Eu estava sentado na cafeteria — aquele tipo de manhã em que o mundo ainda não decidiu o que vai ser. O vapor do café subia devagar, como se também estivesse pensando. Sempre achei que cafeterias são pequenos santuários: lugares onde a vida desacelera o suficiente para que a gente perceba o que normalmente passa batido.
Foi
ali que me peguei pensando na convicção de profundidade.
Essa
sensação estranha de que nada pode ser apenas o que parece.
O
hábito de desconfiar da superfície
Eu
ouvi uma conversa na mesa ao lado. Alguém dizia:
—
“Ele não fez isso à toa. Tem coisa por trás.”
E
pensei: como adoramos essa frase. Tem coisa por trás.
O
filósofo Friedrich Nietzsche talvez sorrisse com ironia. Ele desconfiava
da obsessão humana por profundidade. Às vezes, o que chamamos de “profundo” é
só uma interpretação mais sofisticada — um enfeite intelectual para dar peso ao
que é simples.
No
cotidiano, eu mesmo faço isso:
- Se alguém demora a responder, imagino
uma intenção oculta.
- Se um colega está distante, suponho
uma crise existencial.
- Se algo dá errado, procuro um
significado maior — como se o universo estivesse me enviando um recado
cifrado.
Talvez
nem sempre haja um abismo. Talvez, às vezes, seja só cansaço.
Quando
a falta de profundidade é perigosa
Mas
então lembro de Hannah Arendt. Ela falava da “banalidade do mal” — a
ideia perturbadora de que grandes tragédias podem nascer não de mentes
perversamente profundas, mas de pessoas que simplesmente não pensam.
Ali,
o problema não é excesso de profundidade — é sua ausência.
No
trabalho, já vi decisões injustas tomadas por pura pressa.
Na
família, palavras duras ditas sem reflexão.
Nas
redes sociais, opiniões replicadas como eco automático.
A
superficialidade também fere.
E
fico ali, entre dois extremos: desconfiar demais ou pensar de menos.
A
profundidade como necessidade psicológica
Talvez
a convicção de profundidade seja uma tentativa de resistir à leveza excessiva
do mundo.
O
sociólogo Zygmunt Bauman descreveu nossa modernidade como líquida — tudo
escorre, nada se fixa. Num mundo assim, buscar profundidade é quase um ato de
sobrevivência. Queremos raízes. Queremos densidade.
Mas
percebo algo curioso: às vezes eu uso a profundidade como abrigo. Se tudo tem
uma causa complexa, então nada é mero acaso. E se nada é acaso, talvez eu tenha
algum controle.
No
fundo, talvez a profundidade seja também uma busca por segurança.
Entre
o raso e o abismo
Enquanto
o café esfria, penso que não se vive no fundo do oceano. Mas também não se conhece
o mar apenas molhando os pés.
Há
momentos para escavar — e momentos para simplesmente aceitar.
Talvez
maturidade seja isso: saber quando perguntar “o que há por trás?” e quando
apenas dizer “é o que é”.
Eu
termino o café com uma suspeita menos dramática:
profundidade
não é cavar sempre.
É
estar inteiro quando se decide cavar —
e
estar inteiro também quando se decide parar.

