Um ensaio sobre o vazio entre o gesto e a alma a partir do poema de T. S. Eliot
Talvez
você conheça alguém assim.
Uma
pessoa que parece inteira, mas algo não encaixa. Não é ausência de fala, nem de
gestos. É como se faltasse espessura. Gente que vive com precisão — trabalha,
sorri, opina — mas não se deixa atravessar pela vida. Como bonecos bem
montados, porém vazios por dentro. São os homens ocos. Não monstros, não maus.
Apenas esvaziados.
Ler
o poema The Hollow Men de T. S. Eliot — em português, Os
Homens Ocos — é como olhar nos olhos de uma estátua: está tudo ali, menos o
essencial. O poema é sombrio, mas não apocalíptico no sentido tradicional — ele
fala da apatia que precede o fim, da alma que evapora enquanto o corpo ainda
está em movimento. E é nesse abismo entre aparência e substância que podemos
enxergar um problema filosófico crucial da modernidade: a erosão do ser.
O poema — Os Homens
Ocos (tradução de Ivan Junqueira)
Epígrafe
Mistah Kurtz — he dead
A penny for the Old Guy
I
Somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
Cheios de palha. Ai de nós!
Nossas vozes secas, quando
Sussurramos juntos,
São calmas e sem sentido
Como vento na grama seca
Ou pés de ratos sobre vidro estilhaçado
Em nossa cave seca.
Figura sem forma, sombra
sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;
Aqueles que atravessaram
Com olhos retos, para o outro Reino da morte,
Lembram-nos — se é que o fazem — não como almas perdidas
Violentas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
II
Olhos que não me encaram na vida
Aparecem como o sol
Sobre uma coluna partida
No outro Reino da morte,
Evitam-me a vida do desejo
Em um campo que não se move.
Ali, a pedra erguida está
sob o sol,
E há árvores sussurrantes,
E há um rumor de águas.
E no vento uma canção...
Mais distante e mais solene
Que uma estrela.
Deixai-me mais perto da
minha indumentária,
Deixai-me também usar
Tão deliberadamente
Tais disfarces de pele de rato, de vento cruzado,
De um campo moribundo,
De figuras contornadas e reverentes,
No crepúsculo
Este Reino vago.
III
Não é este o Reino final
Andando sozinhos à hora em que estamos
Tremendo com ternura
Lábios que beijariam
Formam orações a pedras quebradas.
IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta mandíbula partida de nossos Reinos perdidos
Neste último dos locais
de encontro
Tateamos juntos
E evitamos a fala
Reunidos à margem do rio inchado
Sem ver — a não ser
Pelo resplendor dos olhos que reaparecem
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do Reino crepuscular da morte
A esperança apenas
Dos homens ocos.
V
Aqui vamos nós em volta da figueira
Figueira, figueira
Aqui vamos nós em volta da figueira
Às cinco da manhã.
Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o ato
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Cai a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a queda
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino
Pois Teu é
A vida é
Pois Teu é o
É este o modo como o
mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro.
Entre
a forma e a sombra: o intervalo que nos esvazia
Cada
estrofe do poema faz vibrar uma sensação de descompasso. Eliot aponta para uma
espécie de falha espiritual da modernidade: estamos cercados por estruturas —
de linguagem, de trabalho, de ritos — mas desprovidos de densidade interior.
“Entre
o desejo e o espasmo, entre a essência e a queda, cai a sombra.”
Aqui,
a sombra é o vazio que se instala entre o que se é e o que se faz. O homem oco
é aquele que vive no intervalo entre a potência e o ato. Ele poderia ser,
mas não se atualiza. Ele fala, mas não comunica. Ele ama,
mas não se entrega. É o sujeito funcional que abandonou a alma em algum ponto
do percurso.
O
cotidiano como campo de palha
Esse
poema parece um delírio poético? Basta observar a vida comum:
– Reuniões cheias de palavras, mas sem escuta.
–
Relacionamentos cheios de regras, mas sem presença.
–
Redes sociais cheias de imagens, mas sem verdade.
A
palha de Eliot é nossa repetição. Nossas frases automáticas. Nossa performance
social. E há um risco: que a vida se torne uma sucessão de gestos sem alma, até
o ponto em que o sujeito ainda respira, mas não vibra mais.
O
filósofo Byung-Chul Han fala do “esvaziamento da interioridade” como
marca do nosso tempo. O homem oco é esse homem adaptado à transparência, à
hiperconexão e ao cansaço. Ele já não resiste, apenas repete.
A
sombra que substitui o grito
Eliot
anuncia que o mundo não acaba com uma explosão, mas com um suspiro.
“É
este o modo como o mundo acaba / Não com um estrondo, mas com um suspiro.”
O
fim que nos ameaça não é o da guerra, mas o do sentido. Um fim morno, sem
convulsões. O apocalipse não como catástrofe, mas como esvaziamento. É como se
a vida, aos poucos, fosse se tornando cenário, sem enredo. E nós, espectadores
de nós mesmos.
Nietzsche
gritava. Eliot sussurra. E nesse sussurro há algo mais trágico: a desistência.
O niilismo aqui não é rebelde — é resignado.
Como
escapar do oco?
Será
possível escapar do destino dos ocos?
O
filósofo Kierkegaard dizia que o salto da fé é o único movimento
verdadeiro do espírito. É preciso atravessar o medo, escolher mesmo sem
garantias, viver com responsabilidade existencial.
Já
Simone Weil propunha uma saída silenciosa: atenção. Estar
presente de verdade. Recolher-se da pressa, do ruído, da distração — e ouvir.
Olhar. Habitar o gesto com consciência.
Talvez,
então, o oposto do homem oco não seja o homem cheio — mas o homem desperto.
Aquele que, mesmo ferido, mesmo cansado, ainda ousa sentir.
O
suspiro que resiste à morte interior
Ler
Os Homens Ocos é encarar um espelho escuro. Reconhecemos traços nossos
ali. Não para nos culpar, mas para nos despertar.
A
tragédia de Eliot é um convite: perceber o oco já é resistir a ele. O gesto
reencontra a alma quando não é mais só performance, mas presença.
Se
ainda pudermos colocar verdade no olhar, intenção na palavra, amor no gesto —
mesmo que breve — talvez o poema ganhe outro fim. Talvez o mundo ainda possa
recomeçar. Não com um estrondo, mas com um novo sussurro. Um sussurro
que não seja vazio. Um sussurro cheio de ser.

