O Labirinto da Repetição
A
vida, às vezes, parece se dobrar sobre si mesma, como uma serpente que morde a
própria cauda. Essa imagem antiga, a ouroboros, simboliza a ideia de
circularidade: um ciclo incessante, que retorna ao ponto de partida. Mas o que
significa estar preso nesse ciclo? Seria a circularidade uma condenação ou uma
condição inevitável da existência?
A
Repetição no Cotidiano
Observe
o dia a dia. Acordar, trabalhar, comer, dormir. Depois, repetir. A rotina é, em
essência, circular. Mesmo aqueles que buscam romper com ela frequentemente
encontram novos ciclos, disfarçados de liberdade. Mudar de emprego pode parecer
um ato de fuga, mas logo as tarefas se tornam familiares. Viajar pelo mundo,
fugindo da monotonia, frequentemente se transforma em uma repetição de
aeroportos, hotéis e itinerários.
Essa
circularidade não é apenas prática, mas também mental. Nossas preocupações,
angústias e sonhos muitas vezes seguem padrões repetitivos. Pensamos nas mesmas
questões de formas ligeiramente diferentes, voltando sempre ao ponto de
partida, como se estivéssemos presos a um disco riscado.
Circularidade
na Filosofia
A
ideia de circularidade é central em diversas tradições filosóficas. Friedrich
Nietzsche, por exemplo, propôs o conceito de eterno retorno: e se tudo na vida,
cada momento, cada decisão, tivesse que ser repetido infinitamente? Esse
pensamento, segundo ele, não era uma condenação, mas um teste de aceitação da
vida. Se pudermos abraçar a ideia de viver cada detalhe repetidamente, talvez
estejamos prontos para viver plenamente.
Já
na visão de Arthur Schopenhauer, a repetição é um fardo. Para ele, a vida é um
ciclo interminável de desejo e frustração. Desejamos algo, alcançamos, mas logo
nos sentimos insatisfeitos e começamos a desejar outra coisa. Esse padrão,
segundo Schopenhauer, só poderia ser superado através da negação do desejo –
uma espécie de escape pela renúncia.
No
entanto, Martin Heidegger sugere que a repetição pode ser mais do que uma
armadilha. Para ele, a repetição é uma oportunidade de reapropriação. Ao
revisitar o passado de forma consciente, podemos dar novo sentido a ele,
transformando a circularidade em uma espiral ascendente – um movimento que,
embora volte ao mesmo lugar, o faz de maneira renovada.
A
Circularidade no Mundo Moderno
Na
era contemporânea, a circularidade assume formas mais sutis. A rotação
frenética das redes sociais nos mantém presos em ciclos de atenção, como
pequenos hamsters girando em suas rodas. Os algoritmos nos servem mais do
mesmo, criando bolhas que reforçam nossas ideias e nos isolam de perspectivas
diferentes.
Além
disso, a busca incessante por produtividade e progresso muitas vezes nos faz
sentir como se estivéssemos correndo em círculos. Avançamos, mas para onde? O
progresso linear é uma ilusão em um mundo onde as crises ambientais, políticas
e sociais frequentemente nos trazem de volta aos mesmos dilemas de sempre.
Existe
Escapatória?
Se
a circularidade é uma condição inevitável, como devemos lidar com ela? Talvez a
resposta esteja não em escapar, mas em redefinir a perspectiva. Aceitar que a
vida é cíclica não significa resignar-se à monotonia. Podemos encontrar
significado nos pequenos retornos, nas nuances das repetições. Cada ciclo traz
consigo a oportunidade de revisitar algo com olhos novos, de aprender algo que
antes nos escapava.
Nesse
sentido, podemos pensar na circularidade como uma dança. O movimento pode ser o
mesmo, mas cada giro é diferente, dependendo de como nos posicionamos. Como
sugeriu o filósofo brasileiro Vilém Flusser, “a repetição não é o mesmo, é o
similar; cada repetição é um desdobramento.”
A
circularidade sem escapatória pode parecer uma prisão, mas talvez seja, na
verdade, uma condição de liberdade. Liberdade para reexaminar, reinterpretar e
redescobrir o que já foi vivido. Como na imagem da ouroboros, a serpente que
devora a si mesma também cria algo novo em cada ciclo. Não há escapatória, mas
talvez não precisemos dela. Afinal, o segredo da vida não está em romper o
círculo, mas em habitá-lo com sabedoria e leveza.