Começa
quase sempre assim: ninguém acorda querendo falar de vulnerabilidade. A gente
prefere falar de força, estratégia, desempenho, superação. Vulnerabilidade soa
como algo que deveria ser resolvido rápido, escondido ou, no máximo, tolerado
em silêncio. Justamente por isso, falar sobre ela é importante. Porque tudo o
que tentamos calar acaba agindo por conta própria. A vulnerabilidade não
desaparece quando é ignorada — ela apenas se torna mais confusa, mais dolorosa
e menos consciente.
Vulnerabilidade
como condição, não como defeito
Hannah
Arendt ajuda a deslocar o tema do campo da fraqueza para o
da condição humana. Para ela, viver é estar exposto: ao outro, à palavra, à
ação, ao imprevisível. Agir e falar em público — no sentido amplo da vida
compartilhada — nos coloca inevitavelmente em risco. Não há ação sem
vulnerabilidade, porque não há controle total sobre os efeitos do que fazemos
ou dizemos.
Isso
desmonta uma ilusão muito comum no cotidiano: a de que ser forte é ser
impermeável. Na prática, quanto mais alguém tenta se blindar, mais frágil se
torna internamente. A vulnerabilidade não é o oposto da força; é o preço de
existir em relação.
O
cotidiano da exposição
No
trabalho, a vulnerabilidade aparece quando admitimos não saber tudo, quando uma
ideia pode ser rejeitada, quando dependemos do reconhecimento alheio. Nas
relações, ela surge quando gostamos de alguém, quando pedimos algo, quando
dizemos o que sentimos sem garantia de resposta. Até o simples ato de mudar de
opinião já nos coloca numa posição vulnerável — porque ameaça a imagem que
construímos de nós mesmos.
Muitas
estratégias modernas de vida são, no fundo, tentativas de eliminar essa
exposição: excesso de planejamento, ironia constante, distanciamento emocional,
desempenho permanente. O problema é que, ao reduzir o risco, reduzimos também a
intensidade da experiência.
A
leitura existencial da vulnerabilidade
Em
Heidegger, a vulnerabilidade aparece como facticidade:
somos lançados no mundo sem manual, sem garantias, sem solo definitivo. Não
escolhemos tudo — nascemos em um tempo, em um corpo, em circunstâncias que nos
antecedem. Essa condição não é algo a ser superado, mas assumido. Negá-la
produz alienação; reconhecê-la abre espaço para autenticidade.
No
cotidiano, isso significa aceitar que nem toda insegurança é um erro de
cálculo. Às vezes, ela é apenas o sinal de que estamos diante de algo que
realmente importa.
Vulnerabilidade
e sentido
O
ponto decisivo é este: só é vulnerável quem ainda está em relação com a vida. A
indiferença absoluta não sofre, mas também não cria, não ama, não se
transforma. A vulnerabilidade indica zonas de sentido — lugares onde algo nos
afeta porque não é indiferente.
Falar
sobre vulnerabilidade é importante porque ela não é um problema a ser
eliminado, mas um dado a ser interpretado. Quando reconhecida, ela orienta
escolhas, ajusta expectativas, humaniza relações. Quando negada, se converte em
cinismo, rigidez ou abandono de si.
No
fim, talvez a pergunta não seja “como deixar de ser vulnerável?”, mas outra,
mais honesta: o que vale a pena continuar sentindo, mesmo com o risco que
isso traz?