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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Expectativas e Decepções


Você já parou pra pensar o quanto decepção tem a ver com expectativa? Não com o que aconteceu. Não com o que foi dito. Mas com o que você esperava que fosse.

A gente idealiza tudo. A resposta que o outro vai dar. A forma como o chefe vai reconhecer. A mensagem que deveria ter chegado. A gentileza que esperávamos só porque fomos gentis.

E aí vem a porrada. Porque a realidade tem um jeitinho especial de lembrar: ei, ninguém prometeu nada disso, não.

É como diz aquela frase que ninguém quer ouvir, mas todo mundo sabe que é verdade:
“Crie porcos, não expectativas.”

Pelo menos o porco vira bacon. Expectativa? Só vira mágoa.

E não tô dizendo pra você viver apático. Sem planos. Sem se importar. Tô dizendo pra parar de cobrar do mundo um roteiro que só existe na sua cabeça.
Porque, no fundo, a gente não se decepciona com os outros. A gente se decepciona com a nossa própria ilusão.

Então da próxima vez que for criar expectativa, respira fundo e pergunta:
“Eu tô esperando isso por quê? Porque o outro prometeu? Ou porque eu fantasiei?”

Se for fantasia, então relaxa. Aproveita o momento real. Ele pode não ser do jeitinho que você queria…

Estou falando do que especificamente? Ora, tem muita coisa que nos choca, mas por enquanto fico com os políticos, eita, não nada está fácil conviver com tanta corrupção, incompetência, despreparo, quantos mistérios, acordos suspeitos, olha tá difícil ligar o rádio, tv, ouvir noticiário me faz pensar do tanto que o ser humano se rebaixou.

Mas às vezes, penso que seja exatamente do jeito que precisávamos enxergar o quanto o poder corrompe, ou sei lá, já são corruptos fazendo o que sabem fazer melhor, olha dá para contar numa mão os que escapam a dança da corrupção, e também não coloco a mão no fogo por ninguém.

É isso aí. Fica bem. E da próxima vez que a expectativa bater na sua porta… manda ela se foder com carinho.

Tempo Habitável

Entre o tempo que passa e o ser que permanece

O último dia do ano não pede barulho. Ele acontece melhor quando a casa já está meio arrumada, o celular esquecido na mesa e o relógio andando como sempre andou. Não há nada de espetacular no tempo virando. O espetáculo é termos atravessado mais uma vez.

O tempo não é um inimigo a ser vencido nem um aliado confiável. Ele é um meio — como o rio que não pergunta quem somos, mas nos leva mesmo assim. Ao longo do ano, fomos levados. Perdemos coisas, ganhamos outras, cansamos, insistimos. E, no meio disso tudo, algo em nós permaneceu silenciosamente igual.

Essa é talvez a primeira intuição espiritual do fim do ano: nem tudo muda quando o tempo muda.

O ser que não se mede em datas

Costumamos tratar o ano como um recipiente: nele colocamos metas, expectativas, promessas. Mas o ser não cabe nisso. A vida interior amadurece fora do calendário. Enquanto o mundo exigia velocidade, algo em nós pedia apenas permanência.

Quantas vezes seguimos vivendo sem entender direito o sentido, apenas sustentando o dia? Trabalhar, responder mensagens, preparar a comida, atravessar a rua, dormir cansado. Não houve epifania, não houve revelação — e, ainda assim, houve fidelidade. Há uma espiritualidade profunda em continuar.

O ser não se afirma nos grandes gestos, mas no modo como se permanece humano quando ninguém está olhando.

O silêncio como lugar de verdade

O fim do ano nos devolve ao silêncio — mesmo quando tentamos preenchê-lo com festas, música e contagens regressivas. Porque o silêncio não é ausência de som, é ausência de distração. E quando ele chega, a pergunta aparece: quem fui eu neste tempo?

Nem sempre há resposta. E isso não é falha espiritual. Algumas perguntas não foram feitas para serem respondidas, mas para nos habitar. Houve momentos em que o sentido não veio, em que Deus — ou o significado — pareceu calado. O silêncio, porém, não foi vazio. Ele sustentou.

Talvez a maior maturidade espiritual seja aceitar que o silêncio também é linguagem.

O cotidiano como espaço sagrado

O ano não aconteceu nos grandes eventos. Ele aconteceu nas pequenas repetições: no café tomado às pressas, no cansaço do fim da tarde, nas conversas interrompidas, nos gestos automáticos. O cotidiano não é o que sobra da vida espiritual; ele é o seu campo principal.

Lavar a louça quando não se quer. Cumprir o dever sem aplauso. Cuidar de quem não reconhece. Há algo de sagrado nisso — não porque seja bonito, mas porque é real. O espírito não se revela apenas na elevação, mas na aceitação do chão.

O tempo como revelador, não como juiz

O ano não nos avaliou. Ele apenas mostrou. Mostrou o que era entusiasmo e o que era caráter. O que era desejo passageiro e o que era necessidade profunda. Algumas coisas se perderam porque não tinham raiz. Outras ficaram porque eram parte do nosso centro.

Não saímos melhores. Talvez saímos mais conscientes. Menos iludidos. Um pouco mais cansados — e, paradoxalmente, mais verdadeiros.

Fechar o ano não é fechar a alma

O novo ano não será um recomeço mágico. Ele será continuidade. A mesma vida, em outro capítulo. O mesmo ser, atravessado por mais tempo. Não precisamos prometer nada. Basta estar.

No fundo, o gesto espiritual mais honesto deste último dia é simples: reconhecer que fomos atravessados e seguimos de pé. Com falhas, com silêncios, com pequenas fidelidades.

O tempo passa.

O ser permanece.

O silêncio sustenta.

E o cotidiano, discreto, continua sendo o lugar onde tudo realmente acontece.

— E isso basta, por agora.

Feliz Ano Novo!

Feliz 2026!


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ser e Não Ser


Outro dia, parado na fila do café, num insight percebi que meu corpo estava ali — carteira no bolso, celular na mão — mas minha mente vagava em outro lugar. Eu era e, ao mesmo tempo, não era. Aquela cena banal, quase ridícula, me lembrou da velha pergunta que atravessa séculos: ser ou não ser? Só que, fora dos palcos de Shakespeare, essa questão não aparece em forma de drama grandioso; ela se infiltra na vida miúda, nos instantes em que existimos pela metade.

Este ensaio nasce dessa estranheza cotidiana: como podemos estar tão presentes e tão ausentes ao mesmo tempo? E o que isso diz sobre o que chamamos de “ser”?

O Ser como presença viva

Na filosofia clássica, ser costuma significar aquilo que existe de modo pleno, estável, afirmado. Mas, numa leitura espiritualista, o ser não é um objeto fixo — é uma presença consciente. Ser é estar inteiro no que se vive.

Pense numa conversa sincera, daquelas raras, em que alguém nos fala algo importante e nós realmente escutamos, sem ensaiar respostas, sem olhar o relógio. Nesse instante, há uma espécie de alinhamento: corpo, atenção e sentido. Ali, somos. Não porque fazemos algo extraordinário, mas porque estamos inteiros.

Espiritualmente, o ser não se define pelo papel social, pelo nome ou pela função. Ele se manifesta quando há coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos. O ser é um acontecimento, não um rótulo.

O Não Ser como ausência disfarçada

Já o não ser raramente se apresenta como vazio absoluto. Ele costuma vestir fantasias respeitáveis: rotina, produtividade, adaptação. Não ser é viver no automático.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • dizemos “tudo bem” sem sequer consultar o que sentimos;
  • cumprimos tarefas o dia inteiro e, à noite, temos a sensação de não ter vivido nada;
  • repetimos opiniões que não são nossas, apenas para evitar atrito.

O não ser, nesse sentido, não é inexistência, mas desconexão. É estar fisicamente presente e espiritualmente ausente. Uma espécie de vida em modo economia de energia.

A tensão criadora entre Ser e Não Ser

O ponto inovador talvez esteja aqui: ser e não ser não são inimigos absolutos. Eles formam uma tensão criadora. O não ser revela onde estamos fragmentados; o ser aponta a possibilidade de integração.

Há dias em que o cansaço nos domina e tudo o que conseguimos fazer é funcionar. Isso não nos condena. O problema surge quando esse estado vira regra, quando esquecemos que há algo em nós que pede mais do que sobreviver.

Espiritualmente, o não ser pode funcionar como um chamado silencioso. Ele incomoda, esvazia, gera aquela pergunta incômoda: “é só isso?” E essa pergunta já é um primeiro gesto de ser.

Pequenas cenas de escolha

A vida não nos pergunta “ser ou não ser?” em tom trágico. Ela pergunta em detalhes:

  • Responder ou reagir?
  • Escutar ou apenas esperar a vez de falar?
  • Viver para parecer ou parecer para viver?

Cada escolha dessas, por menor que seja, desloca-nos um pouco mais para o ser ou para o não ser. Não se trata de pureza espiritual, mas de grau de presença.

Um olhar espiritualista final

Do ponto de vista espiritual, o ser não se conquista de uma vez por todas. Ele se relembra. Há algo em nós que sabe quando estamos sendo verdadeiros e quando estamos apenas representando.

Ser é lembrar-se de si mesmo no meio do mundo.

Não ser é esquecer-se, ainda que temporariamente.

Talvez a sabedoria não esteja em eliminar o não ser, mas em reconhecê-lo rapidamente — como quem percebe que se distraiu durante uma caminhada e, sem culpa, retorna ao caminho.

Concluindo...(quase um sussurro)

Ser e não ser não são estados fixos, mas movimentos. Oscilamos entre eles todos os dias. A espiritualidade, longe de prometer uma resposta definitiva, nos oferece algo mais simples e mais difícil: atenção.

Onde há atenção, o ser começa a respirar.

Onde ela falta, o não ser se instala.

E talvez viver seja isso: aprender, mil vezes, a voltar.


Mundo Comum


O mundo comum não é o mundo ideal, nem o mundo sonhado. É esse aqui mesmo: a fila do mercado, o bom dia meio automático no elevador, o grupo da família no WhatsApp, o barulho da rua entrando pela janela. É nele que a vida insiste em acontecer — mesmo quando a gente fantasia que a vida “de verdade” está em outro lugar.

Costumamos desprezar o mundo comum porque ele não brilha. Ele não tem épica. Não vem com trilha sonora. É feito de repetições: acordar, trabalhar, resolver pequenas pendências, cansar, dormir. Mas é justamente aí que mora algo curioso: tudo o que é decisivo passa por esse chão banal. As grandes escolhas quase sempre nascem de situações pequenas, aparentemente insignificantes.

Percebo isso quando converso com alguém no trabalho sobre um assunto qualquer e, no meio da conversa, algo se desloca por dentro. Ou quando um gesto simples — alguém segurando a porta, alguém escutando de verdade — reorganiza silenciosamente o meu dia. O mundo comum não nos transforma por choque, mas por atrito. Ele nos desgasta, mas também nos molda.

Hannah Arendt falava do mundo comum como esse espaço compartilhado onde aparecemos uns para os outros. Não é só o mundo físico, mas o mundo das relações, das palavras trocadas, das ações visíveis. Quando esse mundo se empobrece — quando ninguém escuta, quando tudo vira ruído — a vida pública adoece, e a vida interior vai junto. Sem mundo comum, cada um fica preso na própria bolha, acreditando que pensa sozinho o que, na verdade, apenas repete.

No cotidiano, isso aparece de forma quase cômica: todos reclamam das mesmas coisas, fazem as mesmas piadas, reproduzem as mesmas indignações prontas. Parece diversidade, mas é só um coro desafinado. O mundo comum vira um eco, não um encontro.

Talvez o desafio não seja fugir dele, mas reaprender a habitá-lo. Estar presente de verdade numa conversa trivial. Não tratar o dia como um intervalo entre dois momentos “importantes”. O mundo comum pede atenção — não intensidade. Pede constância, não heroísmo.

No fim das contas, não é fora do mundo comum que nos tornamos quem somos. É nele. Com suas repetições, suas pequenas frustrações, suas alegrias discretas. Quem despreza o mundo comum costuma acabar vivendo num mundo imaginário. Quem aprende a escutá-lo descobre que, mesmo silencioso, ele está sempre dizendo algo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reconciliação Com os Limites


Demorei para entender que limite não é derrota. No começo, ele aparece como frustração: o corpo que cansa, o tempo que falta, a inteligência que não alcança tudo, o dinheiro que impõe fronteiras, o outro que diz “não”. A sensação inicial é sempre a mesma — se eu me esforçasse mais, isso não estaria aqui. Mas os limites insistem. Eles não vão embora.

A reconciliação começa quando percebo que o limite não está ali para me humilhar, mas para me situar. Ele é como a borda da mesa: não serve para impedir o jantar, mas para que ele aconteça sem que tudo caia no chão. No cotidiano isso é claro, embora a gente finja não ver. O profissional que aceita que não dá conta de tudo trabalha melhor. O pai ou a mãe que reconhece a própria falha educa com mais humanidade. O amigo que assume que não sabe ouvir em certos dias evita ferir sem querer.

Há algo profundamente moderno na recusa dos limites. Vivemos como se tudo fosse possível, o tempo todo. Resultado: exaustão, comparação infinita, culpa crônica. A reconciliação é quase um ato de rebeldia silenciosa. É dizer: isso eu posso, isso não posso — e está tudo bem. Não como desistência, mas como clareza.

Lembro de uma ideia muito simples, mas poderosa, de Rubem Alves: a de que maturidade não é acumular possibilidades, mas aprender a escolher — e toda escolha implica perda. Só quem aceita perder consegue, de fato, habitar o que escolheu. O limite, então, deixa de ser muro e vira moldura. É ele que dá forma ao sentido.

Reconciliação com os limites não é resignação amarga. É amizade. É parar de lutar contra o que não sou para finalmente cuidar do que sou. Curiosamente, é nesse ponto que algo se expande. Quando aceito o tamanho da minha casa, começo a arrumá-la melhor. Quando aceito minha finitude, o tempo ganha peso. Quando aceito meus limites, a vida fica menos ruidosa — e mais verdadeira.

No fundo, talvez crescer seja isso: parar de sonhar em ser infinito e começar a viver bem dentro do possível, principalmente quando passamos dos sessenta!


Eterna Solidão

Há dias em que estamos cercados de gente, notificações, vozes, grupos de WhatsApp — e, ainda assim, algo insiste em ecoar por dentro como um quarto vazio. Não é tristeza exatamente, nem falta de companhia. É outra coisa. Uma sensação de que, mesmo quando somos vistos, não somos alcançados. A isso costumamos chamar de solidão, mas talvez o nome correto seja eterna solidão: não um estado passageiro, e sim uma condição estrutural da existência.

Não falo aqui da solidão de quem está só num domingo à tarde. Falo daquela que permanece mesmo quando a vida “dá certo”.

 

A solidão como condição, não como falha

A tradição costuma tratar a solidão como um problema a ser resolvido: com amor, com amigos, com pertencimento, com terapia, com Deus, com likes. Mas há uma inversão possível — e necessária.

A eterna solidão não nasce da ausência do outro, mas da impossibilidade de total coincidência entre consciências.

Por mais íntima que seja uma relação, ninguém acessa diretamente a experiência interna do outro. Posso descrever minha dor, mas você nunca a sentirá exatamente como eu. Posso amar profundamente, mas meu amor sempre atravessa o filtro da minha própria história, linguagem e expectativa. Existe um intervalo irredutível entre um eu e outro eu — e é ali que a solidão mora.

A filosofia existencial já tocou nesse ponto: somos lançados ao mundo como seres singulares, sem tradução completa. Mas o aspecto inovador aqui é reconhecer que essa solidão não é defeito da vida, é seu alicerce. Ela não surge porque falhamos em nos comunicar; ela surge porque comunicar-se plenamente é ontologicamente impossível.

Em outras palavras: não estamos sós apesar dos outros, estamos sós com os outros.

 

A ilusão contemporânea: conexão sem encontro

O mundo atual promete o fim da solidão através da conexão constante. Mas o que ele oferece, na verdade, é uma anestesia. Falamos o tempo todo, mas raramente dizemos o indizível. Mostramos imagens, mas escondemos vivências. Compartilhamos opiniões, mas não abismos.

Isso cria um paradoxo cruel: quanto mais nos conectamos superficialmente, mais evidente se torna a solidão estrutural. É como acender luzes em um quarto vazio — a claridade não traz companhia, apenas revela a ausência.

A eterna solidão se intensifica quando acreditamos que ela não deveria existir.

 

Como é no cotidiano: onde a eterna solidão se revela

No relacionamento amoroso

Dois corpos deitados na mesma cama. Um silêncio confortável. Ainda assim, cada um atravessa pensamentos que o outro jamais tocará. Não é falta de amor — é a fronteira invisível entre mundos interiores.

No trabalho

Você passa o dia inteiro interagindo, sendo útil, respondendo demandas. Ao final, sente um cansaço que não vem do esforço físico, mas da sensação de não ter sido realmente visto. Sua função foi reconhecida; sua existência, não.

Em família

Risos à mesa, histórias repetidas. Mesmo assim, certos medos, desejos e arrependimentos permanecem impronunciáveis. Não por falta de confiança, mas porque não há linguagem suficiente.

Consigo mesmo

Talvez o exemplo mais perturbador: há momentos em que nem nós conseguimos nos acompanhar. Sentimos algo que não sabemos nomear. Somos estrangeiros em nossa própria casa.

 

Uma virada ética: o que fazer com a eterna solidão?

A questão não é “como acabar com a eterna solidão”, mas como habitá-la sem desespero.

Quando aceitamos que ninguém nos completará totalmente — nem pessoas, nem ideias, nem causas —, algo se pacifica. A exigência impossível cai. O outro deixa de ser um remédio e passa a ser um encontro parcial, mas real.

Curiosamente, é nesse ponto que relações se tornam mais verdadeiras: quando não pedimos ao outro que nos salve da condição humana.

A eterna solidão, então, deixa de ser um vazio e se transforma em espaço. Espaço de criação, de pensamento, de silêncio fértil. É ali que nasce a arte, a reflexão profunda, a espiritualidade não performática.

 

Solidão não como condenação, mas como dignidade

Talvez a maior dignidade do ser humano seja esta: carregar um mundo interior que nunca será totalmente traduzido. A eterna solidão não nos diminui — ela nos singulariza.

Não estamos condenados a ela; estamos constituídos por ela.

E, paradoxalmente, quando reconhecemos isso, os encontros — mesmo imperfeitos — se tornam mais honestos, mais leves, mais humanos. Porque deixam de prometer o impossível e passam a oferecer o essencial: presença, ainda que incompleta.

No fundo, talvez a eterna solidão seja apenas o nome filosófico daquilo que nos torna, definitivamente, alguém.


domingo, 28 de dezembro de 2025

Espiritualidade Sem Rótulo


Há gente que, quando ouve a palavra espiritualidade, já procura um crachá: religioso, místico, ateu, agnóstico, “meio espiritual, meio cético”. Parece que sem um rótulo a experiência não existe, como se a alma precisasse de legenda para ser levada a sério. Mas a verdade é que muita gente vive algo profundamente espiritual sem jamais usar essa palavra — e talvez exatamente por isso viva de modo mais honesto.

Imagine alguém parado no trânsito, preso há quarenta minutos, atrasado, irritado. De repente, olha para o céu entre os prédios e percebe a luz mudando, quase imperceptível. Por alguns segundos, a pressa se dissolve. Não houve oração, mantra, nem reflexão elaborada. Só um silêncio interior breve, mas real. Aquilo foi espiritualidade? Se perguntarmos, talvez a pessoa diga apenas: “dei uma respirada”.

A espiritualidade sem rótulo costuma surgir assim: sem anúncio, sem discurso, sem sistema. Ela não pede filiação nem exige coerência teórica. Ela acontece antes de qualquer explicação.

Há algo de espiritualmente denso em cuidar de alguém doente, mesmo reclamando do cansaço. Em preparar comida simples com atenção. Em ouvir alguém falar sem interromper. Nenhuma dessas ações precisa ser elevada a “prática espiritual” para ter profundidade. Aliás, quando rotulamos demais, às vezes esvaziamos a experiência: passamos a agir para parecer espirituais, e não porque algo nos toca de verdade.

No cotidiano, a espiritualidade sem rótulo se manifesta como uma ética do gesto pequeno. Ela não quer salvar o mundo — quer não endurecer por dentro.

Filosoficamente, rotular é uma forma de organizar o caos. Mas também é uma forma de controle. Quando dizemos “isso é espiritualidade”, imediatamente surgem fronteiras: isso é válido, aquilo não é; isso é profundo, aquilo é superficial. A experiência viva, porém, não respeita essas linhas.

Muitos rejeitam a espiritualidade não porque rejeitam o sentido, o mistério ou o silêncio, mas porque rejeitam os pacotes prontos. O rótulo vira uma porta estreita demais para algo que é largo.

Para alguns, a espiritualidade sem rótulo não aponta “para cima”, mas “para dentro” ou “para o lado”. Ela não precisa de um além-mundo. Basta uma atenção radical ao aqui.

Uma pessoa que caminha todos os dias pelo mesmo trajeto e, de repente, nota uma árvore que sempre esteve ali — e se sente estranhamente acompanhada por essa presença silenciosa — está vivendo algo que nenhuma doutrina explica melhor do que o próprio silêncio explica.

Viver sem rótulo é arriscado. Dá mais trabalho do que aderir a um sistema pronto. Não há frases decoradas para momentos difíceis. Não há respostas automáticas para o sofrimento. A espiritualidade sem rótulo exige uma sinceridade constante: o que, de fato, me move?

No trabalho, isso aparece quando alguém se recusa a desumanizar colegas em nome da eficiência. Na família, quando se escolhe o cuidado em vez da vitória numa discussão antiga. Não é heroísmo — é atenção moral cotidiana.

Talvez a pergunta não seja “qual é a sua espiritualidade?”, mas “o que em você ainda não endureceu?”. Onde você ainda é capaz de se espantar, de escutar, de mudar de ideia?

A espiritualidade sem rótulo não quer ser defendida, nem propagada. Ela só quer espaço para existir. E, curiosamente, quanto menos falamos dela, mais ela se infiltra na vida comum — no jeito de andar, de trabalhar, de errar, de pedir desculpas.

No fim, talvez o mais espiritual seja justamente isso: viver de modo que a vida não precise de explicação para fazer sentido.

Nostalgia do Analógico


Tenho sentido falta do tempo em que as coisas tinham peso. Não só peso físico — o clique seco de um botão, o chiado breve antes da música começar — mas peso de espera. A fotografia precisava de revelação, a carta precisava de dias, a fita precisava ser rebobinada com uma caneta. Nada era instantâneo, e talvez por isso tudo parecia mais inteiro.

A nostalgia do analógico não é apenas saudade de objetos; é saudade de um ritmo. O relógio não acelerava porque o dedo deslizou na tela. A conversa não se interrompia por uma notificação que piscava feito vaga-lume ansioso. Quando alguém ligava, ligava de verdade. Quando a gente errava, errava sem “desfazer”.

No cotidiano, isso aparece em pequenas frustrações modernas: ouvir música pulando faixas sem escutar nenhuma até o fim; tirar cinquenta fotos para não escolher nenhuma; escrever mensagens longas e apagar antes de enviar. O analógico, com todas as suas limitações, nos obrigava a decidir. E decidir é um exercício de presença.

Há também uma ética do erro no analógico. O disco arranhava, a fita embolava, a foto saía tremida — e ficava assim. O defeito era parte da história. Hoje, corrigimos tudo em tempo real, filtramos, polimos, apagamos o que não combina com a vitrine. Talvez por isso a vida digital pareça tão lisa e, paradoxalmente, tão cansativa.

Lembro de Vilém Flusser, pensador tão nosso, dizendo que os aparelhos tendem a nos programar. No analógico, o aparelho pedia cuidado; no digital, pede atenção contínua. Um exige mãos; o outro exige olhos. Um nos ensina paciência; o outro, urgência. Não é um elogio ingênuo ao passado, mas uma desconfiança saudável do presente.

A nostalgia do analógico, no fundo, é uma saudade de fricção. De quando o mundo oferecia resistência e, por isso mesmo, nos devolvia experiência. Talvez não precisemos voltar às fitas e às cartas, mas aprender com elas: desacelerar o gesto, aceitar o erro, sustentar o silêncio entre uma coisa e outra.

Porque às vezes não é o som mais limpo que nos toca — é o chiado antes da música começar.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Objetivar 2026

Último Sábado do ano...

Há anos que começam antes do calendário. Eles chegam como um incômodo discreto, uma sensação de que algo precisa ganhar forma. 2026 é um desses. Não porque saibamos o que ele trará, mas porque já estamos cansados de viver no modo provisório — sempre “ajustando”, “tentando”, “vendo no que dá”. Objetivar 2026 não é fazer uma lista de metas; é um gesto filosófico mais radical: transformar o tempo futuro em algo que nos olha de volta.

Normalmente tratamos o futuro como névoa. Dizemos: ano que vem eu vejo isso, mais pra frente resolvo. O problema é que o tempo, quando não é objetivado, se torna apenas passagem. Ele nos atravessa, mas não nos encontra.

A filosofia já desconfiava disso. Heidegger dizia que o ser humano vive projetado — sempre lançado adiante —, mas quase nunca assume conscientemente esse lançamento. Vivemos em direção ao futuro, mas sem dar a ele contornos. O resultado é uma existência reativa: respondemos ao que aparece, raramente chamamos algo à existência.

Objetivar 2026 começa aqui: deixar de tratar o ano como um recipiente vazio e passar a vê-lo como uma obra em construção.

Há um mal-entendido perigoso: confundir objetivar com controlar. Controlar é querer dominar o que não depende de nós; objetivar é dar forma ao que pode ser chamado.

Quando objetivamos um ano, não decidimos tudo o que vai acontecer — isso seria delírio. Decidimos o tipo de relação que teremos com o que acontecer.

É a diferença entre dizer:

“Espero que 2026 seja melhor”

e dizer:

“Em 2026, certas coisas não terão mais lugar em mim.”

Essa segunda frase não controla o mundo, mas redesenha o sujeito.

Um ano objetivado funciona como espelho. Ele devolve perguntas incômodas:

  • Que hábitos ainda tolero por covardia?
  • Que relações mantenho por inércia?
  • Que versão de mim continuo adiando?

Nesse sentido, 2026 não é um número, mas um critério. Um filtro silencioso que começa a operar antes mesmo de janeiro. Algumas escolhas deixam de fazer sentido. Certas urgências se revelam falsas. O ano futuro passa a julgar o presente.

Nietzsche diria que isso é uma forma de afirmação da vida: viver como se cada decisão estivesse à altura do tempo que queremos habitar.

Vivemos soterrados por estímulos, opiniões, demandas e expectativas alheias. Objetivar um ano é um gesto de economia existencial. Não adicionar mais coisas, mas retirar.

Talvez 2026 não precise de novos projetos, mas de menos dispersão.

Menos promessas vagas.

Menos versões de si mesmo coexistindo em conflito.

Menos tolerância ao que drena energia sem sentido.

O ano objetivado não é expansivo; é preciso.

Há anos que passam e anos que ficam. Os que ficam são aqueles que tiveram densidade simbólica. Foram nomeados, desejados, temidos, enfrentados.

Objetivar 2026 é dar espessura ao tempo antes que ele passe. É dizer: este ano não será apenas vivido, será sustentado. Mesmo com falhas. Mesmo com desvios. Mesmo com cansaço.

No fim, talvez o gesto mais inovador não seja prever o futuro, mas torná-lo responsável diante de nós. Quando fazemos isso, algo curioso acontece: o futuro deixa de ser ameaça e passa a ser convocação.

E 2026, então, já começou.

Pensar Como Polvo


Dia destes estava vendo um post no Instagram que achei interessante, vi a filmagem e li a mensagem, logo comecei a conjecturar.

Pensar como polvo é abandonar a obsessão por uma única ideia central e aceitar que o pensamento pode se espalhar.

O polvo não pensa em linha reta. Ele pensa com o corpo inteiro. Cada tentáculo tateia o mundo por conta própria, sente, reage, aprende. Não há um “centro de comando” tirânico dizendo exatamente o que fazer a cada segundo. Há coordenação, mas também autonomia. Talvez seja isso que nos falte quando insistimos em pensar tudo apenas com a cabeça.

Pensar como polvo é aceitar que uma ideia pode nascer no desconforto, outra numa conversa banal, outra ainda num silêncio constrangedor. É permitir que partes de nós explorem caminhos diferentes ao mesmo tempo, sem exigir síntese imediata. Nem tudo precisa virar conclusão; algumas coisas só precisam ser tocadas.

No cotidiano, isso aparece quando tentamos resolver um problema complexo e ele não anda. Forçar lógica sobre lógica só endurece. O polvo faria diferente: mudaria de textura, de cor, de ângulo. Testaria. Recuaria. Avançaria por outro lado. Pensar como polvo é dar tempo ao pensamento distribuído — aquele que amadurece enquanto lavamos a louça, caminhamos sem rumo ou ouvimos alguém falar de algo que “não tem nada a ver”.

Há também uma lição ética aí. O polvo sabe quando se esconder, quando se mostrar, quando soltar a presa. Não insiste em tudo. Nós, ao contrário, nos apegamos a ideias como se fossem identidade. Pensar como polvo é saber soltar um tentáculo sem morrer por isso.

Talvez o pensamento mais vivo não seja o mais brilhante, mas o mais sensível. Menos rígido, menos vaidoso. Um pensamento que aceita explorar o mundo sem a necessidade imediata de dominá-lo.

Pensar como polvo, no fundo, é confiar que a inteligência não mora só na cabeça — ela se espalha por todo o corpo que vive.

Eis o link da postagem:

https://www.instagram.com/reel/DSAG0Tgl4xJ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Hábitos Transformam

Muitas vezes subestimamos o poder das pequenas ações diárias. Tomar um copo de água ao acordar, organizar a mesa de trabalho ou ler dez minutos antes de dormir parece insignificante — mas, com o tempo, essas pequenas escolhas moldam nossa vida de forma surpreendente. Olha que em minha vida sexagenária a experiência me provou que isto é fato!

O segredo está na constância. Hábitos simples, repetidos diariamente, criam padrões que influenciam nossa saúde, produtividade e bem-estar. Um café da manhã equilibrado pode transformar energia e disposição; uma caminhada curta diária melhora não apenas o corpo, mas a mente; dedicar alguns minutos à reflexão ajuda a clarear pensamentos e emoções.

O interessante é que mudanças grandiosas nem sempre exigem esforços heróicos. É como plantar uma árvore: cada gesto diário é uma semente. Algumas florescem rápido, outras levam anos, mas todas contribuem para o crescimento e a harmonia do conjunto.

Como já dizia um pensador contemporâneo, “a vida não muda com grandes revoluções, mas com pequenos gestos consistentes”. Observar nossos hábitos, escolher com atenção e persistir nos que nos fazem bem pode gerar transformações que parecem mágicas, mas na verdade são fruto da disciplina silenciosa do cotidiano.

No fim, transformar a vida é menos sobre esperar por oportunidades e mais sobre cultivar hábitos que nos aproximem do que desejamos ser. Pequenos passos, dia após dia, revelam-se o caminho mais poderoso para mudanças duradouras.


Um na Multidão

 

Há dias em que a gente sai de casa com a sensação de ser apenas mais um corpo em movimento: ônibus cheio, fila do mercado, feed infinito nas redes sociais. Ninguém nos olha de verdade, ninguém espera nada de singular. Somos “mais um”. Curiosamente, essa frase pode soar como derrota — ou como alívio. Depende do lado da multidão que nos toca.

O lado acolhedor: quando a multidão protege

A multidão tem algo de maternal. No estádio lotado, o gol não é só meu; ele explode em milhares de gargantas. No show, a música parece maior do que o cantor, porque é sustentada pelo coro anônimo. No metrô, mesmo espremidos, há um acordo silencioso: seguimos juntos, ninguém cai sozinho.

Durkheim chamaria isso de efervescência coletiva: um estado em que o indivíduo se sente elevado por algo que o ultrapassa. Não é perda de identidade, é suspensão momentânea do “eu cansado”. No cotidiano, isso aparece quando rimos de uma piada que nem achamos tão boa, mas rimos porque todos riram. Ou quando seguimos um ritual simples — cantar parabéns, bater palmas, respeitar o minuto de silêncio. A multidão cria sentido onde, isoladamente, talvez houvesse apenas dispersão.

Nesse aspecto, ser “mais um” é descanso. É deixar de carregar o mundo sozinho. É perceber que a vida não depende exclusivamente das nossas escolhas geniais — e isso pode ser profundamente humano.

O lado sombrio: quando a multidão anestesia

Mas a mesma multidão que acolhe também dilui. No trânsito, ninguém é pessoa: são carros, buzinas, obstáculos. Na internet, o linchamento moral acontece sem rosto; cada comentário agressivo é “só mais um”, mas o efeito final é devastador. Aqui, o anonimato não protege — desresponsabiliza.

Hannah Arendt alertou para isso ao falar da banalidade do mal: grandes danos podem nascer de pequenos gestos automáticos, repetidos por muitos, sem reflexão. No cotidiano, isso aparece quando compartilhamos uma notícia sem verificar, porque “todo mundo está compartilhando”. Ou quando aceitamos práticas injustas no trabalho porque “sempre foi assim”.

A multidão, nesse caso, não nos eleva; nos adormece. O pensamento crítico é substituído por um piloto automático social. Continuamos andando, mas já não sabemos por quê.

Entre o eu e o nós: a tensão inevitável

O erro comum é imaginar que a saída está fora da multidão, numa individualidade pura e heroica. Mas isso é uma ilusão romântica. Ninguém existe fora do “nós”. A língua que falamos, os gestos que usamos, até as revoltas que sentimos — tudo nasce em um campo coletivo.

O desafio filosófico não é sair da multidão, mas habitar a multidão sem desaparecer nela. Nietzsche já intuía isso quando desconfiava do “espírito de rebanho”, mas não defendia o isolamento; defendia a criação de valores próprios dentro do mundo comum.

No cotidiano, isso é simples e difícil ao mesmo tempo:

  • rir junto, mas saber quando não rir;
  • seguir a fila, mas questionar a regra injusta;
  • pertencer a um grupo, sem terceirizar a consciência.

Um ensaio em forma de espelho

Ser “mais um na multidão” não é o problema. O problema é não saber quando somos apenas mais um e quando somos chamados a ser alguém. A multidão é um espelho amplificador: ela aumenta o que levamos a ela. Se levamos reflexão, ela pode virar cultura. Se levamos ressentimento, vira ruído. Se levamos medo, vira histeria.

Talvez a tarefa ética mais urgente hoje não seja se destacar a qualquer custo, nem se dissolver por completo, mas aprender a fazer pausas interiores. Mesmo no meio do empurra-empurra, perguntar silenciosamente: “Esse gesto é meu ou apenas contagioso?”

No fim, a multidão não é inimiga nem salvação. É condição. E a filosofia começa exatamente aí: quando, em meio a todos, alguém decide não desligar o pensamento — ainda que continue sendo, aos olhos do mundo, apenas mais um.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Silêncio Planejado


Eu descobri que nem todo silêncio é fuga. Alguns são projeto.
Há o silêncio que acontece quando falta palavra — esse é vazio.
E há o silêncio escolhido, quase arquitetado, como quem fecha uma janela para organizar o ar do quarto.

Silêncio planejado não é ausência de som, é recusa de ruído inútil. É quando eu decido não responder imediatamente, não opinar sobre tudo, não preencher cada intervalo com explicações. Num mundo em que falar virou reflexo condicionado, calar pode ser um gesto ativo, quase político.

No cotidiano ele aparece em formas discretas:
– não checar o celular assim que acorda;
– ouvir alguém até o fim sem preparar a réplica;
– deixar uma pergunta amadurecer antes de virar resposta.

Lembro do Rubem Alves, que dizia que a sabedoria começa quando a boca aprende a escutar. Planejar o silêncio é criar espaço para que algo nos atravesse — uma ideia, um incômodo, uma verdade que não grita, mas insiste.

Talvez seja isso:
o silêncio planejado não serve para desaparecer do mundo,
mas para voltar a ele com menos ruído dentro de nós.

Oportunidade de crescimento


Há dias em que a vida não pede licença. Ela empurra. Um atraso no ônibus, uma conversa atravessada, uma porta que se fecha sem aviso. Nessas horas, quase sempre chamamos o acontecimento de “problema”. É automático. Mas, se a gente segura o impulso de rotular e olha um pouco mais devagar, talvez perceba que muitos desses empurrões carregam outra coisa escondida: uma oportunidade de crescimento — não dessas que aparecem em livros de autoajuda, mas daquelas silenciosas, incômodas e profundamente humanas.

Crescer não é subir, é aprofundar

Costumamos imaginar crescimento como ascensão: ganhar mais, saber mais, ir mais longe. No cotidiano, porém, crescer quase sempre significa o contrário: descer um nível. Descer até o desconforto, até a dúvida, até aquilo que não controlamos.

Pense em alguém que recebe uma crítica no trabalho. A reação imediata é defensiva: justificar, rebater, fechar-se. Mas, se a pessoa sustenta o incômodo por alguns minutos a mais, algo diferente pode acontecer. A crítica deixa de ser um ataque e passa a funcionar como espelho. Nem tudo o que o espelho mostra é bonito, mas ele revela ângulos que o olhar direto não alcança. Crescer, aqui, não é concordar com tudo, mas aprender a ouvir sem desmoronar.

O cotidiano como laboratório filosófico

A vida diária é um grande laboratório de experiências éticas e existenciais. A fila do banco testa nossa paciência; o trânsito revela nossa relação com o tempo; o grupo de WhatsApp da família expõe nossos limites de tolerância e afeto.

Quando alguém “fura” a fila, por exemplo, não está em jogo apenas a ordem prática, mas uma pergunta silenciosa: o quanto minha tranquilidade depende do comportamento dos outros? A oportunidade de crescimento não está em fingir que nada aconteceu, mas em perceber como reagimos quando o mundo não se organiza de acordo com nossas expectativas.

Nesse sentido, o crescimento acontece menos quando o mundo melhora e mais quando nossa maneira de estar no mundo se torna mais lúcida.

Perder também educa

Existe uma pedagogia da perda que raramente valorizamos. Perder um emprego, um projeto, uma amizade ou até uma imagem idealizada de nós mesmos costuma ser vivido como fracasso. Mas, muitas vezes, é justamente aí que algo se reorganiza internamente.

No cotidiano, isso aparece quando alguém percebe que estava sustentando uma rotina apenas por hábito, não por sentido. A ruptura — dolorosa, claro — força a pergunta que havia sido adiada: o que, afinal, eu estou tentando manter? A oportunidade de crescimento não está na perda em si, mas no deslocamento que ela provoca. O chão que some obriga a pessoa a descobrir como se sustentar sem ele.

Crescer é mudar de pergunta

Talvez o ponto mais sutil do crescimento seja este: ele acontece quando trocamos a pergunta “por que isso aconteceu comigo?” por “o que isso está me pedindo?”. A primeira nos fixa na posição de vítima do acaso; a segunda nos devolve a responsabilidade pelo sentido.

Um erro cometido, uma decisão mal calculada, uma palavra dita fora de hora — tudo isso pode se tornar apenas culpa acumulada ou matéria-prima de discernimento. No cotidiano, amadurecer não é errar menos, mas aprender melhor com o erro.

A oportunidade que não se anuncia

O curioso é que as oportunidades de crescimento raramente se apresentam com esse nome. Elas chegam disfarçadas de cansaço, de frustração, de conflito pequeno demais para ser trágico e grande demais para ser ignorado. Quem espera grandes revelações perde o essencial: o crescimento quase sempre acontece em escala mínima, no ajuste fino do olhar, na correção de um gesto, na revisão silenciosa de uma atitude.

Talvez crescer seja isso: aprender a não desperdiçar aquilo que a vida insiste em nos ensinar, mesmo quando a lição vem sem moldura, sem aplauso e sem garantia de conforto. Afinal, não é o mundo que se torna mais fácil — somos nós que, aos poucos, nos tornamos mais capazes de habitá-lo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Apelo Universal

 

Há dias em que a gente não acorda com uma pergunta, mas com um incômodo. Nada aconteceu de grave: o café saiu como sempre, o ônibus passou, o celular notificou. Ainda assim, fica a sensação de que algo está chamando — não com palavras, mas com uma espécie de urgência muda. É como quando alguém pronuncia nosso nome em voz baixa no meio da multidão: não sabemos de onde veio, mas sabemos que era conosco. A isso, ouso chamar de apelo universal.

O apelo universal não é um mandamento religioso, nem um código moral pronto, tampouco uma ideia abstrata flutuando acima da vida real. Ele se manifesta justamente no concreto: na fila do mercado, numa conversa interrompida, no olhar cansado de alguém conhecido, ou naquele silêncio que sobra depois que a TV é desligada.

Filosoficamente, podemos dizer que o apelo universal nasce da tensão entre o que somos e o que poderíamos ser. Não no sentido heroico ou grandioso, mas no sentido mínimo: ser um pouco mais atento, menos automático, menos anestesiado. Emmanuel Lévinas falava do rosto do outro como algo que nos convoca eticamente antes de qualquer reflexão. O apelo universal começa aí: não como escolha, mas como interpelação.

No cotidiano, isso aparece de forma banal. Você está atrasado e vê alguém tropeçar na calçada. Por um segundo, o mundo inteiro se reduz a uma decisão microscópica: seguir ou parar. Não é altruísmo calculado, nem moral aprendida — é algo que chama antes de pensar. O apelo.

Vivemos cercados de ruído. Não apenas sonoro, mas existencial. Compromissos, metas, desempenho, comparações. A vida contemporânea é eficiente em uma coisa: abafar o apelo universal. Tudo vira tarefa, inclusive sentir.

Aqui entra uma observação muito próxima do cotidiano brasileiro. Somos criativos, afetivos, improvisadores, mas também profundamente adaptáveis ao absurdo. Aprendemos a conviver com o que dói como se fosse paisagem. O trânsito caótico, a desigualdade explícita, a pressa constante — tudo isso vai criando uma crosta sobre a sensibilidade. O apelo continua existindo, mas chega distorcido, como um rádio fora de sintonia.

Paulo Freire diria que essa anestesia é uma forma de desumanização. Não porque sejamos maus, mas porque vamos sendo treinados a não escutar. O apelo universal, nesse contexto, não pede grandes revoluções: pede consciência. Pede que a gente perceba quando está vivendo no modo automático.

Chama-se universal não porque seja genérico, mas porque atinge a todos de maneira singular. Ele não fala a linguagem das massas, fala a língua íntima. Para um, aparece como inquietação profissional; para outro, como culpa difusa; para outro ainda, como sensação de estar vivendo a vida errada, mesmo fazendo tudo “certo”.

Há quem sinta isso num domingo à tarde, quando o tempo sobra e o vazio aparece. Há quem sinta ao rever fotos antigas e perceber que o sorriso de antes tinha algo que o de agora perdeu. O apelo universal não acusa, não grita, não humilha. Ele apenas insiste.

Aqui vale lembrar N. Sri Ram, quando diz que a vida nos ensina não por discursos, mas por experiências repetidas até que aprendamos a escutar. O apelo universal é pedagógico nesse sentido: ele retorna enquanto for ignorado, mas desaparece quando é integrado.

Responder ao apelo universal não significa largar tudo e mudar de vida. Às vezes, é apenas um ajuste de postura. Ouvir com mais atenção. Dizer menos “depois eu vejo”. Reconhecer que nem toda eficiência é vida, e nem toda calma é perda de tempo.

No cotidiano, isso se traduz em gestos quase invisíveis: escolher não ironizar quando seria fácil, não competir quando ninguém pediu competição, não endurecer onde ainda há espaço para delicadeza. É nesse nível microscópico que o universal acontece.

Talvez o maior equívoco seja esperar que o apelo venha como uma revelação. Ele vem como cansaço, dúvida, estranhamento. E isso não é fraqueza — é sinal de que ainda estamos vivos por dentro.

O apelo universal não quer respostas definitivas. Ele quer presença. Quer que a gente esteja onde está, inteiro o suficiente para perceber que viver não é apenas passar pelos dias, mas responder a eles.

No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “qual é o sentido da vida?”, mas algo bem mais simples e exigente:

o que a vida está me pedindo agora?

Quem aprende a escutar essa pergunta, mesmo sem saber respondê-la, já atendeu ao apelo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Escolha Imprevista


Há escolhas que fazemos sentados, com tempo, café esfriando ao lado e uma falsa sensação de controle. E há outras que simplesmente nos atravessam. A vida não pede licença, não apresenta alternativas em lista numerada. De repente, algo acontece — um convite, uma perda, um silêncio inesperado — e quando percebemos, já escolhemos. Não por cálculo, mas por reação. É disso que quero tratar aqui: da escolha imprevista, essa decisão que não nasce do planejamento, mas do choque entre o mundo e quem somos naquele instante.

A tradição filosófica costuma valorizar a escolha racional, consciente, deliberada. Desde Aristóteles, escolher bem seria escolher após ponderar meios e fins. Mas a experiência concreta da vida insiste em desmentir essa narrativa. As escolhas mais decisivas raramente seguem esse roteiro.

Heidegger nos ajuda a deslocar o foco: não escolhemos a partir de um ponto neutro, mas a partir de um ser-lançado. Estamos sempre já dentro de uma situação, afetados por humores, histórias, expectativas alheias. A escolha imprevista nasce exatamente aí — não do livre-arbítrio abstrato, mas da fricção entre o que acontece e o modo como estamos no mundo.

Sartre radicaliza: mesmo quando não escolhemos, escolhemos. A escolha imprevista revela algo desconfortável — não somos autores soberanos de nossas decisões, mas responsáveis por elas. O imprevisto não nos absolve; ele nos expõe. Mostra quem somos antes que possamos ensaiar uma versão melhor de nós mesmos.

Há ainda um ponto pouco explorado: a escolha imprevista não cria apenas um caminho, ela revela uma identidade. Não escolhemos porque somos algo; tornamo-nos algo porque escolhemos — ainda que sem querer.

Para entender melhor vamos pensar em situações do cotidiano

Pense em alguém que aceita um emprego não porque era o plano, mas porque o antigo se tornou insuportável de um dia para o outro. Não houve vocação, apenas exaustão. Anos depois, ao olhar para trás, essa pessoa dirá: “foi a melhor decisão da minha vida”. Mas a verdade é menos heroica: foi uma escolha feita no limite, quando já não havia energia para planejar.

Ou no silêncio de uma conversa interrompida. Uma palavra que não é dita muda completamente uma relação. Não foi uma decisão consciente de calar; foi um atraso, um medo súbito, um cansaço acumulado. Mesmo assim, o silêncio escolheu por nós — e o mundo se reorganizou em torno dele.

Há também escolhas imprevistas morais. Defender alguém numa situação pública, intervir numa injustiça, ou virar o rosto. Não há tempo para pensar em princípios éticos. O corpo age antes da teoria. Só depois tentamos explicar a nós mesmos por que fizemos o que fizemos.

Até nas pequenas coisas o imprevisto decide: entrar numa livraria para se proteger da chuva e sair com um livro que muda a forma como vemos a vida; aceitar um convite por educação e conhecer alguém decisivo; errar o caminho e descobrir outro ritmo de cidade.

Uma torção final

Talvez a escolha imprevista seja mais honesta do que a escolha planejada. Ela não se disfarça de virtude, não se apoia em discursos prontos. Ela acontece quando nossas máscaras estão cansadas demais para funcionar.

Isso não significa glorificar o impulso ou desprezar a reflexão. Significa reconhecer que somos feitos de camadas — e que, em certos momentos, quem escolhe não é o “eu ideal”, mas o “eu possível”.

A escolha imprevista nos lembra de algo desconfortável e libertador: não controlamos a vida, mas participamos dela. E, às vezes, é exatamente quando não sabemos o que estamos fazendo que nos aproximamos mais de quem realmente somos.