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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Vida Sem Testemunhas


Há dias em que a vida parece acontecer num quarto sem janelas. Acordo, faço o que precisa ser feito, falo com pessoas, respondo mensagens — e, ainda assim, algo fica sem registro. Não no sentido burocrático, mas naquele mais fundo: ninguém viu aquilo que realmente aconteceu em mim.

Uma vida sem testemunhas não é exatamente solidão. É outra coisa. É ir ao mercado e, no meio do corredor, perceber que uma lembrança antiga voltou com força. É decidir não responder a uma provocação no trabalho e sentir, por dentro, uma pequena vitória moral que não rende aplausos. É mudar de ideia sobre algo importante — política, fé, amor — sem postar nada a respeito. Nada disso vira narrativa. Nada disso vira prova.

Vivemos num tempo em que quase tudo pede plateia. Se não foi fotografado, parece que não existiu. Se ninguém comentou, soa irrelevante. Mas há transformações que morrem se forem expostas cedo demais. Elas precisam do silêncio como o pão precisa do forno fechado. Uma vida excessivamente testemunhada corre o risco de virar performance; uma vida sem testemunhas pode virar verdade.

Lembro de algo que o brasileiro Manoel de Barros sugeria, à sua maneira torta e bela: o essencial não chama atenção. O que é mais vivo costuma ser discreto. A grama cresce sem fazer barulho; o rio muda o leito sem pedir permissão. Talvez o mesmo valha para nós. O que mais nos transforma acontece fora do enquadramento.

No cotidiano isso aparece em gestos mínimos: escolher não humilhar alguém quando se poderia, aceitar um limite próprio, desistir de ter razão. São decisões que não rendem medalhas. Ninguém bate palma quando a gente amadurece em silêncio. Mas algo se organiza por dentro, como móveis sendo rearrumados numa casa vazia.

Claro, ninguém vive totalmente sem testemunhas. Precisamos de encontros, de reconhecimento, de espelhos humanos. O problema começa quando só existimos diante deles. Quando não há mais um “eu” que continue respirando fora do olhar alheio.

Talvez uma vida bem vivida precise de dois espaços: um público, onde compartilhamos o que pode ser compartilhado; e outro secreto, onde nos tornamos quem somos sem precisar explicar. Esse segundo espaço não deixa rastros, mas deixa forma.

No fim das contas, uma vida sem testemunhas não é uma vida invisível. É uma vida que não depende de ser vista para existir. E isso, estranhamente, devolve um tipo raro de liberdade: a de ser fiel mesmo quando ninguém está olhando.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Antes do Café

 


Pensamentos antes do café...

 

Antes do café, o mundo é um lugar meio embaçado. As ideias ainda estão no modo soneca, a memória falha em lembrar onde está a chave, e a lógica tropeça nas próprias palavras. Antes do café, os planos são apenas sombras do que poderiam ser, e a vontade de conversar com alguém parece um esforço digno de heróis.

 

Há quem diga que o dia começa com o despertador. Mas, sejamos sinceros: o dia começa quando o café entra em cena. Antes dele, a alma está em modo de espera, como um navegador offline tentando carregar o mapa da existência. É nesse intervalo, entre o levantar do corpo e o despertar da mente, que habitam os pensamentos mais sinceros – os que não foram ainda editados pela razão ou moldados pela conveniência.

 

Antes do café, você se lembra de quem precisa ligar, mas não tem energia para o papo. Você pensa nas contas, mas acha melhor não abrir o aplicativo do banco. Antes do café, até a coragem parece pedir cinco minutinhos a mais.

 

E talvez seja aí que mora uma verdade sutil: esse tempo suspenso, meio turvo, revela um você cru, sem defesas. Um ser honesto na confusão, aberto àquilo que o dia quiser trazer. Como diz o poeta Manoel de Barros, “o mundo não foi feito em alfabeto”, e talvez por isso as primeiras palavras do dia demorem tanto a fazer sentido.

 

Depois do café, claro, tudo muda. A ordem volta, a coragem se ajusta à roupa do dia, e a razão toma a frente. Mas os pensamentos antes do café... esses, ah, esses são os mais humanos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Vulnerabilidade Humana

Você já se deu conta de como nossa existência pode mudar em um piscar de olhos? Uma palavra mal colocada, um acidente no trânsito, uma doença inesperada. Parece clichê, mas a vulnerabilidade humana é uma verdade que tentamos esconder sob camadas de produtividade, discursos de força e, muitas vezes, uma busca incessante por controle. Ainda assim, é ela que nos define, nos conecta e, paradoxalmente, nos fortalece.

A Ilusão do Controle

Vivemos em uma era onde a segurança é quase uma obsessão. Contratamos seguros, investimos em saúde, planejamos detalhadamente o futuro. Mas, no fundo, sabemos que o controle total é uma ilusão. Basta um tropeço para percebermos que caminhamos sobre uma corda bamba. Essa percepção, por mais desconfortável que seja, é um lembrete poderoso de nossa humanidade. Somos limitados, falíveis e, talvez por isso, belos.

Situações Cotidianas e o Despertar da Vulnerabilidade

Imagine um dia comum: você está no trabalho, resolvendo questões aparentemente importantes, quando recebe uma ligação dizendo que alguém querido está no hospital. O chão desaparece. Ou talvez você esteja na fila do supermercado e ouça alguém contar sobre como perdeu tudo em uma enchente. Esses momentos nos fazem lembrar que a vulnerabilidade não é apenas nossa – ela é de todos.

Mesmo nas situações mais simples, como quando dependemos da gentileza de um estranho para trocar um pneu furado ou de um médico para diagnosticar uma dor persistente, a vulnerabilidade se manifesta.

A Filosofia da Vulnerabilidade

Hannah Arendt, em suas reflexões sobre a condição humana, destacou como nossa interdependência é inevitável. Segundo ela, o "agir" humano – aquilo que fazemos uns com os outros – sempre envolve risco. Ninguém pode prever completamente as consequências de uma ação ou garantir sua segurança emocional. É nesse espaço de incerteza que a vulnerabilidade mora e que a liberdade também encontra seu lugar.

Outro pensador, Emmanuel Lévinas, nos lembra que a ética começa no rosto do outro, na sua exposição e fragilidade. Ao olhar para o outro, somos chamados à responsabilidade. É como se a vulnerabilidade alheia acordasse em nós uma empatia quase instintiva, um lembrete de que também somos frágeis.

Transformar a Vulnerabilidade em Força

Aceitar a vulnerabilidade como parte intrínseca de nossa existência pode ser libertador. Não significa resignação, mas reconhecimento. Quando deixamos de lutar contra essa característica e passamos a integrá-la em nossas vidas, encontramos coragem. A coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de seguir adiante, mesmo reconhecendo nossa fragilidade.

A prática da compaixão, por exemplo, é uma forma de abraçar a vulnerabilidade. Ao ajudar alguém em dificuldade, percebemos que somos parte de um tecido humano maior. Nossas quedas e nossas forças se entrelaçam, criando algo maior do que a soma de suas partes.

A Beleza do Imperfeito

A vulnerabilidade é também o que torna a arte poderosa, o amor significativo e a vida digna de ser vivida. Um poema de Manoel de Barros capta isso ao dizer que "o que sustenta o encantamento é a imperfeição." Talvez, no final das contas, seja essa nossa maior lição: a vida é bela porque não é imune à dor, mas porque dela nascem a poesia, a conexão e o sentido.

Então, ao invés de temer a vulnerabilidade, que tal acolhê-la? Afinal, é nela que reside nossa capacidade de ser profundamente humanos, de sentir, de crescer e de transformar. Porque, no fio frágil que nos une, encontramos a força para atravessar as tempestades e nos reconstruir – juntos.