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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Diferenciar-se de Si Mesmo


Vou começar assim: quando acordo e, por alguns segundos, ainda sou o mesmo de ontem. O corpo reconhece o caminho até a cozinha, o espelho devolve um rosto familiar, o nome continua colado em mim como um crachá. Mas basta um pensamento fora do roteiro, um incômodo sem nome, para surgir a suspeita — e se eu já não for exatamente quem penso ser? É nesse pequeno desencaixe cotidiano que Deleuze começa a trabalhar. Não para nos devolver uma identidade mais sólida, mas para retirar o chão de vez.

Gilles Deleuze é o filósofo francês que fez da diferença, do devir e da criação conceitos centrais para pensar a vida não como identidade, mas como movimento contínuo.

Diferenciar-se de si mesmo

Para Deleuze, a diferença não é um desvio em relação a uma identidade prévia. Ela não nasce do “eu” como uma variação do mesmo, nem é um erro de cópia. A diferença é primeira. O que chamamos de identidade é apenas um efeito tardio, um congelamento provisório de forças que estão sempre em movimento. Diferenciar-se de si mesmo, portanto, não é uma escolha moral nem um projeto de autossuperação; é a própria condição de existência.

Em Diferença e Repetição, Deleuze desmonta a ideia clássica de que o pensamento começa pelo reconhecimento — “isso é isto”, “eu sou eu”. Para ele, pensar de verdade só acontece quando algo falha nesse reconhecimento, quando o pensamento é forçado por aquilo que não se deixa identificar. Diferenciar-se de si mesmo é ser atravessado por esse choque: algo em mim que não coincide comigo, que não responde ao meu nome, que não obedece à minha história.

O eu como hábito mal compreendido

Aquilo que chamamos de “eu” é, em grande parte, um conjunto de hábitos. Maneiras de reagir, de sentir, de narrar a própria vida. O problema é que o hábito cria a ilusão de continuidade: acreditamos que somos o mesmo porque repetimos gestos, rotinas, opiniões. Mas, para Deleuze, a repetição nunca repete o mesmo. Toda repetição introduz uma diferença, ainda que mínima, ainda que imperceptível.

Assim, diferenciar-se de si mesmo não significa romper dramaticamente com o passado, mas perceber que nunca fomos idênticos nem a nós mesmos. O “eu” é uma superfície onde passam forças impessoais: desejos que não escolhemos, afetos que nos surpreendem, ideias que surgem sem pedir licença. O sujeito não é a origem dessas forças; é apenas o lugar onde elas se cruzam por um instante.

Tornar-se outro sem virar outro

Há aqui um ponto delicado. Diferenciar-se de si mesmo não é “virar outra pessoa” no sentido psicológico ou social. Não se trata de trocar de personalidade, carreira ou discurso. Trata-se de algo mais radical e mais silencioso: permitir que o que em nós é impessoal, pré-individual, continue a agir.

Deleuze fala em devir, e não em transformação. O devir não tem ponto de partida fixo nem ponto de chegada definido. Quem entra em devir não abandona o que é para se tornar algo diferente; ele se desloca, se desalinha, se abre a conexões inesperadas. Diferenciar-se de si mesmo é aceitar esse desalinhamento sem tentar imediatamente traduzi-lo em identidade.

No cotidiano, isso aparece quando percebemos que um pensamento que nos atravessa não “combina” com quem acreditamos ser. Ou quando um desejo surge sem justificativa biográfica. Ou ainda quando sentimos que certas palavras que usamos já não nos representam — mas também não sabemos quais as substituiriam. Esse desconforto não é um erro a corrigir; é o próprio pensamento em ato.

Ética da diferença

Há uma ética implícita nessa concepção. Diferenciar-se de si mesmo exige uma certa coragem: a de não se proteger excessivamente por narrativas fixas sobre quem se é. Em vez de perguntar “quem sou eu?”, a pergunta deleuziana seria: o que pode um corpo? O que pode este corpo, esta mente, este conjunto instável de afetos, quando não está ocupado em se reconhecer o tempo todo?

Essa ética não busca autenticidade, mas potência. Não pede coerência, mas intensidade. Diferenciar-se de si mesmo é permitir que a vida em nós vá além das formas que já conhece. É resistir à tentação de fechar-se em uma identidade confortável só para evitar o risco de não saber.

Um eu em variação contínua

Talvez o gesto mais inovador de Deleuze seja este: retirar da diferença qualquer traço de negatividade. Diferenciar-se de si mesmo não é perda, crise ou fragmentação. É produção. Produção de novos modos de sentir, pensar e existir. O “si mesmo” não é um núcleo a ser preservado, mas um campo de variações possíveis.

No fim, aquilo que chamamos de identidade é apenas uma pausa provisória no fluxo. Um nome dado ao movimento para que possamos continuar. Mas a vida, indiferente aos nomes, segue diferindo — inclusive de nós mesmos. E talvez pensar, no sentido mais forte, seja justamente acompanhar esse movimento sem tentar detê-lo.

Capacidade de Fluir


Nesta manhã enquanto caminhava no parque pensei: A gente aprende cedo a andar. Primeiro alguém segura nossa mão, depois solta por segundos, cai, levanta, e um dia simplesmente vai. O curioso é que, na vida adulta, o processo se inverte: quanto mais crescem as possibilidades, mais buscamos mãos invisíveis para nos guiar — manuais, opiniões, algoritmos, expectativas. Falar em capacidade de fluir e em caminhar com as próprias pernas é falar desse momento silencioso em que alguém percebe que continuar segurando tudo pode ser justamente o que impede o movimento.

Fluir não é escorrer, é sustentar o movimento

Fluir costuma ser confundido com leveza constante, como se fosse viver sem atrito. Mas fluir, filosoficamente, não é ausência de resistência; é capacidade de atravessar resistências sem endurecer. Um rio não flui porque o terreno é fácil, mas porque ele se adapta, contorna, insiste. O fluxo não elimina o obstáculo, ele o incorpora.

No cotidiano, isso aparece quando um plano falha e, em vez de paralisar, a pessoa ajusta o passo. O ônibus atrasou, a reunião mudou de horário, a resposta esperada não veio. Fluir, aqui, não é sorrir para o imprevisto, mas não transformar o imprevisto em identidade. É seguir andando sem precisar de um roteiro fechado para cada passo.

Caminhar com as próprias pernas

Caminhar com as próprias pernas não significa caminhar sozinho. Significa assumir a autoria do próprio movimento, mesmo quando se aceita ajuda. Há uma diferença sutil entre apoio e dependência. O apoio fortalece o caminhar; a dependência substitui o gesto.

Pense em decisões simples: escolher um caminho diferente para ir ao trabalho, dizer “não” sem justificar demais, aceitar um convite sem calcular excessivamente o que isso dirá sobre você. Caminhar com as próprias pernas é esse exercício diário de confiar no próprio senso de direção — mesmo sabendo que ele é falho, provisório e revisável.

Muitas vezes, o medo não é de errar, mas de errar sem álibi. Quando seguimos conselhos demais, terceirizamos o risco. Quando caminhamos por conta própria, o erro também nos pertence — e isso assusta. Mas é justamente aí que o movimento se torna real.

A ética do fluxo

Há uma ética implícita na capacidade de fluir. Ela exige atenção, não rigidez. Exige escuta do corpo, do tempo, das circunstâncias. Quem flui percebe quando insistir vira teimosia e quando recuar vira sabedoria. Não é passividade, é sensibilidade ativa.

No trabalho, por exemplo, fluir pode significar perceber que um método que funcionava já não funciona mais — e largá-lo sem ressentimento. Nas relações, pode ser aceitar que certas conversas precisam mudar de tom, ou até cessar. Fluir é reconhecer que permanência não é sinônimo de fidelidade, e mudança não é traição.

Autonomia como processo, não como estado

Caminhar com as próprias pernas não é um ponto de chegada, é um exercício contínuo. Há dias em que a gente anda firme, outros em que tropeça, e outros em que precisa sentar na calçada por um instante. Isso não invalida o caminhar. Pelo contrário: faz parte dele.

A maturidade talvez não esteja em nunca precisar de amparo, mas em saber quando ele ajuda e quando atrasa. A verdadeira autonomia não se anuncia em discursos grandiosos, mas em gestos pequenos: decidir sem pedir permissão interior, mudar de ideia sem culpa, seguir mesmo sem aplauso.

Movimento sem muletas

Fluir e caminhar com as próprias pernas é aceitar que a vida não oferece chão estável, apenas ritmo. Quem espera segurança absoluta não anda; quem aceita o desequilíbrio aprende a avançar. O fluxo não promete conforto, mas continuidade. E caminhar por conta própria não garante acerto, mas garante algo mais raro: presença.

No fim, talvez viver bem seja isso — não correr atrás de um caminho perfeito, mas manter o corpo em movimento, atento, disponível, capaz de seguir mesmo quando o mapa acaba.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Lembranças Suscitadas

Eu não escolho todas as lembranças que tenho. Muitas delas me escolhem.

Elas surgem sem aviso: no cheiro de terra molhada, numa música antiga, numa luz de fim de tarde. Não chegam completas — chegam como fragmentos, como sensações que pedem tradução. E, aos poucos, vão se transformando em histórias dentro de mim.

As lembranças suscitadas não são convocadas pela vontade, mas pelo encontro. Um objeto, um som, um gesto qualquer toca um fio invisível, e de repente eu estou em outro tempo, com outro corpo, com outra inocência.

Curiosamente, essas lembranças não vêm para informar. Vêm para afetar. Elas não dizem “foi assim”, dizem “foi importante”.

Às vezes não lembro do rosto, mas lembro do cuidado.

Não lembro da fala, mas lembro do impacto.

Não lembro do dia, mas lembro de quem eu era naquele dia.

Proust dizia que a memória verdadeira é involuntária. Talvez porque só aquilo que realmente nos tocou saiba encontrar sozinho o caminho de volta.

E assim, percebo que não sou feito apenas das lembranças que guardo, mas também das que me visitam quando eu já tinha esquecido que elas existiam.

No fundo, as lembranças suscitadas são cartas que o passado ainda escreve para o presente — não para nos prender, mas para nos lembrar, com delicadeza, de quem já fomos sem saber.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Abnegação Apropriada


Eu demorei para entender que nem toda renúncia é virtude. E que nem todo apego é fraqueza. Há uma forma de abnegação que nos empobrece — e outra que nos devolve a nós mesmos.

A abnegação apropriada não é desaparecer para que o outro exista. É saber até onde ir sem se abandonar no caminho.

No cotidiano, ela é silenciosa.

É quando eu cedo sem me ressentir.

É quando eu ajudo sem precisar me anular.

É quando eu fico, mas também sei ir.

Existe uma abnegação que nasce do medo: de perder, de desagradar, de ficar só. Essa não liberta — ela adoece. E existe outra que nasce da lucidez: eu escolho abrir mão porque não preciso mais segurar. Essa é leve.

Simone Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de generosidade absoluta. Mas atenção não é submissão. É presença sem servidão.

A abnegação apropriada é aquela que não pede aplauso, nem deixa cicatriz. Ela não é sacrifício teatral; é equilíbrio íntimo. É o gesto que não grita “olhem o que deixei”, mas sussurra “ainda estou inteiro”.

Eu começo a achar que amadurecer é aprender a distinguir:

o que eu entrego por amor,

do que eu entrego por medo.

Porque só a primeira forma constrói. A segunda apenas nos esvazia.

No fim, a abnegação apropriada não é perder-se pelo outro — é encontrar um modo de continuar sendo, mesmo ao se oferecer.

Penitência e Prazer


Eu já confundi penitência com profundidade. E prazer com superficialidade. Hoje, vejo que essa divisão era mais moral do que verdadeira.

Aprendi cedo que sofrer dava um certo prestígio silencioso. Quem aguenta mais, quem renuncia mais, quem se priva mais… parece sempre mais sério, mais digno, mais “elevado”. O prazer, ao contrário, vinha quase sempre acompanhado de culpa, como se alegria fosse uma forma disfarçada de irresponsabilidade.

Mas a vida, com sua pedagogia lenta, começou a desmontar isso.

Percebi que há penitências que não purificam — apenas endurecem. E prazeres que não distraem — apenas lembram que ainda estamos vivos.

No cotidiano, isso é evidente.

Quando trabalho além do limite e chamo de virtude.

Quando recuso um descanso e chamo de caráter.

Quando aceito um pequeno prazer e sinto que estou “falhando”.

A penitência pode ser fuga: uma maneira elegante de não lidar com o desejo.

O prazer pode ser coragem: uma maneira simples de afirmar a existência.

Nietzsche já desconfiava dessa moral que santifica a dor e suspeita da alegria. Para ele, o problema não era o sofrimento em si, mas o culto ao sofrimento como se fosse superior à vida.

Talvez o amadurecimento esteja em reconciliar essas duas forças.

Há uma penitência necessária: a que disciplina, orienta, ensina limites.

E há um prazer necessário: o que reencanta, suaviza, devolve sentido.

Quando uma exclui a outra, a alma adoece.

Eu começo a pensar que viver bem não é escolher entre penitência ou prazer, mas permitir que ambos dialoguem. Que o esforço não destrua a alegria. Que a alegria não destrua a responsabilidade.

Porque a existência não pede heróis nem hedonistas.

Pede apenas alguém que saiba sofrer sem se glorificar —

e gozar sem se envergonhar.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Uma Pantomima


Há momentos em que a vida parece um grande palco silencioso. Todos se movem, gesticulam, ensaiam expressões — mas ninguém diz exatamente o que pensa. É uma pantomima: o sentido está no gesto, não na fala; na encenação, não na confissão.

Vivemos cercados por sinais. Um sorriso calculado no trabalho, o aceno automático no elevador, a opinião “segura” repetida em rodas diferentes. Nada disso é mentira no sentido clássico. É outra coisa: uma verdade representada, ajustada ao público. Como no teatro mudo, entende quem sabe ler corpos, ritmos e pausas.

A pantomima não é só social; é também íntima. Fingimos para nós mesmos. Fazemos o gesto de seguir em frente quando, por dentro, ainda estamos sentados. Acreditamos no movimento porque o movimento convence. O corpo faz, e a consciência corre atrás para justificar. Aqui, a ação precede o sentido — e não o contrário.

Há uma estranha ética nisso tudo. A pantomima mantém a convivência. Ela lubrifica o mundo. Se disséssemos tudo, o palco ruiria. Mas o preço é alto: quando o gesto vira hábito, esquecemos o que ele queria dizer. A forma sobrevive; o conteúdo evapora.

Talvez por isso certas obras — livros, filmes, silêncios bem colocados — nos incomodem tanto. Elas interrompem a pantomima. Criam um vazio onde o gesto automático não funciona. Exigem recepção, não repetição. Pedem presença.

Essa pantomima cotidiana encontra fundamentação filosófica em Erving Goffman, que, ao analisar a vida social como uma encenação, mostra que os indivíduos constroem “fachadas” para sustentar a definição da situação diante dos outros. Em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman revela que gestos, posturas e silêncios funcionam como signos cuidadosamente administrados, não para expressar uma verdade interior autêntica, mas para manter a ordem da interação. A pantomima, nesse sentido, não é falsidade moral, mas necessidade estrutural da vida social: representamos papéis para que o mundo continue inteligível. O problema surge quando a encenação deixa de ser um meio e passa a ser um fim — quando o indivíduo se identifica inteiramente com o papel e já não distingue o gesto que comunica do gesto que substitui a experiência. Nesse ponto, a pantomima deixa de organizar o convívio e passa a empobrecer o sujeito.

No fim, a pergunta não é como acabar com a pantomima (isso seria ingenuidade), mas quando ela deixa de ser linguagem e vira anestesia. O gesto pode esconder, mas também pode revelar. Tudo depende se ainda há alguém ali dentro, movendo o corpo — ou se o corpo já aprendeu a se mover sozinho.

Às vezes, o ato mais radical é simples: parar o gesto no meio. E deixar o silêncio falar.

Teoria da Recepção

Ler é ser lido

Há livros que não mudam em nada — e, ainda assim, mudam tudo. Eles ficam ali, parados na estante, com as mesmas palavras, as mesmas páginas, a mesma capa. Quem muda somos nós. E, curiosamente, quando mudamos, o livro muda junto. Não porque ele tenha se mexido, mas porque o sentido não mora só no texto. Mora no encontro. Um livro assim é Dom Casmurro, li mais de uma vez.

A Teoria da Recepção começa exatamente nesse ponto meio desconfortável: o momento em que percebemos que ler não é um ato neutro. Ler é se colocar em jogo. É permitir que o texto nos toque — mas também tocá-lo de volta.

O sentido como acontecimento

Tradicionalmente, fomos educados a pensar que o sentido de uma obra estava:

  1. ou na intenção do autor (“o que ele quis dizer?”),
  2. ou no próprio texto, como se fosse um objeto fechado.

A Teoria da Recepção bagunça essa arrumação elegante. Para Hans Robert Jauss, o sentido acontece no choque entre a obra e o horizonte de expectativas do leitor. Esse horizonte é histórico, cultural, afetivo. Não é apenas o que sabemos, mas o que esperamos.

Por isso, uma obra nunca chega em terreno neutro. Ela chega em alguém. E alguém é sempre um mundo em andamento.

Aqui, o sentido deixa de ser uma coisa e passa a ser um evento.

As lacunas: onde o leitor entra

Wolfgang Iser aprofunda essa ideia ao mostrar que todo texto é, por natureza, incompleto. Ele possui lacunas, silêncios, indeterminações. O texto sugere, provoca, aponta — mas não entrega tudo.

Essas lacunas não são defeitos. São convites.

Ler, então, não é apenas receber uma mensagem, mas executar a obra, quase como um músico executa uma partitura. A partitura está ali, mas a música só existe quando alguém toca. E cada execução é diferente, mesmo sendo “a mesma” música.

Dom Casmurro como laboratório da recepção

Poucos livros ilustram tão bem a Teoria da Recepção quanto Dom Casmurro. Não porque Machado de Assis tenha escondido uma resposta definitiva sobre Capitu, mas porque construiu um texto que precisa do leitor para funcionar.

Bentinho não é apenas um narrador: é um dispositivo de recepção. Ele nos conta a história enquanto nos testa. Seleciona lembranças, omite gestos, exagera suspeitas. O texto não nos diz se Capitu traiu ou não — ele nos pergunta, silenciosamente, o que fazemos com a dúvida.

Cada leitor chega ao romance com um horizonte distinto:

  • quem confia na memória tende a confiar em Bentinho;
  • quem desconfia do ressentimento vê nele um narrador frágil;
  • quem já amou, perdeu ou foi traído lê o livro com o corpo inteiro.

O romance não muda. O veredito, sim.

Machado parece intuir algo que a Teoria da Recepção formularia depois: o sentido não está na resposta, mas na experiência interpretativa. Dom Casmurro não é um enigma a ser resolvido, mas um espelho que devolve ao leitor seus próprios critérios de julgamento.

Quando a filosofia entra na sala

A Teoria da Recepção conversa diretamente com a hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, para quem compreender é sempre um processo de fusão de horizontes. Não há interpretação sem pré-compreensão. Não há leitura sem história pessoal.

No Brasil, essa ideia encontra eco em Paulo Freire, quando afirma que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O leitor não chega vazio ao texto: ele chega carregado de vida. E é essa vida que faz o texto falar.

Ler, nesse sentido, é também ser lido. O texto nos observa enquanto o observamos. Ele nos revela a nós mesmos.

Recepção não é relativismo

Um equívoco comum é achar que a Teoria da Recepção transforma tudo em “vale qualquer coisa”. Não é bem assim. O texto impõe limites. Ele orienta possibilidades. Nem toda leitura é defensável.

Mas entre o texto fechado e a interpretação arbitrária existe um campo fértil: o campo da responsabilidade interpretativa. O leitor é livre, mas não soberano. Ele dialoga, não domina.

Dom Casmurro, novamente, é exemplar: nem toda leitura se sustenta, mas nenhuma leitura honesta consegue encerrar o romance de forma definitiva.

A obra como espaço de transformação

Talvez o aspecto mais radical da Teoria da Recepção seja este:

uma obra não é apenas algo que entendemos — é algo que nos modifica.

Quando uma leitura nos incomoda, nos desloca ou nos acompanha por anos, não é porque descobrimos “o verdadeiro sentido” do texto, mas porque o texto encontrou algo em nós que ainda estava em formação.

A recepção, então, não é um ato final. É um processo contínuo. Cada releitura é uma reescrita silenciosa.

Conclusão (sem fechar demais)

A Teoria da Recepção nos ensina que a cultura não é um museu de sentidos fixos, mas um campo vivo de encontros. Ler é um ato de presença. Exige atenção, abertura e risco.

Dom Casmurro permanece porque nunca termina de acontecer. Ele apenas espera leitores diferentes para continuar dizendo outra coisa.

No fundo, talvez seja isso:

não somos apenas leitores das obras — somos lugares onde elas acontecem.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Peregrinação

Uma aventura terrena

Eu sempre achei curioso chamar de peregrinação algo que, no fundo, acontece quase todo por dentro. O corpo anda, mas é a consciência que se desloca.

A peregrinação não é turismo. Também não é fuga. É uma forma de colocar o mundo em movimento para ver se a alma acompanha.

A gente parte achando que vai encontrar lugares. Mas o que encontra são versões de si mesmo espalhadas pelo caminho. Um cansaço que não conhecia. Uma paciência que não sabia ter. Uma saudade que não estava nomeada.

Na estrada, tudo fica mais simples e mais intenso. A água tem gosto. O chão pesa. O silêncio fala. E cada passo parece dizer: ainda estou aqui.

No cotidiano, a peregrinação reaparece disfarçada.

Quando mudamos de trabalho.

Quando encerramos um ciclo.

Quando aceitamos caminhar sem garantias.

Não é preciso mochila nem estrada. Basta atravessar uma decisão.

Santo Agostinho dizia que o homem é um peregrino no tempo. Não porque esteja perdido, mas porque nunca está definitivamente instalado. A permanência absoluta não é da natureza humana. Somos feitos para atravessar.

Minhas pescarias solitárias sempre foram menos sobre fisgar peixes e mais sobre me deixar fisgar pelo caminho. Eu ia sem pressa, sem expectativa, como quem peregrina não para chegar, mas para atravessar. O mar era apenas um pretexto; o verdadeiro movimento acontecia dentro de mim, no silêncio entre um arremesso e outro, no vento leve, no som da água tocando as margens. Cada passo na beira do mar parecia um pequeno rito de desapego: eu não buscava troféus, buscava presença. E voltava com a alma discretamente reorganizada, como se a peregrinação tivesse cumprido, em mim, um acordo invisível.

Por isso, a peregrinação é uma aventura terrena: não promete céu imediato, mas oferece chão real. Poeira nos pés, vento no rosto, dúvidas no bolso. Ela não nos tira do mundo —

ela nos devolve a ele.

E talvez o mais bonito seja isso: a peregrinação não nos transforma em santos. Nos transforma em humanos atentos.

No fim, percebo que não caminho para chegar. Caminho para não endurecer.

E cada passo, mesmo pequeno, é uma forma delicada de dizer à vida: ainda estou disposto a continuar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mudança de Cenário

Eu tenho a impressão de que a memória não ama a rotina. Ela ama a ruptura.

Os dias iguais se empilham sem deixar vestígios. Mas basta uma mudança mínima — um caminho diferente, uma cadeira trocada de lugar, uma conversa inesperada — para que aquele dia ganhe contorno. A memória, curiosamente, não registra o que se repete; ela registra o que desloca.

É por isso que lembramos com nitidez de viagens, despedidas, primeiros encontros, últimos encontros. E esquecemos semanas inteiras de normalidade. A memória tem essa tendência quase poética: fixar as diferenças, não as mesmices.

No cotidiano isso é evidente. Eu não lembro de todos os cafés que tomei, mas lembro daquele em que alguém disse algo que me mudou um pouco. Não lembro de todas as voltas para casa, mas lembro da que fiz em silêncio absoluto, como se estivesse atravessando outra pessoa.

A mudança de cenário não precisa ser geográfica. Às vezes é apenas interna. Um pensamento novo já é uma paisagem nova.

Heráclito diria que ninguém entra duas vezes no mesmo rio — mas a memória, ainda mais radical, escolhe lembrar só quando percebe que a água já não é a mesma. O que não muda, ela deixa escorrer.

Talvez por isso a gente se recorde mais dos conflitos do que das harmonias, mais das viradas do que das continuidades. Não porque o conflito seja maior, mas porque ele quebra o padrão. Ele cria relevo.

A mesmice constrói a vida.

A diferença constrói a lembrança.

E no fim, percebo algo curioso: não somos feitos daquilo que vivemos todos os dias, mas daquilo que, em algum momento, nos tirou do lugar.

Memória com Significado


Eu já percebi que não guardo o que aconteceu. Guardo o que aquilo fez comigo.

Datas se apagam. Frases se embaralham. Rostos mudam. Mas certas experiências permanecem intactas, não porque foram precisas, e sim porque foram decisivas. A memória, no fundo, não é um arquivo — é uma curadoria.

Outro dia, tentando lembrar um momento específico da infância, percebi que só restava a sensação: um fim de tarde, uma luz amarela, um silêncio confortável. Não sei mais quem estava ali. Mas sei como eu me sentia. E talvez isso seja o que realmente importa.

No cotidiano, é assim:

– A gente esquece a conversa, mas lembra do constrangimento.

– Esquece o conselho, mas lembra da coragem que ele provocou.

– Esquece o nome, mas lembra do acolhimento.

A memória com significado não é fiel aos fatos. Ela é fiel à transformação.

Bergson já dizia que lembrar não é reproduzir o passado, é recriá-lo a partir do presente. Cada lembrança é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora. Por isso, toda memória é um pouco invenção — e, ainda assim, profundamente verdadeira.

Eu começo a achar que o valor de uma lembrança não está em sua nitidez, mas em sua utilidade interior. Se ela me ajuda a compreender melhor, ela permanece. Se só me prende, ela vai se dissolvendo com delicadeza.

Memória com significado não pesa. Ela orienta.

É aquela lembrança que não nos puxa para trás, mas nos endireita por dentro. Que não nos paralisa, mas nos oferece uma espécie de chão invisível.

No fim, talvez a alma não seja feita de tudo o que viveu — mas apenas daquilo que soube transformar em sentido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Corpos Dóceis

Quando o corpo aprende a pedir licença

Outro dia percebi que eu estava sentado exatamente como me ensinaram: costas eretas, pernas paralelas, mãos quietas. Ninguém me mandou fazer isso naquele momento. Ainda assim, fiz. Meu corpo sabia. E foi aí que lembrei de Foucault.

Ele chamaria isso de um corpo dócil: um corpo que não apenas obedece, mas que aprendeu a obedecer sozinho.

O que Foucault queria dizer com “corpos dóceis”?

Em Vigiar e Punir, Foucault mostra como, a partir do século XVIII, o poder deixou de atuar só punindo e passou a treinar. O corpo virou um projeto. Não bastava mais que ele fosse forte ou útil — ele precisava ser útil, previsível, produtivo e controlável.

O corpo dócil é aquele que:

  • se move como deve,
  • senta como deve,
  • trabalha como deve,
  • fala quando deve,
  • cala quando deve.

Não por violência explícita, mas por disciplina: escola, quartel, hospital, fábrica, escritório, academia, algoritmo.

O genial (e assustador) é que o poder já não precisa mais gritar. O corpo aprendeu a se corrigir sozinho.

Cena 1: a sala de aula

Crianças enfileiradas, carteiras alinhadas, silêncio valorizado, ir ao banheiro só com autorização. O corpo aprende cedo que há um jeito certo de existir no espaço.

Quem se mexe demais é “hiperativo”.
Quem fala fora de hora é “indisciplinado”.
Quem questiona demais é “difícil”.

Não se ensina apenas matemática. Ensina-se postura, ritmo, obediência.

Cena 2: o trabalho

No escritório, ninguém prende você com correntes. Mas:

  • O relógio controla seus gestos.
  • O crachá controla seu acesso.
  • O e-mail controla seu tom.
  • O salário controla seu medo.

Você não está preso. Está formatado.

Seu corpo aprende quando pode ir ao banheiro, quanto pode comer, como pode vestir, como deve sorrir. E ainda agradece no final do mês.

Cena 3: a academia

Até o corpo “livre” da academia é disciplinado: séries, repetições, metas, métricas, espelhos. O corpo precisa performar. Precisa caber num padrão de eficiência estética.

Até o prazer virou planilha.

Cena 4: o celular

Aqui Foucault não chegou a ver, mas certamente sorriria com ironia: o corpo dócil agora segura o próprio instrumento de vigilância. Ele se oferece ao algoritmo. Mede passos, sono, humor, produtividade.

Não é mais só o Estado que vigia.
É o aplicativo.
E, principalmente, eu mesmo.

O ponto mais perturbador

O corpo dócil não é o corpo que sofre.
É o corpo que acha normal.

Eu não sinto que estou sendo controlado. Eu sinto que estou sendo “organizado”. E é justamente aí que o poder vence.

Foucault não fala de tiranos visíveis. Ele fala de uma engenharia invisível da normalidade.

O corpo dócil não é quebrado.
Ele é educado.

Mas existe saída?

Foucault não oferece libertação romântica. Ele oferece consciência.

Talvez a pequena revolução esteja em:

  • sentar diferente,
  • andar sem pressa,
  • trabalhar sem se reduzir,
  • dizer não sem pedir desculpas,
  • descansar sem culpa,
  • existir fora da performance.

O corpo começa a deixar de ser dócil quando volta a ser sensível.

Um fechamento pessoal

Hoje, quando percebo meu corpo se ajustando automaticamente, eu me pergunto:

Isso é conforto… ou adestramento?

Nem sempre a resposta é clara. Mas só a pergunta já é um pequeno ato de indisciplina — e, para Foucault, isso já é política.

Porque, no fundo, o corpo dócil não é apenas um corpo obediente.
É um corpo que esqueceu que poderia se mover de outro jeito.

E talvez pensar seja exatamente isso: lembrar ao corpo que ele ainda pode escolher como existir no espaço.

Simplesmente Justo


Às vezes a gente não quer ser herói. Não quer ser santo. Nem exemplo. A gente só quer ser justo. Simplesmente justo. Como quem devolve a carteira achada na rua sem esperar aplauso. Como quem não passa a perna quando ninguém está olhando. Como quem diz “não fui eu” mesmo sabendo que poderia se esconder atrás do silêncio. A justiça, nesse sentido, não é um tribunal: é um gesto pequeno, quase invisível, mas profundamente humano.

O justo no cotidiano

Ser justo começa em coisas mínimas. Na fila do mercado, quando você percebe que alguém tem menos itens e deixa passar. No trabalho, quando reconhece o mérito do outro mesmo sabendo que isso não te favorece. Na família, quando escuta antes de julgar. Na política, quando não defende o erro só porque foi cometido por “um dos nossos”. Na amizade, quando diz a verdade sem humilhar.

O curioso é que a justiça raramente traz conforto. Ela quase sempre exige perda: de vantagem, de ego, de pertencimento, de silêncio. Por isso, ser justo não é natural — é uma escolha.

Justiça não é neutralidade

Muita gente confunde justiça com neutralidade. Mas o justo não é quem se omite; é quem se posiciona sem se corromper. Aristóteles dizia que a justiça é a maior das virtudes porque organiza todas as outras. Ela não é só uma regra externa, mas uma disposição interna: uma forma de desejar o que é devido.

Ser justo não é tratar todos igual, mas tratar cada um conforme sua necessidade e sua dignidade. O justo reconhece diferenças sem transformá-las em privilégios.

O conflito entre justiça e conveniência

No mundo real, a justiça quase sempre perde para a conveniência. É mais fácil concordar do que confrontar. É mais fácil rir da injustiça quando ela não nos atinge. É mais fácil adaptar a verdade do que sustentar a integridade.

Nietzsche já alertava que muitas morais são apenas acordos de conveniência social. A justiça autêntica, porém, começa quando o indivíduo se recusa a negociar aquilo que o torna digno de si mesmo.

O justo como equilíbrio frágil

A justiça não é um estado permanente. É um equilíbrio frágil entre razão, empatia e coragem. Quem é justo hoje pode não ser amanhã. Por isso, ser justo é uma prática, não um título.

Hannah Arendt mostrou que grandes injustiças históricas não nasceram de monstros, mas de pessoas comuns que abriram mão de pensar. O justo, então, é aquele que se recusa a anestesiar a consciência.

Simplesmente justo

Ser simplesmente justo não muda o mundo inteiro. Mas muda um mundo: o de quem convive com você. E muda, principalmente, o mundo dentro de você. Porque a justiça, quando é autêntica, não produz orgulho — produz silêncio. Um silêncio tranquilo de quem sabe que não traiu a própria medida.

No fim, talvez a maior revolução não seja ser radical, nem perfeito, nem admirável. Talvez seja apenas isso: ser simplesmente justo. Quando ninguém vê. Quando ninguém aplaude. Quando só a consciência está assistindo.

E, estranhamente, isso já é muito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Apocalipse da Atualidade

Não vem com trombetas — vem com notificações.

Hoje, o fim do mundo não acontece de uma vez. Ele acontece em parcelas, em atualizações, em alertas no celular, em gráficos vermelhos, em discursos inflamados, em silêncios constrangidos. O apocalipse contemporâneo não é um evento: é um clima.

Não há cavaleiros do Apocalipse descendo do céu. Há entregadores exaustos subindo escadas. Não há pragas bíblicas, mas há ansiedade coletiva, solidão em massa, excesso de informação e falta de sentido. O mundo não acaba em chamas — ele se desgasta.

Eu percebo isso quando entro num supermercado: prateleiras cheias, pessoas vazias. Quando abro as redes sociais: todos opinando, quase ninguém escutando. Quando vejo debates políticos: não é mais sobre ideias, é sobre aniquilar o outro. O apocalipse de hoje é relacional.

Antigamente, o fim do mundo era imaginado como punição divina. Hoje, ele parece mais uma consequência lógica. Consumimos como se não houvesse amanhã, e depois nos assustamos quando o amanhã começa a faltar. Falamos de sustentabilidade como quem pede desculpa sem intenção de mudar.

Bauman talvez diria que vivemos um apocalipse líquido: nada explode, tudo escorre. As instituições escorrem, os vínculos escorrem, as certezas escorrem. E a gente tenta segurar tudo com as mãos abertas.

O curioso é que esse apocalipse não elimina a esperança — ele a torna frágil. Ainda há gestos pequenos que salvam o mundo todos os dias: alguém que escuta, alguém que cuida, alguém que resiste à brutalidade sendo gentil. Mas esses gestos não viram manchete.

O tema apocalíptico da atualidade não é o fim da humanidade. É o risco de continuarmos vivos sem humanidade.

E talvez o verdadeiro juízo final não seja externo. Talvez seja íntimo. A pergunta não é “quando o mundo acaba?”, mas:

em que momento eu deixei de sentir que ele podia melhorar?

Porque o apocalipse mais perigoso não é o que destrói cidades — é o que convence as pessoas de que não vale mais a pena reconstruí-las.

Oportunidade de Esquecer


Eu costumava achar que esquecer era uma falha. Um curto-circuito da memória. Uma traição ao que foi vivido. Hoje desconfio do contrário: esquecer, muitas vezes, é uma forma silenciosa de sobrevivência.

A gente não esquece só datas, nomes ou senhas. Esquece versões de si mesmo. Esquece promessas que já não fazem sentido. Esquece dores que insistiam em definir quem éramos. E, sem perceber, vai abrindo espaço para uma versão menos pesada de existir.

Outro dia, no café — esse meu pequeno santuário cotidiano — percebi que já não lembrava mais com nitidez de uma discussão antiga que, na época, parecia definitiva. Lembro da sensação, não das palavras. E isso mudou tudo. Porque a sensação também tinha perdido força. O esquecimento, ali, não foi perda: foi libertação.

Esquecer é permitir que o passado deixe de ser uma sentença e passe a ser apenas um capítulo. Não apagado — mas também não mais gritado.

No cotidiano, isso aparece em coisas pequenas:

– Quando você encontra alguém que já te feriu e percebe que não sente mais raiva.

– Quando uma música antiga já não dói.

– Quando um erro vira só uma história, não mais uma identidade.

A memória quer nos ensinar. O esquecimento quer nos devolver leveza.

Paul Ricoeur dizia que lembrar e esquecer fazem parte do mesmo gesto humano: dar sentido ao tempo. Sem esquecimento, a memória vira um arquivo cruel, onde nada pode ser reorganizado. Sem memória, o esquecimento vira vazio. O equilíbrio entre os dois é o que nos permite continuar.

Talvez a vida não nos dê apenas oportunidades de lembrar — mas também oportunidades discretas de esquecer na medida certa. Não por desprezo ao passado, mas por respeito ao futuro.

E eu, hoje, começo a desconfiar que esquecer não é abandonar quem fomos.

É apenas recusar continuar sendo apenas aquilo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Causamos Impactos

por menores que sejam!

Eu comecei a perceber que causamos impactos mesmo quando achamos que estamos apenas passando. Uma palavra dita sem intenção, um silêncio mantido, um gesto mínimo — tudo isso toca alguém de algum modo. Não controlamos o tamanho do efeito, apenas o cuidado do gesto. Às vezes marcamos sem saber, ferimos sem notar, curamos sem perceber. O mais curioso é que raramente lembram do que dissemos exatamente, mas quase sempre lembram de como os fizemos sentir. E talvez seja isso: não somos autores das histórias dos outros, mas somos linhas inevitáveis nelas. Causamos impactos não por sermos grandiosos, mas simplesmente por estarmos presentes.

Eu aprendi que não existe passagem neutra. Onde eu passo, algo se ajusta — mesmo que seja só um detalhe invisível. Uma palavra dita sem intenção, um olhar que não se sustenta, um gesto de cuidado quase automático. Tudo deixa rastro.

Às vezes penso que só causamos impacto quando fazemos algo grandioso. Mas não. O impacto verdadeiro costuma ser microscópico. É alguém que dorme melhor por causa de uma conversa curta. É alguém que carrega uma dúvida porque ouviu uma frase fora de hora. É alguém que se sente visto por um segundo.

O curioso é que raramente somos testemunhas do efeito que causamos. A vida não nos mostra as consequências. Ela apenas nos confia o gesto.

Por isso, começo a entender que responsabilidade não é peso — é consciência. Eu não controlo o mundo, mas participo dele. E essa participação, por menor que seja, já é transformação.

No fim, talvez não sejamos lembrados pelo que construímos, mas pelo modo como atravessamos os outros. E mesmo sem saber, deixamos pequenas ondulações em existências que jamais voltaremos a tocar.

Efeito de Posteridade

Sempre achei curioso como a gente vive para hoje, decide para amanhã, mas quase nunca pensa para depois de amanhã — aquele “depois” que já não nos inclui. É como se o futuro fosse um hóspede abstrato, que nunca chega de verdade. No entanto, tudo o que fazemos deixa rastros. Palavras, gestos, omissões, escolhas pequenas demais para parecerem históricas. E, ainda assim, é nelas que a posteridade se constrói.

Chamo isso de Efeito de Posteridade: a força silenciosa com que nossas ações continuam atuando quando já não estamos mais presentes para explicá-las, defendê-las ou corrigi-las.

O Efeito de Posteridade nasce do descompasso entre intenção e herança. Agimos a partir do que somos hoje, mas somos julgados a partir do que deixamos.

Hannah Arendt dizia que agir é sempre iniciar algo cujo fim não controlamos. A ação, uma vez lançada no mundo, torna-se independente de seu autor. Ela entra numa cadeia de consequências, interpretações e apropriações. A posteridade não herda nossa consciência; herda apenas nossos vestígios.

Nietzsche, por outro lado, desconfiava da ideia de legado como redenção. Para ele, o desejo de ser lembrado muitas vezes é apenas outra forma de medo da insignificância. Ainda assim, mesmo quem rejeita o legado não escapa dele. Até o silêncio é herdado.

O Efeito de Posteridade, portanto, não é sobre glória. É sobre continuidade involuntária. Somos causas de coisas que nunca veremos como efeitos.

Há aqui uma ironia profunda:

vivemos como se fôssemos passageiros, mas deixamos marcas como se fôssemos permanentes.

O paradoxo da responsabilidade tardia

Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo modo como isso poderá ser usado.

Uma frase escrita hoje pode inspirar amanhã — ou justificar uma violência depois.

Uma decisão política pode proteger uma geração — e comprometer outra.

Uma educação rígida pode formar caráter — ou produzir medo disfarçado de disciplina.

A posteridade não pergunta o que quisemos dizer. Ela pergunta: o que isso produziu?

Assim, o Efeito de Posteridade nos coloca diante de uma ética desconfortável:

não basta ter boas intenções; é preciso aceitar que nossas ações terão destinos que não escolhemos.

Situações cotidianas

1. Na família

Um pai que sempre diz ao filho: “engole o choro”. Ele quer formar alguém forte. Anos depois, a posteridade desse gesto é um adulto que não sabe pedir ajuda. O pai não deixou apenas uma frase; deixou uma estrutura emocional.

2. No trabalho

Um gestor que normaliza pequenas injustiças “para não criar conflito”. Sua posteridade não é a paz, mas uma cultura de medo elegante, onde todos sorriem e ninguém confia.

3. Nas redes sociais

Uma opinião publicada sem cuidado vira argumento para outros. O autor esquece. A posteridade replica. A ideia já não pertence mais a quem escreveu, mas a quem a utiliza.

4. Na educação

Um professor que incentiva um aluno dizendo: “você pensa diferente”. Aquela frase pode ecoar por décadas como identidade, coragem e escolha. Às vezes, a posteridade de um gesto é maior que uma biografia inteira.

O Efeito de Posteridade e o eu invisível

Existe uma versão nossa que nunca conheceremos:

aquela que vive apenas na memória dos outros.

É essa versão que a posteridade carrega.

Somos lembrados menos pelo que fomos e mais pelo que despertamos.

Menos pelo que dissemos e mais pelo que ficou.

Nesse sentido, o Efeito de Posteridade é uma espécie de biografia escrita por terceiros, sem nosso controle editorial.

Uma ética da delicadeza

Talvez o caminho não seja tentar controlar a posteridade — isso é impossível —, mas agir com a consciência de que tudo o que fazemos é uma semente. Algumas germinam como flores, outras como espinhos. Muitas brotam em terrenos que jamais veremos.

Agir com delicadeza, então, não é romantismo. É lucidez histórica.

Porque o futuro não nos deve fidelidade.

Mas nós devemos alguma responsabilidade ao futuro.

O Efeito de Posteridade nos ensina que viver não é apenas ocupar o presente, mas assinar contratos invisíveis com o tempo. Cada gesto é uma cláusula. Cada escolha, uma condição.

E talvez a verdadeira maturidade não seja querer ser lembrado, mas agir como quem respeita quem ainda vai lembrar.

No fim, não seremos julgados por aquilo que pretendemos ser,

mas por aquilo que deixamos continuar.