujeito que se adapta

O sujeito normativo nasce de uma rede invisível de expectativas. Desde a infância, aprendemos o que é "certo", o que "pega bem", o que "deve ser feito". Somos guiados não por ordens diretas, mas por uma malha de sugestões sutis, recompensas emocionais e castigos simbólicos. A norma não grita, ela sussurra — e é exatamente aí que está sua força.

Michel Foucault nos ajuda a entender essa dimensão quando fala do poder disciplinar: o sujeito é produzido, ele não preexiste à norma. Ao se alinhar com os padrões, o sujeito normativo se realiza — e ao mesmo tempo, se limita. O curioso é que esse processo é quase sempre inconsciente: obedecemos sem saber que estamos obedecendo.

Louis Dumont: o sujeito entre o todo e o indivíduo

O antropólogo francês Louis Dumont nos ajuda a entender como as normas sociais moldam o próprio valor que damos ao sujeito. Em sua análise das culturas ocidentais e orientais, Dumont destaca a diferença entre duas formas de organização social: holismo e individualismo.

No holismo (mais comum em sociedades tradicionais, como na Índia), o indivíduo existe em função do todo — a coletividade, o grupo, a ordem social. Já no individualismo (mais típico do Ocidente moderno), o sujeito é concebido como autônomo, separado, dotado de direitos próprios.

Mas Dumont chama atenção para um paradoxo: mesmo onde o individualismo parece reinar, como nas democracias liberais, ele depende de um conjunto de normas culturais que moldam esse sujeito autônomo. Ou seja, até a ideia de “ser livre” já vem normatizada. O sujeito normativo moderno, portanto, não é menos normativo do que o tradicional — ele apenas internalizou novas formas de obediência, como a busca pela autenticidade, pela autorrealização, pelo sucesso pessoal.

Esse olhar antropológico revela que a norma muda de forma, mas nunca desaparece. O que chamamos de “escolha pessoal” frequentemente é apenas uma forma moderna de cumprir o que o grupo espera de nós.

O dilema entre pertencimento e autenticidade

Ser um sujeito normativo tem vantagens claras: ele se encaixa, circula com fluidez, é bem-visto. Mas há um preço. À medida que nos tornamos aquilo que esperam de nós, deixamos de escutar o que poderíamos ter sido. A norma, quando muito apertada, sufoca a singularidade. Quando vivemos apenas para cumprir o papel social que nos foi oferecido, nos tornamos personagens no teatro do previsível.

A filósofa Judith Butler acrescenta que as normas não apenas regulam o comportamento, mas criam a própria possibilidade de existência reconhecida. Só somos "alguém" se nos alinhamos minimamente ao que é considerado um "alguém possível". É um jogo de reconhecimento. E, às vezes, a margem entre ser reconhecido e ser livre é estreita.

A potência de desviar

Mas nem tudo está perdido. Há momentos em que o sujeito normativo tropeça — e é nesse tropeço que ele pode se reinventar. Quando uma pessoa diz “não” a um padrão que a oprime, não é apenas um ato de negação; é também uma criação. A transgressão, quando lúcida, abre espaço para novas formas de ser.

O filósofo brasileiro Vladimir Safatle nos convida a pensar que a transformação social exige esse gesto de ruptura, de recusa à normalização. O sujeito crítico, que tensiona as normas em vez de simplesmente segui-las, torna-se agente de mudança. Não para viver à margem por vaidade, mas para alargar as bordas do possível.

Entre a norma e o desejo

No fundo, todos nós vivemos esse equilíbrio instável entre seguir e reinventar. O sujeito normativo não é nosso inimigo — ele é parte de nós, aquela parte que busca acolhimento, sentido, pertencimento. Mas é preciso não esquecer da outra metade: o sujeito desejante, que sonha com o que ainda não tem nome.

Louis Dumont nos ajuda a entender que até o desejo de ser único pode ser, paradoxalmente, uma norma social. Talvez o desafio não seja abandonar a norma, mas dançar com ela. Saber quando ela nos serve e quando nos aprisiona. E, sobretudo, lembrar que viver de verdade é também inventar novas normas, feitas sob medida para aquilo que ainda não fomos — mas podemos vir a ser.