Entre o Eu, o Aqui e o Agora
A
filosofia da linguagem nos deu muitos instrumentos para entender como nomeamos
o mundo — mas os indexicais continuam sendo como portas que se movem
conforme nos aproximamos. “Eu”, “aqui”, “agora” não apontam para nada fixo; são
coordenadas móveis que se deslocam com o próprio sujeito. O que torna esses
termos fascinantes é a sua incerteza essencial: só têm sentido no momento em
que são proferidos e, imediatamente, esse sentido se dissolve, como se fosse
areia escorrendo entre os dedos.
Imagine
alguém dizendo “Estou com fome agora”. Essa frase, capturada numa
gravação, será verdadeira no instante do registro, mas perde a garantia de
verdade no instante seguinte. É um mapa cujo “você está aqui” muda antes que
possamos dobrar a esquina. O mesmo vale para “Eu”: a pessoa que diz eu
ao amanhecer não é a mesma que dirá eu à noite, mesmo que seja o mesmo
corpo.
O
filósofo brasileiro Vilém Flusser — ainda que tenha trabalhado mais com
comunicação e cultura do que com a semântica formal — oferece um ponto de
apoio. Ao discutir a mediação dos signos, Flusser nos lembra que a linguagem é
sempre uma projeção de situação. Isso significa que cada indexical não apenas
aponta para uma posição no espaço-tempo, mas revela e esconde
simultaneamente o sujeito que o profere. Se “eu” muda a cada instante, não
se trata apenas de uma limitação da linguagem, mas da própria instabilidade de
quem fala.
No
cotidiano, essa incerteza é mais comum do que percebemos. Um pai que diz “Volto
já” pode estar falando de cinco minutos ou de cinco anos — o tempo indexical “já”
depende de contextos invisíveis, expectativas tácitas, histórias partilhadas.
Um casal que discute e ouve “Estou aqui” não escuta apenas uma informação
geográfica, mas uma afirmação emocional, talvez desesperada. Os indexicais são
tanto coordenadas do GPS quanto coordenadas da alma.
A
incerteza, portanto, não é defeito — é a marca de que a linguagem vive junto
com quem fala. Flusser talvez diria que essa “móvel ambiguidade” é a única
forma possível de diálogo verdadeiro, pois força a escuta atenta e a
reconstrução do sentido a cada instante.
O
perigo está em esquecer essa natureza instável e cristalizar os indexicais como
se fossem absolutos. Quando um governante diz “agora é hora de mudança” ou
“estamos juntos”, a força retórica vem justamente da suspensão dessa
instabilidade — como se o “agora” fosse universal e não apenas um ponto efêmero
na corrente do tempo.
A
filosofia da incerteza de indexicais nos convida a duas tarefas:
- Reconhecer
que o sentido de eu, aqui, agora nunca é definitivo,
mas se reconfigura a cada enunciação.
- Aceitar
que entender o outro exige decifrar não apenas as palavras, mas o contexto
vivo que as sustenta.
Assim,
cada “eu” é um rastro e um prenúncio, cada “aqui” é um lugar e um deslocamento,
cada “agora” é instante e memória. E a incerteza não é obstáculo, mas talvez a
mais bela prova de que ainda estamos falando — e nos escutando — uns aos
outros.
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