Reflexões sobre ver, reconhecer e se libertar
Em
meio ao barulho cotidiano, há um gesto antigo e revolucionário: contemplar. Mas
nem toda contemplação é passiva. Existe uma forma de olhar que purifica, que
destrava o que está entalado no peito — chamemo-la de contemplação catártica.
É quando ver se torna uma experiência de libertação.
Diferente
da mera observação estética ou da apreciação descomprometida do belo, a
contemplação catártica é intensa, quase incômoda. Não se limita a quadros,
paisagens ou sinfonias. Pode acontecer diante do rosto de alguém adormecido, de
uma casa em ruínas ou de um silêncio que pesa. Nesse olhar, algo se move dentro
de nós. E o que antes era represado se dissolve.
Aristóteles,
na Poética, descreve a catarse como o processo pelo qual o espectador da
tragédia se liberta das paixões por meio do medo e da piedade. Mas podemos ir
além do palco. Em nossa vida ordinária, também assistimos a dramas reais. E há
momentos em que ver — verdadeiramente ver — nos limpa por dentro. A
contemplação catártica ocorre quando reconhecemos a dor do outro, a finitude
das coisas, ou até mesmo nossa insignificância diante do tempo, e isso nos
transforma. Sentimos tristeza, mas não ficamos presos nela; sentimos espanto,
mas não fugimos. Saímos modificados.
Nas
relações humanas, a contemplação catártica se manifesta no momento raro
em que olhamos alguém sem o filtro do julgamento, do interesse ou da distração.
É o instante em que enxergamos o outro como um ser ferido, complexo e
igualmente vulnerável. Às vezes, basta ver um amigo chorar em silêncio ou notar
a hesitação na fala de um parente para que algo em nós ceda. Contemplar, nesse
caso, é acolher a presença do outro sem tentar consertá-lo, é permitir-se ser
tocado pela verdade alheia. E isso nos liberta de papéis, máscaras e defesas,
criando um espaço de conexão onde, por um segundo, somos profundamente humanos
juntos.
O
filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, em A Salvação do Belo,
aponta que na sociedade atual a estética foi domesticada e anestesiada. O belo
perdeu sua capacidade de ferir, de comover, de exigir algo de nós. A
contemplação virou consumo rápido. No entanto, Han também sugere que o
verdadeiro belo ainda pode nos desestabilizar. A contemplação catártica resgata
esse poder: ver algo com tal profundidade que nos obriga a sair de nós mesmos —
e, assim, nos reencontrar.
Não
se trata de procurar grandes espetáculos. A catarse pode nascer ao assistir a
queda de uma folha, ao ouvir alguém contar sua história sem interromper.
Trata-se de sustentar o olhar, deixar-se afetar, deixar cair as defesas. Nesse
sentido, contemplar é um ato de coragem e de abertura ao que excede o eu.
Em
tempos de aceleração e distração, a contemplação catártica é uma forma de
resistência. É quando não nos contentamos com o que salta aos olhos, mas
permitimos que o mundo nos toque de maneira profunda — e, por isso mesmo, nos
purifique. Ela não nos salva do sofrimento, mas nos devolve à inteireza de quem
sente, compreende e atravessa.
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