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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Convicções Estanques

A Prisão do Certeiro

Há pessoas que caminham pela vida com certezas de ferro. Suas opiniões não mudam, suas ideias parecem eternas, e qualquer questionamento soa como ofensa pessoal. São as chamadas convicções estanques, aquelas que não se deixam atravessar pelo tempo, nem pela experiência, nem pelo diálogo. À primeira vista, parecem força e segurança; mas, vistas mais de perto, revelam uma rigidez que se confunde com fragilidade.

No cotidiano, encontramos esse fenômeno a todo instante. O colega de trabalho que repete, há anos, as mesmas fórmulas “infalíveis”, mesmo quando o contexto mudou. O vizinho que insiste que “sempre foi assim” para justificar tradições que já não fazem sentido. Ou ainda a pessoa que, em um debate, não ouve o argumento do outro, porque não procura aprender — apenas confirmar o que já pensa. A convicção estanque é como uma parede: sólida, mas incapaz de deixar passar o ar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui lembra que a filosofia nasce do espanto e da dúvida. Nesse sentido, convicções que não se movem são o oposto do exercício filosófico: elas fecham o horizonte em vez de abri-lo. Para ela, a democracia, por exemplo, só se fortalece quando aceitamos que nenhuma verdade é absoluta, e que todo saber precisa ser revisado à luz do diálogo e da experiência coletiva.

As convicções estanques, porém, oferecem um conforto tentador. No meio da incerteza do mundo, agarrar-se a uma crença rígida dá sensação de firmeza. É por isso que tantas pessoas preferem o dogma à reflexão, a resposta pronta à pergunta incômoda. Mas esse conforto cobra um preço: impede a transformação. Quem se tranca nas próprias certezas não vê o movimento da vida e corre o risco de se tornar estrangeiro dentro do próprio tempo.

No Brasil, vemos isso na polarização política e social. Convicções rígidas se tornam bandeiras que dividem famílias, amizades, comunidades. O diálogo é trocado por slogans; o pensamento crítico, por certezas impermeáveis. O resultado é um empobrecimento coletivo: não crescemos no encontro, mas nos enclausuramos no espelho de nós mesmos.

Talvez seja hora de recuperar a humildade filosófica: reconhecer que nossas convicções podem ser revisadas, que a mudança não é fraqueza, mas sinal de vitalidade. Afinal, a vida não é estanque; é fluxo. E convicções que não respiram acabam sufocando quem as sustenta.


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