Às
vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e
vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um
discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas
camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais
difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.
Na
correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali
existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que
atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também
é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não
basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência
está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a
confiança.
O
problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil
medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as
dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela
contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e
paciência, pede coragem para atravessar as aparências.
Rubem
Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos,
só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo
para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está
ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez
percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há
por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no
outro não só um rosto, mas um universo.
Olhar
para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de
humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor
da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.
Fernando
Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o
valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que
acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede
em quantidade, mas em profundidade.
Então,
olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de
aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o
sabor mais puro.
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