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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Almas Vazias


Tem dias em que olhamos ao redor e sentimos que há algo estranho no ar. As conversas parecem roteiros ensaiados, os sorrisos funcionam como protocolos sociais, e as palavras voam sem deixar rastro. É como se estivéssemos cercados por pessoas que estão ali, mas não estão. Presenças sem presença. Algo falta, mas o quê? Talvez estejamos lidando com aquilo que podemos chamar de almas vazias.

O que seria, afinal, uma alma vazia? Não se trata de ausência de sentimentos ou de inteligência. Muitos dos que se enquadrariam nessa definição são funcionais, articulados e, por vezes, até bem-sucedidos. No entanto, carregam um certo vazio existencial, uma desconexão com a própria interioridade. Vivem sem um eixo que os amarre a algo genuíno, sem um fogo interno que ilumine sua jornada.

Nietzsche falava do homem do rebanho, aquele que simplesmente segue as tendências, sem nunca questioná-las. Mas talvez a alma vazia seja um passo além: não apenas segue, mas o faz sem sentir, sem se apropriar do próprio caminho. Não há um projeto pessoal de vida, apenas uma adesão mecânica ao que já está estabelecido.

No dia a dia, podemos identificar essas almas no olhar perdido no trânsito, nas interações automáticas nos escritórios e nas redes sociais lotadas de discursos vazios. A vida é reduzida a uma performance constante, sem um verdadeiro sentido. Quando se conversa com alguém assim, sente-se uma ausência de profundidade. As palavras são ditas, mas não há um real envolvimento. Como se a interioridade tivesse sido substituída por um eco de expectativas alheias.

Mas o que causa essa esterilidade do espírito? Podemos pensar em uma série de fatores. O excesso de informação sem assimilação real, o culto à produtividade sem espaço para contemplação, o medo de enfrentar o próprio silêncio. No fundo, uma alma vazia talvez seja uma alma que parou de dialogar consigo mesma. Sem reflexão, sem mergulho interior, sem contato com aquilo que nos torna únicos.

Há saída? A questão não é simples. Reencontrar a própria alma exige uma ruptura com a superficialidade imposta pelo mundo. Exige se permitir o incômodo da dúvida, o risco do questionamento, a coragem de abandonar máscaras. Exige se abrir para o que é autêntico, mesmo que isso signifique romper com aquilo que sempre foi confortável.

No fim das contas, talvez almas vazias não sejam irremediavelmente vazias. Talvez estejam apenas adormecidas, esperando um chamado. E esse chamado pode vir de uma conversa inesperada, de um livro que sacode certezas, de um instante de pura contemplação. Tudo depende de um passo: o desejo de reencontrar o que um dia foi esquecido dentro de si.


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Pequenas Coisas

Quando o extraordinário se esconde no cotidiano

Há dias em que a vida parece se dissolver no automático: acordar, correr, resolver, responder. Tudo tão urgente que até o silêncio se sente invadido.

E é curioso — porque justamente nesses dias em que mais procuramos um “grande sentido” para continuar, ele costuma se esconder nas frestas do cotidiano.

 

Um gesto simples que muda o dia

Lembro de uma manhã qualquer. O ônibus atrasou, o café esfriou, e a pressa parecia guiar o mundo.
Foi quando uma senhora, sentada ao meu lado no ponto, me ofereceu um pão de queijo.

Sem dizer nada, apenas estendeu a mão.

O gesto foi pequeno, quase banal — mas naquele instante senti que havia mais vida ali do que em muitas metas ou discursos motivacionais.

Talvez a vida seja isso: uma sucessão de pequenos gestos que nos lembram que estamos juntos nesse mistério.

 

Viktor Frankl e a descoberta do sentido

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, escreveu em Em busca de sentido que a vida nunca deixa de ter significado, mesmo diante do sofrimento.

Para ele, o ser humano é movido não pelo prazer ou pelo poder, mas por uma “vontade de sentido”.
Não se trata de inventar um propósito, e sim de descobrir o que já está presente — mesmo em situações simples ou dolorosas.

“Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.” — Viktor Frankl

 

A ilusão do grande propósito

Vivemos em uma época em que todos buscam um propósito épico:
a carreira perfeita, a viagem transformadora, o amor que vai justificar tudo.

Mas o sentido, se existe, é tímido.
Ele aparece no cuidado com uma planta que floresce, na risada que escapa no meio do caos, na conversa breve com alguém cansado demais para falar.

A vida cochicha o que realmente importa — e o curioso é que quase nunca é algo extraordinário.

 

Três caminhos para encontrar o sentido

Frankl dizia que o sentido pode ser encontrado em três dimensões:

  • No trabalho, quando fazemos algo com amor;
  • No amor, quando nos entregamos de verdade;
  • No sofrimento, quando damos uma resposta digna ao inevitável.

Isso significa que até o que parece insignificante pode conter grandeza, desde que vivido com presença.

 

Estar presente é um ato filosófico

Talvez o que mais falte hoje seja presença — não a física, mas aquela atenção tranquila que acolhe o instante.
Quando conseguimos estar de corpo e alma no que fazemos, até varrer o chão pode ser um ato filosófico.

A vida deixa de ser uma lista de tarefas e volta a ser o que sempre foi: um convite para perceber.

 

Conclusão: não busque o sentido, viva-o

O sentido da vida não está num destino distante, mas no modo como olhamos o agora.
Não é algo a ser encontrado, e sim algo que se revela quando paramos de correr atrás dele.

Quem sabe o segredo não seja procurar o sentido da vida,
mas permitir que a vida faça sentido através de nós.


quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Tecnologia Distante


As telas nos aproximaram de quem está longe — e nos afastaram de quem está perto. O toque virou emoji, o diálogo virou notificação. Estamos conectados, mas nem sempre comunicados.

O problema não é a tecnologia, mas o modo como ela ocupa o silêncio. Preenchemos o vazio com barulho digital, e esquecemos o valor de estar simplesmente junto, sem precisar digitar nada.

Tecnologia distante é aquela que nos conecta e, ao mesmo tempo, nos afasta do que está ao nosso redor. Outro dia, vi meu sobrinho todo concentrado no notebook, os olhos grudados na tela, enquanto a família conversava na sala. Ele respondia mensagens, assistia a vídeos e jogava, mas parecia em outro mundo, separado do cheiro do café, do riso da tia, do toque do cachorro no tapete. É curioso como a tecnologia aproxima pessoas que estão longe e, paradoxalmente, cria uma distância silenciosa entre quem está perto. No fim, ela nos lembra que nem todo contato é contato de verdade.

Byung-Chul Han, filósofo coreano, fala da “sociedade do cansaço” — uma era em que o excesso de estímulos nos exaure. Talvez seja hora de reaprender a desconectar para, enfim, nos conectar de verdade.

A presença continua sendo o melhor sinal de internet.


terça-feira, 28 de outubro de 2025

Falando Sério

O Peso das Palavras no Teatro da Vida

Outro dia, enquanto esperava um café, ouvi alguém dizer: “Falando sério agora...” e, no instante seguinte, a conversa mudou de tom. Como se, até ali, tudo tivesse sido um ensaio, um jogo de cena. Parece que vivemos entre dois registros: o do riso, da leveza, do improviso – e o da seriedade, daquilo que pesa, que compromete. Mas o que exatamente significa “falar sério”? E será que só há verdade no que é dito em tom grave?

Na tradição filosófica, a seriedade sempre teve um status ambíguo. Platão, por exemplo, desconfiava da ironia dos sofistas, que brincavam com as palavras, manipulando significados ao seu bel-prazer. Já Nietzsche, ao contrário, acusava a seriedade moral de ser uma grande farsa, um disfarce para a hipocrisia. Afinal, falar sério é dizer a verdade ou apenas assumir uma postura que convence os outros de que a verdade está ali?

Nos gestos cotidianos, levamos a seriedade como um sinal de credibilidade. No trabalho, no noticiário, nos discursos políticos – tudo aquilo que carrega um tom solene tende a ser visto como mais confiável. Mas há algo curioso nisso: a seriedade pode ser uma máscara, um artifício retórico. Um professor pode ser formal e enfadonho, e ainda assim não transmitir nada de substancial. Um líder pode parecer compenetrado e comprometido, mas estar apenas encenando uma performance de autoridade.

Por outro lado, o riso e a leveza, frequentemente desprezados, carregam muitas vezes uma forma de verdade mais crua. O humor tem uma capacidade ímpar de desnudar o absurdo da existência, de apontar contradições que a seriedade prefere esconder. Como disse Millôr Fernandes, “o humor é a mais séria das atitudes”. A ironia pode ser mais reveladora do que qualquer discurso grave, e um palhaço pode dizer verdades que um juiz jamais ousaria pronunciar.

Talvez, no fim das contas, a questão não seja falar sério ou não, mas sim falar com autenticidade. A verdade não tem um tom fixo, e o peso das palavras não depende de sua solenidade. O que realmente importa é se o que dizemos tem substância ou se estamos apenas encenando para uma plateia. Porque, sejamos francos, o mundo está cheio de gente que fala sério... e não diz absolutamente nada.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Crise Banal


Você já se sentiu inquieto mesmo vivendo uma rotina aparentemente comum e sem grandes problemas? Essa sensação revela algo curioso: a vida banal também pode ser um tipo de crise. Não é a crise de grandes mudanças externas, mas aquela que surge silenciosa, dentro de nós, questionando sentido, escolhas e prioridades. Para muitos a segunda-feira carrega esta sensação, estão enganados, pois a segunda-feira é renovação mesmo que pareça repetição.

Muitas vezes, seguimos o fluxo diário — trabalho, tarefas, compromissos — acreditando que estar ocupado é sinônimo de estar vivendo plenamente. Mas a monotonia pode esconder insatisfação, frustração ou sensação de estagnação. É como se estivéssemos cumprindo um roteiro pronto, sem nos perguntar se ele realmente nos representa.

O interessante é que essa crise não precisa ser negativa. Ela é, na verdade, um chamado à consciência. Um alerta de que é hora de refletir sobre o que realmente importa, quais caminhos desejamos trilhar e onde queremos investir nossa energia. Pequenas mudanças, reflexões e escolhas conscientes podem transformar essa sensação de vazio em oportunidade de crescimento.

Como apontava Søren Kierkegaard, filósofo da existência, “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Reconhecer a crise banal é o primeiro passo para reencontrar significado, mesmo nas atividades mais rotineiras.

No fim, não é necessário esperar grandes catástrofes para despertar. Até a rotina mais comum pode nos desafiar a refletir, ajustar o rumo e viver de forma mais plena. A crise, por menor que pareça, é um convite à atenção e à transformação.


domingo, 26 de outubro de 2025

Destino é ilusão?


Você já parou para pensar sobre o que realmente determina o rumo de nossas vidas? Muitos de nós nos perguntamos se existe um destino pré-determinado que guia cada passo que damos, ou se somos os únicos responsáveis por moldar nosso próprio caminho. A questão do destino é uma daquelas coisas que nos fazem coçar a cabeça e refletir profundamente sobre a natureza da existência humana.

Imagine esta cena: você está sentado em um café aconchegante, saboreando sua xícara de café enquanto observa as pessoas passarem pela rua. De repente, você vê dois amigos se encontrarem por acaso depois de anos sem se verem. Eles riem, conversam animadamente e prometem marcar um encontro para colocar a conversa em dia. Você se pergunta: foi simplesmente uma coincidência feliz ou estava destinado a acontecer?

Essa é uma das muitas situações do cotidiano que nos fazem questionar a existência do destino. Às vezes, parece que certos eventos estão além do nosso controle e acontecem independentemente das nossas ações. Porém, há quem argumente que o destino é apenas uma ilusão, uma desculpa conveniente para explicar o que não compreendemos completamente.

Vamos dar uma olhada em uma visão alternativa. Considere a história de Tom, um jovem empreendedor que trabalha incansavelmente para transformar sua startup em um sucesso. Ele enfrenta obstáculos, fracassos e desafios ao longo do caminho, mas nunca desiste. Será que Tom está seguindo um destino pré-escrito ou ele está simplesmente fazendo escolhas conscientes que moldam seu futuro?

Para nos ajudar a refletir sobre essa questão, vamos recorrer às palavras de um famoso pensador, o filósofo grego Sócrates. Em uma de suas célebres frases, Sócrates afirmou: "O destino não é uma questão de sorte, é uma questão de escolha; não é algo a ser esperado, é algo a ser alcançado."

Essa citação nos lembra que, embora possamos enfrentar circunstâncias além do nosso controle, somos, em última análise, responsáveis por nossas escolhas e ações. Talvez o destino seja menos sobre um plano predefinido e mais sobre as consequências das decisões que tomamos ao longo de nossas vidas.

Então, onde isso nos deixa? Talvez o destino seja uma mistura complexa de eventos aleatórios e escolhas conscientes. Talvez seja uma ilusão reconfortante que nos ajuda a dar sentido ao aparente caos do universo. Ou talvez seja algo que nunca seremos capazes de entender completamente.

No final das contas, o destino permanece como uma daquelas questões intrigantes que continuaremos a debater e a ponderar. Enquanto isso, podemos encontrar conforto na ideia de que, seja qual for a verdade sobre o destino, ainda temos o poder de influenciar nosso próprio destino através das escolhas que fazemos a cada dia, afinal o destino é algo em nossa mente que sabemos não ter acontecido e por isto mesmo poderá ser escrito por cada um de nós.

sábado, 25 de outubro de 2025

Despersonalização

O eu que se desfaz

Há dias em que a gente se olha no espelho e tem a impressão de ver alguém hospedado no próprio rosto. O café está ali, a rotina segue seu roteiro de sempre, o corpo se move — mas parece pertencer a outro. É como assistir à própria vida de fora, um espectador cansado de si mesmo. Essa sensação estranha, meio fantasmagórica, chama-se despersonalização: quando o “eu” perde suas bordas, e o sujeito passa a se ver como uma sombra daquilo que costumava ser.

Na vida cotidiana, ela se infiltra de maneira sutil. Um professor que, depois de anos repetindo o mesmo conteúdo, fala no automático, sem reconhecer mais a própria voz. Um motorista que dirige por quilômetros e, ao chegar, percebe que não lembra do caminho. Ou alguém que, em meio às telas e obrigações, sente-se presente apenas em aparência, como se sua consciência estivesse em suspensão. A despersonalização não é apenas um termo clínico — é um sintoma de uma época que exaure o sentido de ser alguém.

O filósofo Jean-Paul Sartre já havia notado esse fenômeno em O Ser e o Nada: para ele, o sujeito se dissolve quando se torna um objeto diante do olhar do outro. É o “eu” que se vê sendo visto, reduzido a imagem. Em tempos de redes sociais, essa condição ganha forma: somos constantemente convertidos em vitrines de nós mesmos, onde o ser cede espaço à performance. A identidade, que antes se construía na interioridade, agora se mede em curtidas e visualizações — uma exteriorização que, paradoxalmente, esvazia o sujeito.

Martin Heidegger também ajuda a entender esse deslizamento do eu. Em Ser e Tempo, ele descreve o impessoal (das Man), esse modo de existir em que o sujeito se confunde com o que “se faz”, “se diz”, “se espera”. O “eu” se dilui no anonimato do cotidiano: “fala-se”, “pensa-se”, “vive-se”. Assim, a despersonalização não vem apenas de uma crise individual, mas de uma estrutura social que empurra o ser humano para fora de si, num ritmo em que ser autêntico se torna quase um luxo.

E há ainda Clarice Lispector, que, com menos filosofia e mais carne, traduziu essa sensação em palavras: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, talvez.” Clarice não descreve uma doença, mas uma travessia. A despersonalização pode ser, paradoxalmente, um caminho para o reencontro — um esvaziamento necessário para descobrir o que ainda é verdade em meio a tantas máscaras.

No mundo contemporâneo, marcado por hiperconexão e aceleração, a despersonalização tornou-se quase uma epidemia silenciosa. Vivemos cercados de estímulos que fragmentam a atenção e substituem o tempo da experiência pelo tempo da resposta imediata. Não há mais espaço para o silêncio interior — e, sem ele, o “eu” se desfaz como fumaça. A tecnologia, ao mesmo tempo em que amplia a comunicação, também fabrica versões editadas de nós mesmos, gerando uma espécie de presença sem presença: estamos em toda parte, menos onde realmente somos.

Talvez, portanto, a despersonalização seja o sintoma de uma alma sobrecarregada. Mas também pode ser um convite: parar, desidentificar-se do ruído, reconhecer o vazio e, nesse vazio, reencontrar uma forma mais simples e humana de existir. Em meio à pressa e à aparência, talvez o primeiro gesto de resistência seja lembrar — e sentir — que ainda há alguém ali dentro.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Saber o Futuro


Outro dia, enquanto esperava um amigo num café, notei uma senhora jogando cartas de tarô para uma cliente atenta. O ambiente tinha aquele ar de mistério misturado com aroma de café fresco. A cliente olhava fixamente para as cartas, como se, ao decifrar aqueles símbolos enigmáticos, pudesse antecipar o que lhe aguardava. Fiquei ali pensando: por que a ideia de saber o futuro nos fascina tanto?

Desde tempos imemoriais, a humanidade tenta desvendar o que está por vir. Oráculos gregos, astrologia, profecias religiosas, inteligência artificial prevendo tendências – a busca pela previsibilidade atravessa eras e culturas. Mas por que essa obsessão? Talvez porque o futuro represente o grande desconhecido, e conhecer o desconhecido é uma forma de controle. Se soubéssemos o que vai acontecer, talvez pudéssemos evitar tragédias, tomar melhores decisões ou, no mínimo, preparar-nos psicologicamente.

Porém, a possibilidade de saber o futuro também carrega um paradoxo: se o futuro já está determinado e pode ser conhecido, onde fica o livre-arbítrio? Se uma previsão é infalível, então nossa liberdade é apenas uma ilusão? Este dilema já inquietava os antigos estoicos, que acreditavam num destino inescapável, e também preocupou Santo Agostinho, que buscou conciliar a onisciência divina com a liberdade humana.

Por outro lado, se o futuro for apenas um campo de possibilidades abertas, então toda tentativa de predizê-lo é em vão. A filosofia existencialista de Sartre defenderia que o ser humano está condenado à liberdade, ou seja, sempre tem escolha e sempre está criando o futuro a partir do presente. Esse pensamento talvez nos liberte do medo do destino, mas também impõe uma grande responsabilidade: somos os artesãos do nosso próprio caminho, sem mapas garantidos.

Talvez a nossa busca por saber o futuro seja, no fundo, um desejo de aliviar a angústia da incerteza. Mas, paradoxalmente, é essa mesma incerteza que dá sabor à vida. Se soubéssemos exatamente como tudo vai acontecer, restaria algum encanto na jornada? A vida, como um romance, precisa do inesperado para ser emocionante. E talvez o maior mistério não seja saber o futuro, mas sim aprender a viver bem no presente.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Como Amigos


As pessoas falam com assistentes virtuais como se fossem amigos, confiam no GPS mais do que na própria memória das ruas, e pedem que algoritmos escolham músicas, filmes — e até o amor. A inteligência artificial deixou de ser ficção científica para se tornar um tipo de espelho do humano, só que com menos sono e mais dados.

No escritório, ela corrige textos, prevê demandas, avalia desempenho. Nas escolas, ajuda a fazer trabalhos e, paradoxalmente, ensina professores a lidar com alunos que preferem perguntar a uma máquina. Há quem a veja como ameaça, outros como libertação. Mas poucos percebem que o problema não está nela — está em nós.

Afinal, quando pedimos que uma máquina pense por nós, o que realmente estamos entregando? Talvez não apenas tarefas, mas o exercício da dúvida, da hesitação, da consciência. O perigo não é a IA se tornar humana, mas o humano se tornar automático — movido por cliques, impulsos e respostas prontas.

O filósofo Hans Jonas, em O Princípio Responsabilidade, advertia que a técnica ampliou tanto o poder humano que a ética antiga já não basta. Antes, nossas ações tinham alcance limitado; hoje, uma decisão tecnológica pode afetar gerações. Por isso, Jonas propõe uma nova ética: agir de modo que as consequências de nossas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra.

Aplicando isso à inteligência artificial, a questão se inverte: não é “o que ela pode fazer”, mas “o que nós devemos permitir que ela faça”. A responsabilidade recai sobre o criador — e sobre cada usuário que, ao apertar um botão, transfere parte da própria consciência a um sistema que não sente, não sofre e, portanto, não se arrepende.

No fundo, a consciência artificial é um teste da nossa própria humanidade. Se formos éticos o bastante, ela será apenas uma extensão da nossa lucidez. Se formos preguiçosos ou inconsequentes, ela se tornará o reflexo do nosso descuido.

E talvez o desafio mais filosófico de todos seja esse: continuar sendo humanos em um mundo cada vez mais inteligente.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Discutindo a Relação

Dizem que a frase "precisamos conversar" tem um poder desproporcional para causar calafrios. Quando alguém a pronuncia, parece que um relógio invisível começa a contar os segundos antes de algo inevitável: um ajuste de contas, um pedido de mudança, um desabafo adiado. Mas, se pararmos para pensar, toda relação – amorosa, familiar, profissional ou social – é uma negociação constante, um diálogo em aberto onde os termos nunca estão completamente fechados.

O problema é que nem sempre estamos preparados para discutir a relação. Preferimos acreditar que as coisas se ajustam sozinhas, que a convivência tem um automatismo que dispensa revisões. No entanto, como já dizia Sartre, o outro é um espelho incômodo. Ele nos revela coisas sobre nós mesmos que talvez preferíssemos ignorar. Relacionar-se é, em parte, enfrentar a imagem que o outro nos devolve.

O Campo de Batalha Invisível

Na filosofia, a relação entre o "eu" e o "outro" sempre foi um problema fundamental. Martin Buber, por exemplo, distingue dois tipos de relação: "Eu-Tu" e "Eu-Isso". A primeira é uma conexão genuína, na qual o outro é visto como sujeito, e não apenas como um meio para um fim. Já a segunda transforma o outro em objeto, algo que usamos ou manipulamos. Quando uma relação se deteriora, é porque deslizamos de um "Tu" para um "Isso". O outro deixa de ser um universo a ser explorado e se torna apenas um papel funcional na nossa vida.

Mas será que sempre conseguimos tratar o outro como um "Tu"? No cotidiano, o que chamamos de “discutir a relação” muitas vezes não é um encontro verdadeiro, mas um jogo de forças. Queremos convencer, justificar, vencer. A relação vira um campo de batalha onde a escuta é sacrificada pelo desejo de impor uma versão dos fatos.

A Ilusão da Estabilidade

A filosofia budista nos ensina que apego gera sofrimento. Isso vale para as coisas e, talvez mais ainda, para as relações. Queremos que as pessoas sejam consistentes, previsíveis, que cumpram o roteiro que imaginamos para elas. No entanto, tudo muda o tempo todo. Os vínculos que construímos não são estruturas fixas, mas processos dinâmicos.

Se entendêssemos isso, discutir a relação não seria um momento de crise, mas um ajuste natural, um realinhamento necessário. O problema é que, como sugere o filósofo brasileiro Vilém Flusser, temos medo da incerteza. Preferimos nos agarrar a fórmulas conhecidas do que aceitar que uma relação é, em essência, um jogo de improviso.

Talvez o verdadeiro desafio não seja evitar a DR, mas aprender a vê-la como parte do processo de estar com o outro. A relação não é algo pronto, mas algo que se refaz a cada dia. No fim das contas, discutir a relação é discutir a si mesmo – e isso, convenhamos, nunca é fácil.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

Coragem Desinteressada



Nem toda coragem é barulhenta. Algumas vivem em silêncio, escondidas em gestos simples — no perdão que ninguém vê, na despedida sem drama, no ato de ajudar sem esperar nada em troca. A coragem desinteressada é essa força mansa que não busca aplausos, reconhecimento ou vantagem. É o oposto do heroísmo exibido: é a coragem de quem age por convicção, não por retorno.

Vivemos num tempo em que tudo parece precisar de testemunhas. Se não houver plateia, parece que não valeu. Mas há algo de mais puro quando o gesto é gratuito, quando fazemos o bem por entender que ele é o que deve ser feito, e não por esperar gratidão. É a coragem de amar sem garantia, de oferecer sem contabilizar, de permanecer digno mesmo quando ninguém está olhando.

Essa coragem é a que permite ao professor continuar ensinando mesmo diante da apatia, ao artista criar mesmo quando ninguém o entende, ao amigo estender a mão mesmo sabendo que pode ser esquecido depois. É o tipo de coragem que não negocia com o ego.

O filósofo indiano N. Sri Ram, em A Busca da Sabedoria, diz que “a verdadeira coragem é silenciosa, porque nasce do amor e da compreensão, não da necessidade de vencer”. Ele fala de uma coragem que não se impõe, mas que sustenta — aquela que nos mantém fiéis ao que é certo, mesmo quando o mundo segue na direção contrária.

A coragem desinteressada é também uma forma de desapego. Ela compreende que os frutos de um ato justo não pertencem a quem o pratica, mas à própria vida. Quando alguém age assim, não está em busca de recompensa, mas em harmonia com o que sente verdadeiro. É como acender uma vela em um quarto escuro sem se preocupar se alguém verá a luz.

Em tempos de exibição constante, talvez a coragem desinteressada seja o gesto mais revolucionário: fazer o bem e seguir, sem precisar provar que o fez. Essa coragem não se mede em conquistas, mas em serenidade — a paz de saber que a própria consciência é suficiente testemunha.

E, curiosamente, é quando deixamos de buscar reconhecimento que o mundo nos reconhece de outro modo. Porque quem age com coragem desinteressada desperta confiança, respeito e amor, não por querer isso, mas porque é assim que a alma responde à verdade.

No fim, essa coragem é a maturidade do coração: a força de quem não precisa vencer para estar em paz, nem ser visto para existir. É a coragem de continuar sendo bom — mesmo quando o mundo parece não notar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Medo Egoísta


Há medos que nascem para proteger a vida — o medo de uma queda, de um animal selvagem, de uma notícia médica incerta. São medos que têm um sentido biológico, quase nobre, porque servem à sobrevivência. Mas há outro tipo de medo, mais discreto, mais íntimo e, de certo modo, mais perigoso: aquele que não protege o corpo, e sim o ego. É o medo egoísta — o medo de perder o papel que acreditamos ter no mundo, a imagem que criamos de nós mesmos, ou o controle sobre o que amamos.

Esse medo aparece em gestos cotidianos: quando deixamos de expressar uma ideia para não parecer tolos, quando não elogiamos o outro para não sentir inveja, ou quando tememos mudar de vida porque alguém pode nos julgar. Mas ele se revela com mais força nas relações afetivas — quando o medo de perder alguém disfarça o próprio egoísmo. Queremos a pessoa por perto não porque desejamos o bem dela, mas porque precisamos dela à vista, sob nosso alcance emocional, como se a distância apagasse o amor. É o medo que transforma o afeto em vigilância e o cuidado em posse.

Amar, nesses casos, é querer ter, não querer ver. E esse querer ter é uma forma disfarçada de fraqueza: é o pavor de ficar só, de não ser lembrado, de não ter importância. O medo egoísta é o guardião da aparência — o medo de não sermos o centro do outro.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, disse que a angústia é a vertigem da liberdade — aquele mal-estar que sentimos diante do infinito das possibilidades. O medo egoísta é, justamente, a recusa dessa vertigem. Ele quer segurança em tudo: nas escolhas, nas relações, no amor. É a tentativa de domesticar o imprevisível. Só que o amor, como a existência, não cabe em grades.

Quando o ego tem medo, ele constrói fortalezas — mas esquece que toda fortaleza é também uma prisão. O medo de perder o outro faz com que percamos o essencial: o respeito pela liberdade do outro de ser, de ir, de crescer. E esse medo, que parece amor, é na verdade apego ao espelho: queremos o outro como reflexo, não como horizonte.

O educador e pensador brasileiro Rubem Alves escreveu que “amar é ter um pássaro pousado no ombro. Se ele quiser ficar, fica. Se quiser ir, vai. Amor que prende é amor que mata”. Essa imagem sintetiza o antídoto contra o medo egoísta: o amor que liberta, que permite o voo, mesmo que a ausência doa.

Superar o medo egoísta não significa eliminar o medo, mas transformá-lo: trocar o medo de perder pelo medo de não viver com verdade; trocar o medo da distância pelo desejo de que o outro floresça; trocar o controle pela confiança. Porque, no fim, quem vence o medo egoísta não perde ninguém — apenas deixa de aprisionar o que ama. E descobre, enfim, que o amor só existe quando o outro é livre o bastante para ficar.

domingo, 19 de outubro de 2025

Violência Neural

O esgotamento invisível da mente

Outro dia, sentado num café, percebi que quase ninguém olhava para o próprio café. As pessoas estavam ali, mas suas mentes pareciam flutuar em outro lugar, perdidas em notificações, pensamentos fragmentados, urgências silenciosas. Ninguém gritava, ninguém brigava — mas havia uma espécie de violência pairando no ar. Uma violência sem sangue, sem ruído, quase doce: a violência de estar sempre ligado.

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, chama isso de “violência neural” — uma forma de agressão que não vem de fora, mas de dentro. É a violência da autoexploração, do excesso de positividade, da cobrança constante por desempenho. Vivemos, segundo ele, numa era em que o poder já não precisa oprimir com força: basta induzir o sujeito a se autoexplorar, acreditando que é livre.

Essa é a ironia trágica: o trabalhador contemporâneo não tem mais um patrão de chicote na mão — ele é o próprio patrão e o próprio escravo. O cansaço, a ansiedade e a exaustão que carregamos não vêm mais de um inimigo externo, mas da nossa própria mente que não consegue parar.

Han observa que saímos da “sociedade disciplinar”, descrita por Foucault — onde o poder se exercia por meio de proibições, deveres e castigos — e entramos na sociedade do desempenho, onde tudo se resume a “poder fazer mais”. Mas esse “poder” virou um dever mascarado. O sujeito acredita que está se realizando, quando na verdade está se consumindo. A positividade virou uma espécie de violência invisível: sorrimos enquanto adoecemos.

No cotidiano, essa lógica aparece nas pequenas coisas. Acordamos e a primeira luz que toca o rosto é a do celular. Antes mesmo de levantar da cama, já respondemos mensagens, conferimos e-mails e deslizamos o dedo por notícias e conteúdos que não escolhemos de fato. O corpo ainda está no quarto, mas a mente já foi sequestrada pelo fluxo ininterrupto de informações. A cada toque, uma descarga de dopamina — e um pouco mais de cansaço.

As redes sociais tornaram-se o grande palco dessa violência. Nelas, todos se transformam em pequenas marcas pessoais, vendendo versões editadas de si mesmos. O sujeito não se expressa mais: se expõe. A fronteira entre vida e performance desapareceu. A ansiedade de ser visto, curtido, compartilhado cria um tipo de vigilância sem vigia — o olhar do outro está sempre presente, mesmo quando não há ninguém por perto.

E o mais curioso é que ninguém nos obriga a isso. Não há coerção externa, apenas uma sedução interna: queremos participar, queremos pertencer, queremos ser reconhecidos. Como diria Han, é um poder que não reprime, mas estimula. E é justamente isso que o torna tão eficaz.

No ambiente de trabalho, a violência neural assume formas ainda mais sofisticadas. O antigo controle do relógio de ponto deu lugar ao culto da produtividade. Já não basta cumprir o expediente: é preciso render, inovar, aprender continuamente. O descanso virou uma ameaça à eficiência. Mesmo fora do horário de trabalho, as pessoas continuam conectadas, respondendo mensagens, planejando entregas, antecipando problemas. O tempo livre se dissolveu na lógica da performance.

Há uma cena recorrente que traduz bem essa sensação: o trabalhador que, à noite, deita exausto e sente culpa por não ter feito mais. Ele não sofreu nenhuma opressão externa — apenas acreditou que poderia ter sido mais produtivo. O fracasso agora é vivido como falha pessoal, não como sintoma de um sistema.

Han chama isso de “autoexploração voluntária”. O sujeito acredita que é autônomo, mas vive preso a um imperativo silencioso: faça mais, mostre mais, seja mais. Essa crença gera o que ele denomina cansaço patológico — um esgotamento que não é físico, mas mental e espiritual. O cérebro, sobrecarregado de estímulos, perde a capacidade de se aquietar.

A consequência é uma epidemia de sofrimento invisível. Depressão, burnout, ansiedade e distúrbios de atenção não são apenas doenças individuais — são sintomas sociais. São expressões de uma estrutura que nos obriga a estar sempre ativos, sempre disponíveis, sempre performando. A violência neural é, portanto, a face psíquica de um sistema que descobriu como explorar sem precisar mandar.

A cada nova tecnologia, acreditamos ganhar tempo — mas, na verdade, perdemos tempo de qualidade. Ganhamos velocidade e perdemos profundidade. Vivemos num presente fragmentado, feito de microinterações, microrecompensas e microfrustrações.

Han sugere que o antídoto não está na resistência agressiva, mas na contemplação. Recuperar a capacidade de estar em silêncio, de suportar o tédio, de habitar o próprio tempo sem culpa. Em A Sociedade do Cansaço, ele diz: “A aceleração e a agitação produzem uma ausência de mundo.” E sem mundo — isto é, sem espaço para reflexão e encontro — a alma se dissolve.

É curioso que, enquanto o Ocidente corre atrás de produtividade, o Oriente — de onde vem o próprio Han — sempre valorizou o repouso da mente. No budismo, fala-se em śamatha, a prática da calma mental. Não é apenas ficar em silêncio, mas permitir que a mente retorne a si mesma, que o pensamento se desacelere até reencontrar o centro. A atenção plena (mindfulness), tão popular hoje, tem essa origem: o gesto simples de estar presente.

Mas o que era um exercício de libertação acabou sendo capturado pelo mercado como mais um produto de eficiência — cursos de “mindfulness corporativo” prometem reduzir o estresse e aumentar a produtividade. Até o silêncio foi transformado em ferramenta de desempenho. A paz interior virou KPI.

Contudo, se voltarmos à raiz da ideia budista, o silêncio não serve para render mais, mas para ser menos — menos ego, menos pressa, menos ruído. É nesse vazio que a consciência reencontra sua dignidade. A mente calma é, nesse sentido, um ato político. É resistência contra a lógica da aceleração.

O filósofo coreano, com sua melancolia elegante, parece nos lembrar que viver é também saber não fazer. Que o tempo que não produz é o tempo que nos devolve humanidade. A violência neural só perde força quando recuperamos o direito de sermos lentos, inúteis, ineficientes — em suma, humanos.

Talvez o primeiro passo seja simples: desligar o celular por algumas horas, olhar o céu, ouvir o vento, deixar o pensamento passar como nuvem. Tomar um café sem precisar postar, sem pensar no que virá depois. A pausa é subversiva, porque interrompe o fluxo que nos esgota.

A verdadeira liberdade, no fundo, pode ser simplesmente poder dizer: hoje não quero render nada. E, nesse ato de aparente improdutividade, talvez a mente volte a respirar.

Como escreve Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço mata o tempo e, com ele, a alma.” Mas o tempo — esse tempo que ainda nos pertence — pode renascer no instante em que recuperamos o direito de simplesmente existir.


sábado, 18 de outubro de 2025

Máscaras da Depressão

Outro dia, numa conversa despretensiosa, alguém comentou: “Fulano sempre está sorrindo, nem parece que tem depressão.” A frase ficou ecoando na minha cabeça. Desde quando a tristeza precisa ser óbvia? Desde quando a dor psíquica precisa se apresentar de maneira transparente? Se há algo que a sociedade moderna ensinou bem é o talento para disfarçar. E poucos sentimentos se camuflam tão bem quanto a depressão.

A depressão não anda por aí com um cartaz dizendo: “Ei, estou aqui.” Pelo contrário, ela se esconde, se mascara, se dilui nas exigências do cotidiano. Às vezes, veste o rosto da produtividade extrema — a pessoa que faz tudo, que nunca para, que está sempre disponível. Outras vezes, assume a forma da ironia — aquele humor ácido que disfarça um cansaço existencial profundo. Pode ainda aparecer como sociabilidade forçada — o riso alto na festa, as redes sociais cheias de registros de felicidade encenada.

Nietzsche dizia que “todo profundo espírito precisa de uma máscara.” Talvez a depressão tenha compreendido essa lição melhor do que ninguém. A necessidade de esconder a dor não é apenas individual, mas social. Vivemos em tempos onde a felicidade virou um dever, um produto de marketing. Se a infelicidade aparece, ela precisa ser logo justificada ou eliminada. Então, quem sente a tristeza persistente aprende a vesti-la com outra face, para que ninguém perceba.

Mas há um custo nisso tudo. A máscara, que em um primeiro momento parece proteger, pode se tornar uma prisão. Quem passa a vida disfarçando a dor, corre o risco de esquecer que é possível falar sobre ela, tratá-la, encará-la de frente. Em algum momento, as máscaras precisam cair — nem que seja em um ambiente seguro, diante de alguém que realmente escuta. Afinal, como disse Simone Weil, “a verdade é a necessidade mais profunda da alma humana.”

E talvez essa seja a grande ironia: para encontrar alívio, é preciso primeiro deixar de fingir.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Alegria Invejosa

Às vezes fico observando uma cena simples — alguém rindo alto num restaurante, celebrando algo que eu nem sei o que é — e percebo uma pontada estranha. Não é exatamente raiva, nem tristeza pura. É uma espécie de sombra que passa por dentro da gente quando o outro parece feliz demais. É como se a alegria alheia, em vez de nos contagiar, nos lembrasse daquilo que nos falta. Essa sensação é mais comum do que gostaríamos de admitir. A alegria do outro desperta, em nós, uma tristeza quase silenciosa — a tristeza pela alegria humana.

A inveja, nesse contexto, não é apenas o desejo de ter o que o outro tem. É mais profunda: é o incômodo de ver alguém experimentando uma forma de completude que julgamos perdida ou inalcançável. É o desconforto diante da evidência de que a felicidade pode estar mais próxima de quem está fora de nós do que de quem somos.

Nietzsche dizia que “o homem sofre mais com o sofrimento dos outros do que com o seu próprio” — mas talvez o contrário também seja verdadeiro: o homem sofre mais com a alegria dos outros do que com a sua falta de alegria. A inveja, segundo ele, é um dos motores mais poderosos da cultura ocidental. É ela que empurra o homem moderno à comparação constante, à competição disfarçada de progresso, ao olhar de soslaio nas redes sociais.

Mas há também algo de paradoxal nisso. Se a inveja é inerente à natureza humana — e, de certo modo, Nietzsche acreditava que sim —, então ela não é apenas um vício. É também uma força. A inveja contém, no seu fundo, o reconhecimento daquilo que é belo, daquilo que falta, daquilo que nos atrai. O problema é quando ela paralisa, em vez de inspirar. Quando transforma o outro em espelho de carência, e não em horizonte de possibilidade.

No cotidiano, isso se manifesta de maneiras sutis. Um colega que consegue uma promoção. Uma amiga que anuncia um novo amor. Um vizinho que reforma a casa. São acontecimentos simples, mas cada um deles toca, de leve, a ferida da comparação. Vivemos cercados por estímulos que nos convidam a medir o valor da nossa vida pelo brilho alheio. E é aí que nasce a tristeza pela alegria humana — o reflexo amargo de um mundo que aprendeu a competir até na felicidade.

Talvez o caminho esteja em reconhecer essa sombra sem culpa. Admitir que, sim, há inveja em nós — e que ela não precisa ser negada, mas compreendida. A inveja é uma confissão involuntária de que o outro nos importa. E, quem sabe, ao reconhecê-la, possamos transformá-la em admiração, em movimento, em desejo de ser mais, não por rivalidade, mas por comunhão.

Como diria Espinosa, “a alegria é a passagem de uma perfeição menor a uma maior”. Se conseguirmos transformar a tristeza pela alegria humana em passagem — e não em prisão —, talvez descubramos que o outro não é espelho da nossa falta, mas o lembrete de que ainda somos capazes de desejar o bem, mesmo que ele ainda não seja o nosso.


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Terra Gêmea

Imagine acordar um dia e descobrir que existe uma segunda Terra. Não um planeta qualquer, mas um mundo idêntico ao nosso, espelhando continentes, cidades e até pessoas. Uma Terra Gêmea. Essa ideia, que poderia ser encontrada tanto na ficção científica quanto em devaneios filosóficos, levanta questões profundas sobre identidade, destino e a própria noção do real.

Se houvesse uma cópia exata de nós mesmos vivendo nessa outra Terra, seríamos a mesma pessoa? Se cada decisão nossa tivesse um reflexo no outro mundo, o livre-arbítrio ainda faria sentido? E se a outra Terra tivesse tomado um rumo diferente—uma história sem guerras mundiais, sem crises climáticas, sem as mesmas falhas que acumulamos—ela seria um paraíso ou apenas um erro corrigido?

Na filosofia, questões como essa nos remetem a Platão e sua teoria das ideias, onde o mundo sensível não passa de uma cópia imperfeita do mundo ideal. A Terra Gêmea poderia ser, então, um modelo mais puro da nossa realidade ou uma versão degradada dela? Leibniz, ao falar do melhor dos mundos possíveis, talvez argumentasse que o nosso planeta é o único viável dentro das leis da lógica e da necessidade. Mas e se houvesse dois mundos igualmente possíveis? Quem determinaria qual deles é o melhor?

A identidade, um dos temas mais recorrentes da filosofia, também entra em jogo. Se houvesse um outro "eu" vivendo na Terra Gêmea, o que nos diferenciaria? Seria apenas a consciência individual, ou nossa história pessoal—com todas as suas singularidades e contingências—seria o que realmente nos define? Sartre, com sua ideia de que "a existência precede a essência", talvez sugerisse que nossos "eus" em cada Terra poderiam tomar rumos diferentes, moldando-se segundo suas escolhas e contextos.

Hilary Putnam, em seu famoso experimento mental da Terra Gêmea, nos leva a uma reflexão sobre linguagem e significado. Em sua hipótese, imaginamos um planeta idêntico ao nosso, exceto por uma única diferença: a composição química da água. Em nosso mundo, a água é H₂O, mas na Terra Gêmea, ela é composta por outra substância, XYZ. Ainda assim, os habitantes da Terra Gêmea a chamariam de "água". Isso levanta a questão: as palavras significam apenas aquilo que pensamos sobre elas, ou são determinadas por fatores externos? A existência de uma Terra Gêmea nos forçaria a reconsiderar o que de fato constitui a realidade e como atribuímos sentido ao mundo ao nosso redor.

Outra perspectiva intrigante vem da física e da cosmologia. A hipótese do multiverso sugere que realidades paralelas podem existir, cada uma com suas variações. No entanto, se a Terra Gêmea fosse exatamente igual, não estaríamos falando de um multiverso caótico, mas de um espelho perfeito, um desdobramento preciso da mesma equação cósmica. Isso faria de nós peças replicáveis, reféns de um determinismo absoluto?

Talvez a questão mais perturbadora seja ética. Se soubéssemos da existência da Terra Gêmea, isso mudaria a forma como lidamos com o nosso próprio mundo? Seríamos mais responsáveis, sabendo que cada ato pode ter seu eco em outro lugar? Ou nos tornaríamos indiferentes, relativizando nossas ações por saber que há uma cópia nossa passando pelas mesmas dificuldades e conquistas?

A ideia de uma Terra Gêmea nos obriga a encarar nossa própria condição com um olhar renovado. No fundo, talvez ela não passe de uma metáfora poderosa: e se, em vez de procurar um outro mundo, olhássemos para o nosso como algo ainda a ser descoberto, ainda a ser moldado? Pois, se há uma Terra Gêmea, há também a possibilidade de fazer desta Terra algo que valha a pena duplicar.


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Quatro Inteligências


Outro dia, sentado no sofá pensando em nada e em tudo, me ocorreu uma cena estranha: me ocorreu o encontro de quatro inteligências entrando num bar. Uma era toda lógica, fria, previsível — a artificial. A outra, cheia de sensações e nuances, quase sempre se confundindo entre sentir demais e entender de menos — a emocional. A terceira, com uma mistura de instinto, memória e milênios de tentativa e erro — a biológica. E a última, mais sutil, quase tímida, mas profunda e iluminadora — a espiritual.

Sim, existe uma inteligência espiritual. Não no sentido religioso tradicional, mas como uma percepção mais ampla, que nos permite sentir pertencimento ao todo, compreender propósito, intuir significados invisíveis. Pense nela como aquela voz que não grita, mas que sussurra verdades enquanto lavamos a louça ou caminhamos sem rumo.

A inteligência espiritual: o GPS do invisível

A inteligência espiritual não depende de algoritmos, hormônios ou reflexos. Ela aparece quando tudo desaba e, ainda assim, algo dentro de nós sussurra: “continua.” É ela que nos permite atravessar o vazio e encontrar sentido no sofrimento, ou enxergar beleza numa árvore solitária no meio do concreto.

Howard Gardner, criador da teoria das inteligências múltiplas, chegou a sugerir essa como uma possível nova categoria — uma inteligência que nos conecta a algo maior que nós mesmos. Já Viktor Frankl, que sobreviveu a campos de concentração, dizia que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” Eis aí a essência da inteligência espiritual: ela não resolve o problema, mas nos lembra por que vale a pena enfrentá-lo.

E as demais continuam lá

A inteligência biológica é prática: ela só quer sobreviver. A emocional é sensível: quer harmonia. A artificial é precisa: busca otimizar. E a espiritual… bem, ela não quer, ela é. Não se mede com QI nem se desenvolve com atualização de software. Ela cresce no silêncio, no espanto, na dúvida — e até no erro.

As quatro no bar

No bar, a artificial ainda pede com base em dados. A emocional escolhe conforme o humor. A biológica observa se há proteína suficiente. E a espiritual, essa, sorri. Ela não precisa pedir — está ali para lembrar que, entre um gole e outro, estamos todos tentando entender por que estamos sentados à mesa da existência.

O curioso é que talvez seja essa última inteligência — tão ignorada no currículo escolar quanto vital nas encruzilhadas da vida — que deva conduzir as outras. Porque a espiritualidade autêntica não nos afasta da realidade: ela nos devolve a ela com mais profundidade, mais empatia, mais presença.

Finalizando a rodada

Ser inteligente não é ter uma resposta rápida. É saber escutar o corpo, sentir o outro, pensar com clareza e, sobretudo, reconhecer que há algo além — um tipo de sabedoria que não se explica, mas se vive. Como quem fecha os olhos e entende, finalmente, que inteligência de verdade talvez seja... saber estar vivo com dignidade.

Com ou sem wi-fi.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Reflexões de Banheiro



Tem lugares onde a gente pensa sem querer pensar. O banheiro é um deles. Basta fechar a porta, escutar o som da água ou sentir o piso frio no pé descalço, que as ideias começam a escorrer junto com o sabonete. Pensamentos aleatórios aparecem no meio da escovação dos dentes, teorias de vida surgem entre uma descarga e outra, dilemas existenciais brotam no vapor do chuveiro. É quase um portal secreto para o nosso lado mais sincero — sem roupa, sem pose, sem plateia. Então por que não mergulhar nesse espaço improvável de filosofia cotidiana, onde o banal vira profundo e o papel higiênico pode, sim, ter um sentido metafísico.

O Santuário Íntimo

Entre as paredes frias da cerâmica e o eco suave da água correndo, o banheiro se revela um espaço paradoxal: íntimo e, ao mesmo tempo, exposto. Ali, nus não apenas em corpo, mas em pensamento, entramos em contato com nossa vulnerabilidade e com a pulsão primária de limpeza — física e existencial.

O Espelho e o Eu Fragmentado

Encostamo-nos ao espelho para arrancar pelos, ajeitar madeixas e, quem sabe, medir a extensão do cansaço refletido no olhar. Porém, o espelho devolve mais do que a imagem habitual: mostra-nos um “eu” multifacetado, feito de traços que mudam dia a dia. Nesse vislumbre fugidio, sentimos o eco de Heráclito: tudo flui, nada permanece. O rosto que nos contempla durante o banho é o mesmo que, logo depois, já não existe — mas continua a sustentar nossa sensação de identidade.

O Fluxo da Água e a Temporalidade

A água que cai incessante sobre nossos ombros leva embora o calor do dia e carrega partículas de passado — uma metáfora viva para a passagem do tempo. Cada gota que escorre sugere que, ao mesmo tempo em que nos banhamos, somos banhados pela própria história que deixamos escapar: memórias, angústias, expectativas. Esse rito diário aproxima-se da prática budista da atenção plena, em que a mente se ancora no presente, gota após gota, refluxo após refluxo.

A Solidão Cotidiana

Apesar de estarmos sós, a solidão do banheiro não é estranhamento. Antes, é acolhida: um breve intervalo entre “mundo de fora” e “mundo interior”. Em meio ao som da descarga ou ao chiado do chuveiro, revisitamos diálogos antigos, formulamos respostas que jamais diremos em voz alta. Esse espaço torna-se um laboratório de pensamentos, onde experimentamos versões de nós mesmos antes de reaparecermos para os outros.

A Limpeza e a Renovação

Limpar-se é simbolicamente renovar-se. Enxaguamos não só a poeira, mas as marcas de um dia intenso — e, quiçá, algumas de nossas certezas desgastadas. A lógica é quase alquímica: substâncias simples (sabonete, água) transformam o bruto em limpo, o velho em possibilidade. Em cada esfregão de esponja, ensaiamos uma pequena revolução existencial: rasgamos a fímbria do passado que teima em aderir.

Objetos Cotidianos como Ícones Filosóficos

O sabonete: efêmero em seu uso (desfaz-se em espuma), evoca a brevidade da vida.

O ralo: ponto de fuga, lembrete de que tudo o que deixamos ir é recolhido por circuitos ocultos, tal como as experiências que moldam o inconsciente.

O chuveiro: moderador de intensidade (quente, morno, frio), lembra a impermanência e a condição de autoregulação diante dos desafios.

Comentário de Mário Sérgio Cortella

Nas palavras de Cortella, “há uma enorme riqueza em percebermos as pequenas pausas do cotidiano” — justamente porque nesses momentos singulares somos convidados a pensar não o que precisamos fazer, mas quem somos. O banheiro, para ele, funciona como um “túnel de silêncio” onde a reflexão não é distração, mas um gesto de cuidado com a própria existência.

Do Banho ao Recomeço

Ao final do ritual, emergimos revigorados — fisicamente limpos e mentalmente reordenados. Carregamos conosco o exercício singular de ter parado, ainda que por minutos, para nos contemplar. E, assim, prontos para reaparecer no mundo, experimentamos, no espelho da última gota, a coragem de continuar a nos reinventar.

Talvez o banheiro seja o único lugar do mundo onde todo mundo vira filósofo sem diploma. Ali, sentados no trono da humanidade, entre azulejos e reflexões, questionamos o sentido da vida, o porquê das segundas-feiras e até o motivo de nunca conseguirmos lembrar se já passamos o condicionador. É nesse cubículo sagrado que grandes decisões são tomadas: relacionamentos terminam, ideias de negócios geniais nascem (e morrem logo após a descarga), e até planos para salvar o mundo são esboçados — geralmente com o cotovelo apoiado no joelho e o olhar perdido no rejunte da parede.

 - “Não é no silêncio que nos calamos, mas no eco das nossas reflexões.”

Reflexões de banheiro, onde o ordinário se transforma em extraordinário, gota a gota.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Negação da Existência

Sobre o Abismo do Ser

Outro dia, enquanto esperava meu café esfriar, fui surpreendido por uma pergunta que me veio como uma mosca irritante: “E se tudo isso não passar de um grande nada?” Olhei ao redor, vi as pessoas apressadas, os carros buzinando, o barista distraído com o celular. Parecia tudo tão sólido, tão presente. Mas havia uma brecha entre essas cenas cotidianas que deixava espaço para a dúvida: o que sustenta nossa existência? E, mais ainda, o que significa negá-la?

A negação da existência não é só uma provocação filosófica; é uma janela para um questionamento profundo sobre o que somos e como nos situamos no mundo. Essa ideia, tão antiga quanto as primeiras reflexões humanas, encontra ecos em pensadores como Parmênides, que acreditava na impossibilidade do “não-ser,” e em Sartre, que via o nada como parte integrante do ser. Mas, no dia a dia, como lidamos com esse abismo que pode, às vezes, nos fazer sentir que tudo é um vazio sem sentido?

O Nada Como Fundamento

Quando falamos em negar a existência, não se trata apenas de dizer "nada existe" em termos absolutos. Há nuances. A negação pode ser um refúgio diante da complexidade da vida, uma recusa em aceitar o peso de ser. Friedrich Nietzsche tocou nesse ponto ao falar do niilismo, essa negação profunda que surge quando perdemos os fundamentos que sustentam nosso sentido de realidade. Quando nada importa, qualquer coisa se torna suportável — ou insuportável.

No cotidiano, é fácil perceber traços dessa postura. Pense em quem evita compromissos, projetos ou relacionamentos, dizendo “nada disso faz diferença.” Essa negação, disfarçada de indiferença, pode ser uma forma de autoproteção, mas também um abismo que engole possibilidades. Talvez a negação da existência não seja um afastamento do mundo, mas uma forma de encará-lo de frente, questionando seus alicerces.

O Contraponto da Filosofia

É curioso como a filosofia, mesmo lidando com ideias tão desconcertantes, não busca destruir o sentido, mas ampliá-lo. Simone de Beauvoir, em Por uma Moral da Ambiguidade, argumenta que negar a existência pode ser uma escolha válida, mas que aceitar a complexidade do ser é mais corajoso. A vida, com todas as suas contradições, é um palco de possibilidades. Negá-la completamente seria como assistir a um filme de olhos fechados: o movimento está ali, mas a experiência se perde.

Para Beauvoir, a negação total é uma forma de abdicar da liberdade. Ao negar o mundo, negamos também a nós mesmos, nossos desejos e nossa capacidade de transformar. A aceitação, por outro lado, é uma afirmação do potencial humano. O desafio está em encontrar um equilíbrio entre encarar o nada e reconhecer o que emerge dele.

A Negação no Dia a Dia

Voltando ao café frio e ao barista distraído, percebo como essa reflexão ecoa nas pequenas coisas. Quantas vezes nos desconectamos do momento presente, negando sua existência? No fundo, talvez a negação não seja a ausência do ser, mas uma forma de evitá-lo. É mais fácil negar que nos importamos do que admitir o medo de sofrer, mais simples fingir que algo não existe do que lidar com sua complexidade.

Ainda assim, há beleza em enfrentar essa negação. Como escreveu Clarice Lispector, “o que me importa é o mistério das coisas.” Negar pode ser um ponto de partida para reconhecer o mistério e, quem sabe, encontrar sentido onde menos esperamos.

A negação da existência não é apenas um conceito abstrato, mas uma postura que, em algum momento, todos assumimos diante da vida. Ela nos desafia a repensar o que é real, o que é importante e como navegamos pelas incertezas do ser. Negar pode ser um escape, mas também uma oportunidade. Afinal, como diria Sartre, é no vazio que encontramos a liberdade de preencher o mundo com significado.


domingo, 12 de outubro de 2025

Filosofia de Sofá

Pensar de Pés Descalços...

Há quem ache que filosofia só nasce em biblioteca silenciosa, entre páginas encadernadas, ou nas aulas de universidades antigas com nomes de pensadores em latim nas paredes. Mas a verdade é que muitas ideias que mudam a vida aparecem quando a gente está de meias, largado no sofá, olhando pro teto ou pro nada. A tal da “filosofia de sofá” — que alguns usam como crítica, como se fosse uma forma preguiçosa de pensar — talvez seja, na verdade, o pensamento em sua forma mais honesta. Um pensamento que não quer brilhar, nem ser publicado, nem vencer debate. Só quer entender um pouco mais a vida enquanto o café esfria na mesinha de centro.

O que é a Filosofia de Sofá?

A filosofia de sofá não é uma escola de pensamento, mas um estado de espírito. Ela aparece quando estamos cansados de responder e começamos a perguntar. Quando o corpo repousa, mas a mente se inquieta. Trata-se de uma reflexão que nasce no cotidiano, longe das exigências acadêmicas, e que encontra nas perguntas simples (mas profundas) o seu território: por que continuo fazendo isso?, o que mudou em mim nos últimos anos?, e se a vida for só isso mesmo?.

Ela está no coração do existencialismo cotidiano — não o dos livros, mas o da pessoa que, ao ver uma meia sem par, pensa no absurdo das coisas. É uma filosofia que não exige citação, apenas atenção. Que não precisa de lógica formal, mas se sustenta na sinceridade com que olhamos para dentro.

Entre a Reflexão e a Moleza

É curioso como a filosofia de sofá desafia a ideia de que pensar é um ato heroico. No sofá, a reflexão não vem acompanhada de glória. Ninguém bate palmas para a pessoa que ficou meia hora olhando o teto tentando entender por que tudo parece igual, mesmo quando a gente muda tudo. Mas ali está a essência do pensar: tempo, silêncio, desconforto interior.

A sociedade valoriza o fazer — produzir, agir, conquistar. Pensar parece perda de tempo. Mas o sofá nos devolve o tempo necessário para pensar sem agenda, sem deadline, sem resultado esperado. É nesse desvio da produtividade que mora a filosofia real: aquela que não serve para nada, mas que muda tudo.

Pensar como Resistência

Num mundo de respostas rápidas, pensar devagar é um ato de resistência. A filosofia de sofá ensina a olhar para as pequenas tragédias da vida — uma mensagem não respondida, um plano que falhou, uma memória que voltou sem ser convidada — e tentar aprender com elas. Não com um tom de autoajuda, mas com a humildade de quem não tem pressa de entender.

Essa filosofia também é subversiva. Ela nos impede de aceitar explicações prontas, obriga a perguntar de novo, como uma criança insistente. E é aí que ela se aproxima da filosofia em sua origem: a admiração e a dúvida. Não há arrogância no sofá. Só curiosidade.

O Pensador Caseiro

A filosofia de sofá nos lembra que não é preciso sair do lugar para ir longe no pensamento. E que há dignidade na dúvida silenciosa. Talvez seja esse o maior gesto filosófico possível hoje: sentar-se, olhar para dentro e perguntar "E agora?", sem esperar que o sofá responda, mas acreditando que o silêncio dele é um tipo de companhia.

Assim como Diógenes filosofava em seu barril e Descartes pensava em frente à lareira, talvez a gente também esteja autorizado a filosofar com o controle remoto do lado, um cobertor nos joelhos e o coração cheio de interrogações.

Afinal, como disse Fernando Pessoa: “Pensar é estar doente dos olhos.” E o sofá, para quem já cansou de ver sem enxergar, pode ser o lugar perfeito para começar a ver de outro jeito.