Pesquisar este blog

domingo, 31 de agosto de 2025

Harmonia das Esferas

Às vezes, quando olhamos o céu numa noite clara, sentimos que há algo de silencioso e grandioso ali em cima. Não são só pontos brilhando: é como se houvesse uma ordem escondida no escuro. Os pitagóricos tinham um nome para isso — chamavam de harmonia das esferas. Acreditavam que os planetas, ao se moverem em suas órbitas, produziam uma música cósmica, uma melodia inaudível para nós, mas perceptível à alma.

Essa ideia nasceu do fascínio de Pitágoras com a música. Ele descobriu que cordas de diferentes comprimentos produziam sons harmônicos quando obedeciam a proporções simples: 2:1, 3:2, 4:3. A partir disso, ousou imaginar que o próprio universo era construído sobre proporções semelhantes. Se a música é matemática, por que não pensar que os astros também dançam conforme uma partitura invisível?

No cotidiano, essa visão ressoa de maneiras discretas. Quando admiramos a regularidade das fases da lua, quando nos encantamos com a precisão de um eclipse ou simplesmente nos surpreendemos com o pôr do sol que se repete todos os dias, estamos sentindo, ainda que sem nomear, essa harmonia. Há algo de musical em cada ciclo natural: no bater do coração, na cadência da respiração, no compasso do relógio biológico que nos faz despertar ou adormecer.

Mesmo sem acreditar literalmente que os planetas “cantam”, seguimos vivendo como se buscássemos essa música secreta. O ser humano tem fome de ritmo. Queremos que a vida “encaixe”, que os dias tenham melodia, que o trabalho e o descanso componham uma partitura equilibrada. Quando tudo parece fora do lugar, dizemos que “a vida está desafinada”.

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos reforça essa intuição pitagórica. Ele sugeria que a harmonia do universo não é apenas externa, mas também interna: nosso espírito sente prazer na ordem e se angustia diante do caos. Para ele, a vida ética e intelectual é aquela que se aproxima da música das esferas, ou seja, da harmonia que sustenta o cosmos. Seguindo essa linha, perceber padrões, buscar equilíbrio nas relações, organizar o tempo e cuidar da própria alma são maneiras de sintonizar nossa existência com essa melodia universal.

A harmonia das esferas, portanto, vai além da antiga cosmologia. É uma metáfora para a busca de equilíbrio pessoal e coletivo. Pitágoras nos lembra que o cosmos não é um amontoado caótico de corpos, mas um concerto. E Mário Ferreira dos Santos nos ensina que, ao reconhecer essa música invisível, aprendemos a viver com ritmo, beleza e sentido, tornando cada dia uma nota consciente dentro da partitura maior do universo.


Divagações no Silêncio

O silêncio como forma de resistência

Na fila do banco, no elevador, ou no grupo de WhatsApp da família — o silêncio sempre parece suspeito. Vivemos na era da presença obrigatória, do comentário rápido, da opinião instantânea. Quem não se manifesta logo é tido como omisso, quem hesita, como indeciso. Mas será que falar sempre é a melhor forma de existir?

Às vezes, silenciar é recusar o jogo. Não é ausência, é recusa ativa. É como se o silêncio dissesse: "não vou dançar essa música que você está tocando, porque já escutei demais o barulho do mundo." Nesse sentido, o silêncio não é covardia, mas uma forma de resistência — e até de afeto.

O filósofo francês Roland Barthes, em seu Fragmentos de um discurso amoroso, fala do silêncio como a fala do enamorado que não sabe mais como dizer o que sente. O silêncio, ali, é excesso, não falta. É quando a linguagem falha por intensidade e não por fraqueza. Isso nos mostra que o silêncio, em certos contextos, é mais expressivo que qualquer discurso.

Mas vivemos tempos de inflação verbal. Tudo precisa ser nomeado, explicado, documentado, viralizado. E nessa necessidade constante de falar, acabamos dizendo cada vez menos. Palavras sem silêncio ao redor viram barulho. Não pensam, não respiram.

Talvez o maior gesto de liberdade hoje seja calar. Não para se ausentar do mundo, mas para voltar a ele de outro modo. Escutar mais. Fazer menos barulho. Permitir que as coisas digam o que têm a dizer — sem a nossa interferência imediata.

No fundo, o silêncio não é só ausência de som. É um espaço fértil onde pensamentos crescem. É ali que a alma começa a falar. E talvez, só talvez, seja ali que a gente começa realmente a escutar.


sábado, 30 de agosto de 2025

Razão Não Basta

O Humano Entre Lógica e Afeto

A vida nos ensina cedo que não dá para calcular tudo. Podemos planejar uma viagem milimetricamente, mas a lembrança mais marcante pode ser o pôr do sol inesperado, ou a conversa com um desconhecido no ônibus. Podemos escolher uma carreira pelo salário, mas sentir que algo essencial falta. É nesse intervalo entre o previsível e o vivido que percebemos: a razão, sozinha, não basta.

No cotidiano brasileiro, isso se expressa de muitas formas. O estudante que segue a rota segura de um concurso público, mas descobre que sua alegria está na música; o casal que, “racionalmente” compatível, perde-se porque não há mais ternura; a mãe que, contra todos os conselhos técnicos, insiste em confiar na intuição sobre o cuidado do filho — e está certa. O excesso de lógica, nesses casos, sufoca o que é propriamente humano: a sensibilidade.

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em sua obra A Busca do Bem-Estar (1954), lembrava que a sabedoria não nasce apenas do pensamento discursivo, mas da integração entre mente e coração. Para ele, o intelecto é importante, mas só ganha profundidade quando iluminado por uma visão interior que inclui compaixão e empatia. A verdadeira clareza não está no raciocínio frio, mas na percepção que reconhece o outro como parte de si.

Esse ponto é essencial: a razão nos ajuda a organizar o mundo, mas é o afeto que nos conecta a ele. Sem compaixão, a ciência pode se tornar ferramenta de destruição; sem imaginação, a técnica vira rotina vazia; sem amor, a lógica se reduz a cálculo de interesses.

“Razão não basta” não é um convite ao irracionalismo, mas à completude: reconhecer que somos feitos de intuição, desejo, memória, fé e corpo. Pascal dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”; Sri Ram acrescentaria que é justamente nessa união de coração e mente que o ser humano encontra sua verdadeira liberdade.

Assim, talvez a sabedoria não seja escolher entre pensar ou sentir, mas saber quando deixar que um complete o outro. Porque viver, afinal, é mais do que raciocinar: é também deixar-se atravessar pelo imprevisto, pelo gesto que foge à lógica e, ainda assim, faz todo sentido.


Reações Precipitadas


O Peso do Instante

Quem nunca se arrependeu de uma resposta rápida demais, de uma mensagem enviada sem pensar, de uma palavra lançada como pedra? A vida cotidiana está cheia desses momentos em que reagimos antes de refletir, como se o impulso fosse mais forte que a razão. São as reações precipitadas, aquelas que surgem da urgência do instante e depois deixam rastros que custam a desaparecer.

Na convivência, vemos isso nos detalhes: o motorista que buzina furioso antes de perceber que o carro da frente parou por um pedestre; o amigo que responde atravessado sem escutar a frase inteira; o casal que transforma um mal-entendido em briga porque ninguém quis esperar a explicação. A precipitação nasce da pressa, mas também de algo mais profundo: da dificuldade em lidar com o tempo da pausa.

O filósofo Espinosa já dizia que somos muitas vezes escravos das paixões, reagindo antes de compreender. Para ele, a liberdade verdadeira só se alcança quando conseguimos transformar o impulso em ação consciente, isto é, quando não somos apenas levados pela corrente das emoções, mas sabemos direcioná-las. A reação precipitada é o contrário disso: é o instante em que entregamos o comando ao afeto bruto, sem passar pelo crivo da razão.

No Brasil contemporâneo, vivemos um terreno fértil para esse tipo de reação. A velocidade das redes sociais estimula respostas instantâneas — um comentário atravessado, uma polêmica inflamada, um julgamento em 280 caracteres. Ninguém espera, poucos respiram; e assim, uma opinião mal colocada pode virar conflito coletivo. O ambiente digital, com sua lógica de imediatismo, tornou-se uma fábrica de precipitações.

Mas há uma sabedoria simples que resiste a esse ritmo: a pausa. O silêncio antes da resposta, o tempo de escutar até o fim, o “vou pensar e depois te digo”. Esses pequenos gestos criam espaço para que a razão dialogue com a emoção, e não seja atropelada por ela.

Reagir é humano, mas reagir precipitadamente é esquecer que o tempo também é parte da ação. Talvez seja esse o convite da filosofia: aprender a cultivar o intervalo, aquele segundo que separa o impulso da escolha. Nesse segundo, pode caber toda a diferença entre o conflito e a compreensão, entre o erro e a sabedoria.


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Convicções Estanques

A Prisão do Certeiro

Há pessoas que caminham pela vida com certezas de ferro. Suas opiniões não mudam, suas ideias parecem eternas, e qualquer questionamento soa como ofensa pessoal. São as chamadas convicções estanques, aquelas que não se deixam atravessar pelo tempo, nem pela experiência, nem pelo diálogo. À primeira vista, parecem força e segurança; mas, vistas mais de perto, revelam uma rigidez que se confunde com fragilidade.

No cotidiano, encontramos esse fenômeno a todo instante. O colega de trabalho que repete, há anos, as mesmas fórmulas “infalíveis”, mesmo quando o contexto mudou. O vizinho que insiste que “sempre foi assim” para justificar tradições que já não fazem sentido. Ou ainda a pessoa que, em um debate, não ouve o argumento do outro, porque não procura aprender — apenas confirmar o que já pensa. A convicção estanque é como uma parede: sólida, mas incapaz de deixar passar o ar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui lembra que a filosofia nasce do espanto e da dúvida. Nesse sentido, convicções que não se movem são o oposto do exercício filosófico: elas fecham o horizonte em vez de abri-lo. Para ela, a democracia, por exemplo, só se fortalece quando aceitamos que nenhuma verdade é absoluta, e que todo saber precisa ser revisado à luz do diálogo e da experiência coletiva.

As convicções estanques, porém, oferecem um conforto tentador. No meio da incerteza do mundo, agarrar-se a uma crença rígida dá sensação de firmeza. É por isso que tantas pessoas preferem o dogma à reflexão, a resposta pronta à pergunta incômoda. Mas esse conforto cobra um preço: impede a transformação. Quem se tranca nas próprias certezas não vê o movimento da vida e corre o risco de se tornar estrangeiro dentro do próprio tempo.

No Brasil, vemos isso na polarização política e social. Convicções rígidas se tornam bandeiras que dividem famílias, amizades, comunidades. O diálogo é trocado por slogans; o pensamento crítico, por certezas impermeáveis. O resultado é um empobrecimento coletivo: não crescemos no encontro, mas nos enclausuramos no espelho de nós mesmos.

Talvez seja hora de recuperar a humildade filosófica: reconhecer que nossas convicções podem ser revisadas, que a mudança não é fraqueza, mas sinal de vitalidade. Afinal, a vida não é estanque; é fluxo. E convicções que não respiram acabam sufocando quem as sustenta.


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Eratóstenes

O “segundo melhor” que virou eterno

Às vezes, a gente se cobra demais por não ser o melhor em tudo. Queremos ser destaque no trabalho, no estudo, nas relações, e esquecemos que viver não é olimpíada. Eratóstenes, o sábio da Antiguidade, já sabia disso. Chamavam-no de “Beta” — nunca o número um em nada, apenas o segundo. Mas, curiosamente, foi esse “segundo lugar” que o transformou em eterno.

Eratóstenes de Cirene (276 a.C. – 194 a.C.) foi um dos grandes sábios da Grécia Antiga, matemático, geógrafo, astrônomo, poeta e até mesmo bibliotecário-chefe da famosa Biblioteca de Alexandria. Ele tinha uma característica curiosa: não era visto como o “melhor” em nenhuma área, mas era excelente em muitas, a ponto de receber o apelido de “pentatleta da sabedoria”.

No cotidiano, isso aparece quando uma pessoa não é a melhor cozinheira da família, mas é aquela que inventa receitas novas; não é o craque do time, mas é quem organiza a pelada; não é o chefe da empresa, mas é quem guarda as ideias que depois viram solução. Eratóstenes era assim: nunca o campeão em uma disciplina, mas a cola que ligava matemática, astronomia, geografia e poesia.

O gesto que mais o imortalizou foi olhar para uma sombra e ver o mundo inteiro. Enquanto muitos viam só o sol batendo no chão, ele percebeu um cálculo escondido ali: mediu a circunferência da Terra com um erro mínimo, e tudo isso sem satélites, sem computadores, apenas com atenção e raciocínio. É como quando alguém, no meio de uma conversa banal, saca uma verdade sobre a vida que ninguém tinha notado.

Alguns feitos marcantes dele:

  • Medição da circunferência da Terra:

Usando apenas um gnômon (espécie de estaca para medir sombra), observações do sol em Siena (atual Assuã, Egito) e em Alexandria, e cálculos geométricos simples, ele conseguiu estimar o perímetro da Terra com um erro de apenas 1 a 2% em relação ao valor real. Um feito impressionante para mais de dois mil anos atrás.

  • Criação do “Crivo de Eratóstenes”:
  • Um método engenhoso para encontrar números primos, que ainda hoje é ensinado em matemática básica. A ideia é riscar sucessivamente os múltiplos de cada número natural, sobrando apenas os primos.
  • Geografia:

Foi ele quem cunhou o termo “geografia” e organizou o conhecimento cartográfico da época, desenhando mapas mais sistematizados do mundo conhecido.

  • Biblioteca de Alexandria:

Como bibliotecário-chefe, coordenou um trabalho monumental de coleta e organização do saber escrito disponível.

A filósofa brasileira Marilena Chauí diz que “a filosofia nasce do espanto diante do mundo”. Eratóstenes encarnou isso: espantou-se com um detalhe simples — a diferença de sombra entre duas cidades — e, dali, extraiu uma visão global.

Talvez o que sua vida nos sugira é que não precisamos ser os melhores em nada para sermos fundamentais. O mundo precisa de quem costura saberes, quem liga pontos distantes, quem não se contenta com o óbvio. Se Eratóstenes tivesse buscado ser apenas o número um em matemática ou em poesia, talvez tivesse sido esquecido como tantos outros. Mas por ser “Beta”, por ser múltiplo, por ser curioso, ele se tornou infinito.


Crítica da Razão Pura

Pensando o Mundo com Novos Óculos

Sabe aquele momento em que a gente tenta entender por que o tempo parece passar mais rápido quando estamos fazendo algo que gostamos? Ou por que duas pessoas podem ver a mesma situação de forma completamente diferente, mesmo diante dos mesmos fatos? No dia a dia, essas experiências nos mostram que a realidade não é apenas o que está "lá fora", mas também aquilo que filtramos por dentro – através da mente, da linguagem, dos sentidos. É nessa encruzilhada entre o que percebemos e o que é percebido que Immanuel Kant mergulha com profundidade em sua obra "Crítica da Razão Pura".

Não é uma leitura leve como conversa de bar, mas é uma reflexão que começa ali mesmo: quando dois amigos discutem se foi pênalti ou não, cada um com “certeza absoluta”. Kant propõe que a forma como conhecemos o mundo passa por estruturas internas da mente humana. Em outras palavras: não vemos o mundo como ele é, mas como podemos vê-lo. Vamos desdobrar essa ideia com calma.

 

O que Kant quis criticar, afinal?

A palavra “crítica” no título não tem o sentido de reprovação, mas de investigação. Kant queria descobrir os limites e as possibilidades do conhecimento humano. Ele via um impasse entre dois grandes movimentos filosóficos da época:

  • O empirismo, que dizia que todo conhecimento vem da experiência sensorial (representado por Hume, por exemplo).
  • O racionalismo, que acreditava ser possível conhecer verdades universais apenas com a razão (como em Descartes e Leibniz).

Kant, observando esse embate, faz uma revolução: propõe que o conhecimento não vem só da experiência nem só da razão, mas da interação entre os dois. Para ele, a mente humana já possui estruturas a priori (isto é, anteriores à experiência) que organizam o que sentimos. É como se o mundo entrasse em nossa mente como uma massa crua de dados, e a mente tivesse formas e moldes que dão formato a essa massa.

 

Exemplos do cotidiano: onde Kant faz sentido

GPS e o caminho “mais curto”

Quando você coloca o destino no aplicativo de mapas, ele calcula o trajeto mais eficiente. Mas o “melhor caminho” pode variar: para o GPS, é o mais curto; para você, talvez seja o que passa por uma padaria ou evita buracos. A rota está lá fora, mas a forma de interpretá-la depende do seu sistema interno de referências. Isso é Kant puro: o mundo em si (“coisa em si”) existe, mas o que percebemos é o mundo como aparece para nós – o “fenômeno”.

A percepção do tempo

Durante uma aula chata, o tempo se arrasta. Em uma festa boa, ele voa. Mas o relógio marca o mesmo tempo para todos. Segundo Kant, isso acontece porque tempo e espaço não existem “lá fora” como coisas objetivas, e sim como formas da nossa sensibilidade – estruturas mentais que organizam nossas percepções.

Discussões em grupo

Em uma reunião, cada pessoa entende uma proposta de um jeito diferente. E ninguém está necessariamente errado. Para Kant, é porque a razão humana não capta as coisas diretamente como são, mas sempre mediadas por categorias do entendimento. Por isso, mesmo diante de um mesmo dado, as conclusões podem variar.

 

A importância filosófica dessa virada

Kant nos diz que a razão tem limites: ela pode conhecer o que está no campo da experiência possível, mas não o que está além disso. Ou seja, não podemos provar ou refutar racionalmente a existência de Deus, da alma ou do infinito. Esses são temas da razão “pura”, que tenta ultrapassar os limites da experiência, mas acaba se confundindo.

Essa crítica também é uma defesa contra o dogmatismo: se sabemos que a razão tem fronteiras, podemos evitar cair em certezas absolutas. É um convite à humildade intelectual.

 

Pensando com Kant no cotidiano

No fundo, Kant nos propõe um espelho: em vez de imaginar que o mundo se apresenta de forma neutra, devemos admitir que somos participantes ativos na construção do que chamamos de “realidade”. E se somos parte da construção, talvez devêssemos ser mais cuidadosos ao julgar a visão dos outros.

Como quando discutimos política, religião ou futebol e nos esquecemos de que ninguém enxerga “a verdade nua e crua”, mas sempre a verdade através de suas lentes. Kant, nesse sentido, ainda hoje é uma vacina contra o fanatismo e a ingenuidade. E mesmo que ele não esteja na prateleira da padaria ou no feed do Instagram, suas ideias continuam nos oferecendo óculos mais transparentes para entender o mundo — e, principalmente, a nós mesmos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Ouvidos Moucos

O Silêncio que Escolhe e o Ruído que Expulsa

Há quem diga que não existe pior surdez do que a de quem não quer ouvir. Mas essa surdez voluntária — os chamados ouvidos moucos — não é apenas uma defesa contra sons indesejados; é uma estratégia seletiva de preservação, poder e até indiferença.

A filósofa brasileira Marilena Chaui, ao discutir a escuta no espaço democrático, lembra que ouvir é um ato político. Não basta que as palavras cheguem ao tímpano; é preciso que sejam acolhidas como dignas de atenção. Ouvidos moucos, portanto, não são um defeito físico, mas uma decisão: o fechamento da escuta por conveniência, preconceito ou exaustão.

No cotidiano, encontramos essa atitude em reuniões onde alguém finge anotar enquanto a fala do outro passa como vento; em conversas de família nas quais um conselho de um idoso é recebido com o olhar no celular; ou na criança que ignora o chamado dos pais porque está mergulhada num desenho animado. O som chega, mas não se instala.

O curioso é que a surdez seletiva não é exclusividade de quem detém poder. Ela também é mecanismo de autoproteção. Uma pessoa exausta pode praticar ouvidos moucos para não absorver queixas ou demandas que, naquele momento, seriam insuportáveis. É o corpo dizendo: não posso lidar com isso agora.

Mas o perigo surge quando essa recusa se torna regra e não exceção. A surdez voluntária mina vínculos, fragiliza acordos e cria a ilusão de que problemas desaparecem quando não são escutados. Como lembra Chaui, “o diálogo é a base do reconhecimento do outro” — e negar a escuta é, de certa forma, negar a existência do interlocutor.

Fazer ouvir não é gritar mais alto, mas criar as condições para que o outro queira e possa ouvir. E escutar não é apenas captar sons, mas abrir espaço interno para que o que chega não seja repelido de imediato. Talvez, no fundo, ouvidos moucos não sejam sobre o silêncio que escolhem, mas sobre o mundo que deixam de conhecer.


Lastimar e Rejubilar

Costumamos imaginar que tristeza e alegria são estados que se alternam, como luz e sombra que nunca se tocam. Mas, na prática, não é bem assim. Às vezes, o choro e o riso se confundem — basta lembrar de uma despedida: a dor da separação e a gratidão pelo encontro vivido se misturam na mesma lágrima. Lastimar e rejubilar são dois gestos da alma que, em vez de se anularem, se completam.

O filósofo Nietzsche, em A Gaia Ciência, já lembrava que a vida só ganha profundidade quando aceitamos seu caráter trágico. Para ele, não há alegria verdadeira que não carregue um certo peso, assim como não há dor que não esconda a semente de uma possível renovação. O “eterno retorno” nietzschiano não é só a repetição dos prazeres, mas também das dores — e ainda assim, ele nos desafia a dizer “sim” à vida em sua totalidade.

Na sociologia das emoções, Émile Durkheim observava como rituais coletivos — festas, funerais, comemorações — sempre trazem essa mistura. Num funeral, por exemplo, lastima-se a perda, mas também se rejubila a vida daquele que partiu. A sociedade cria formas de elaborar essa tensão, porque sabe que o humano não vive apenas de luto nem apenas de festa, mas da combinação entre ambos.

No cotidiano, essa ambiguidade aparece de maneira quase banal. Uma mãe que vê o filho partir para estudar em outra cidade lastima a ausência, mas rejubila pela conquista. Um trabalhador que se aposenta sente a perda da rotina que o estruturava, mas rejubila pelo descanso merecido. São momentos em que a vida nos pede para segurar duas emoções aparentemente contrárias na mesma mão.

No Brasil, Rubem Alves já escrevia com sua doçura filosófica que “a saudade é a nossa maneira de rejubilar o que se perdeu”. Isso mostra como até a dor pode ser uma celebração disfarçada, porque só se sofre pelo que foi valioso.

Talvez a grande sabedoria esteja em perceber que lastimar e rejubilar não são estágios separados, mas dois movimentos do mesmo coração. Lastimamos porque amamos, rejubilamos porque sobrevivemos às perdas. E, no fim, viver é justamente essa arte paradoxal: aprender a sorrir com os olhos marejados.


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Nova Identidade

Entre o que Fica e o que se Transforma

A cada virada de página da vida — um novo emprego, uma mudança de cidade, o término de uma relação, a chegada de um filho — somos atravessados por um sentimento ambíguo: deixamos de ser quem éramos, mas ainda não sabemos muito bem quem estamos nos tornando. É nesse intervalo de incerteza que nasce a ideia de uma nova identidade.

O cotidiano nos oferece exemplos claros. O jovem que sempre se via como estudante e, de repente, precisa se apresentar como “profissional”. A mulher que, ao ser chamada de “mãe” pela primeira vez, percebe que esse título reorganiza todo o seu modo de estar no mundo. Ou o aposentado que, após anos de rotina laboral, se vê perdido entre a liberdade e o vazio de não ter mais a função que lhe dava nome. Em todos esses casos, não se trata de trocar de pele como quem troca de roupa, mas de se reconstruir a partir do que já se foi.

O pensador brasileiro N. Sri Ram, em A Natureza da Nossa Busca (1966), lembrava que a identidade não é um bloco fixo, mas um processo vivo de autodescoberta. Para ele, cada etapa da existência exige que reconheçamos tanto aquilo que permanece — a centelha íntima do ser — quanto aquilo que se modifica, fruto das experiências. Assim, a “nova identidade” não é ruptura total, mas continuidade transformada: como um rio que muda de curso, mas não perde sua essência de água corrente.

Há, porém, uma armadilha nesse processo. Muitas vezes confundimos identidade com rótulo: ser “advogado”, “artista”, “mãe”, “militante”. Esses papéis nos ajudam a organizar a vida social, mas tornam-se estreitos quando acreditamos que esgotam quem somos. A nova identidade corre o risco de ser apenas uma troca de máscara, sem mergulho no que realmente nos habita.

A filosofia, aqui, pode ser convite à coragem: assumir que mudar de identidade não significa perder-se, mas reconhecer que somos múltiplos e mutáveis. O eu de ontem não é idêntico ao de hoje, e ainda assim há um fio de continuidade que nos sustenta. O que nos constitui, talvez, não seja a fixidez, mas a capacidade de nos refazermos.

Assim, quando a vida nos coloca diante de uma nova identidade, a pergunta não deveria ser “quem eu sou agora?”, mas “como posso ser inteiro dentro dessa transformação?”. Porque, no fim, identidade não é um título que recebemos, mas um caminho que percorremos — e que nunca termina. 

Comportamentos Obsessivos

Entre a Ordem e o Abismo

Há quem tenha mania de conferir a porta várias vezes antes de sair de casa, outros não conseguem descansar até alinhar as canetas na mesa ou revisar a mesma mensagem repetidas vezes antes de enviá-la. À primeira vista, são pequenos hábitos, até engraçados; mas, no fundo, escondem algo maior: a necessidade quase desesperada de controle sobre um mundo que insiste em ser desordenado. O comportamento obsessivo surge como um ponto de atrito entre o desejo humano de organizar a vida e a impossibilidade de dominá-la por completo.

O curioso é que, em alguma medida, todos carregamos esse impulso. Ele aparece quando sentimos que o caos pode nos engolir: o estudante que só consegue estudar se o caderno estiver impecável, o trabalhador que revisa planilhas em excesso, o apaixonado que precisa confirmar a todo instante se é amado. Em cada um desses gestos se revela o paradoxo de nossa condição: buscamos segurança no detalhe, mas acabamos prisioneiros dele.

O filósofo Søren Kierkegaard, ao refletir sobre a angústia, escreveu que ela não é um defeito, mas uma espécie de “vertigem da liberdade”. Nessa chave, os comportamentos obsessivos podem ser entendidos como tentativas de domesticar essa vertigem. Ao criar rituais repetitivos, o sujeito acredita reduzir a angústia que nasce da abertura infinita do existir. No entanto, o que deveria trazer liberdade acaba enrijecendo: a pessoa se sente cada vez mais amarrada ao gesto, como se sua própria identidade estivesse dependente da repetição.

O aspecto inovador é perceber que a obsessão não é apenas patologia ou exagero individual, mas também um reflexo cultural. Vivemos em uma sociedade que valoriza o desempenho, a perfeição e a vigilância. As redes sociais amplificam esse quadro: quantas curtidas? quantos seguidores? quantos segundos até a próxima notificação? Somos estimulados a verificar, repetir e confirmar o tempo todo. A obsessão, antes íntima, tornou-se estilo coletivo de vida.

Nesse sentido, talvez devêssemos pensar a obsessão não só como doença, mas como metáfora: ela revela o medo humano de deixar o mundo ser mundo. A saída não estaria em eliminar totalmente o gesto obsessivo, mas em reconciliar-se com a imperfeição, aceitando que o caos não é inimigo, mas parte do tecido da vida. Como diria Kierkegaard, “a angústia é o educador supremo”: ela nos ensina que o excesso de controle não é caminho para a liberdade, e sim para a prisão.

Assim, ao observarmos nossos próprios pequenos rituais obsessivos, podemos usá-los não como correntes, mas como espelhos: eles nos mostram o quanto ainda resistimos a lidar com a incerteza. E talvez seja justamente aí que a filosofia começa — no momento em que reconhecemos que o mundo não se curva aos nossos alinhamentos perfeitos.


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Das Mundanidades

Um elogio ao comum

Há dias em que tudo parece ser apenas mais um dia. O café tem o mesmo gosto, os passos seguem as mesmas calçadas, os rostos se repetem no espelho e nas ruas. O tédio sussurra que nada acontece, como se a vida estivesse suspensa entre um grande evento que já passou e outro que ainda não chegou. No entanto, é justamente aí — nesse “nada” — que as mundanidades florescem. E talvez seja nelas que a vida realmente acontece, mesmo que silenciosamente.

As mundanidades são os gestos automáticos, os diálogos triviais, os compromissos repetidos, as tarefas banais. São o pano de fundo da existência. Mas em vez de vê-las como restos da vida, por que não entendê-las como sua estrutura essencial? O filósofo francês Georges Perec escreveu sobre a importância de observar “o infraordinário” — o que normalmente não prestamos atenção porque está sempre ali. Para ele, a repetição não é sinônimo de insignificância, mas de uma textura do viver que merece ser decifrada.

Sociologicamente, as mundanidades são os tijolos do cotidiano. Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, aponta que os indivíduos, mesmo dentro de sistemas massivos e opressores, “inventam” seus modos de viver por meio de pequenas práticas cotidianas. Escolher um caminho alternativo para o trabalho, colocar açúcar no café com um gesto específico, ou conversar com o vizinho no portão: tudo isso pode ser uma forma de resistência, de afirmação de subjetividade. As mundanidades, longe de serem neutras, revelam o modo como cada um negocia seu lugar no mundo.

Além disso, há uma dimensão ética nessa atenção ao banal. Simone Weil propôs que o verdadeiro amor ao outro começa pela atenção plena — e essa atenção só pode se exercitar nas pequenas coisas. Notar o cansaço no rosto de quem serve o almoço, escutar de fato o que alguém diz no ônibus, agradecer sem pressa. Tudo isso é político, é espiritual, é profundamente humano.

Em tempos de espetacularização da vida, em que só se valoriza o que é grandioso, disruptivo ou viral, prestar atenção às mundanidades é quase um ato subversivo. Viver o comum com presença é dizer que a existência não precisa justificar-se por grandes feitos. Ela basta. O prato lavado com esmero, a música que toca sempre às 18h, o cheiro do pão na padaria da esquina — tudo isso compõe uma ética da presença.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti dizia que “a banalidade é o que nos ancora ao mundo”. Ela nos dá o chão de onde partimos e para onde sempre voltamos. E talvez, no fim das contas, o extraordinário não seja o oposto do mundano, mas aquilo que emerge quando o mundano é finalmente visto.

Das mundanidades, portanto, não como desprezo pelo brilho da vida, mas como uma forma de perceber que o brilho está justamente na poeira das coisas simples. O comum não é o que sobra da vida — é o que a sustenta. E talvez, ao compreendê-lo com profundidade, possamos finalmente viver com mais presença, mais delicadeza e mais verdade.


Signos de Distinção

Entre a Aparência e o Reconhecimento

É curioso observar como, mesmo nas situações mais banais, buscamos destacar algo que nos diferencie. A escolha de uma roupa, o modo como assinamos um e-mail, a marca de celular que exibimos sobre a mesa do café: tudo isso pode parecer trivial, mas carrega uma intenção silenciosa de afirmar quem somos — ou, pelo menos, quem gostaríamos de ser. Esses sinais sutis, às vezes imperceptíveis para quem os ostenta, funcionam como códigos sociais que comunicam pertencimento e hierarquia. São os chamados signos de distinção.

No cotidiano, eles aparecem em diversas camadas: o adolescente que usa determinado tênis para não se sentir excluído, o trabalhador que ostenta uma gravata de marca, ou mesmo quem prefere dizer que não se importa com moda — gesto que, paradoxalmente, também é uma forma de se distinguir. A distinção, nesse sentido, não está apenas no luxo ou no excesso, mas também na negação dele.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua obra A Distinção, mostrou como o gosto não é apenas expressão individual, mas produto de um contexto social que define o que é “fino”, “culto” ou “legítimo”. O gosto é, assim, uma forma de poder: escolher determinado prato, ouvir certo estilo musical ou decorar a casa de um jeito específico são escolhas que comunicam mais do que preferências pessoais — elas marcam posição em um campo social, desenhando fronteiras invisíveis entre classes, grupos e estilos de vida.

Mas há uma dimensão ainda mais filosófica: os signos de distinção revelam a fragilidade de nossa identidade. Como não conseguimos sustentar apenas com o “ser” a nossa presença no mundo, recorremos ao “parecer”. O sujeito veste, consome e fala como se dissesse ao outro: “olhe para mim, reconheça-me, dê-me um lugar”. Assim, a distinção é também um pedido de reconhecimento.

Na vida contemporânea, essa lógica se intensificou com as redes sociais, onde cada detalhe pode ser transformado em signo: a foto de um prato, a legenda elaborada, a viagem registrada. Se antes o símbolo estava na roupa de gala ou no automóvel importado, hoje ele se multiplicou em microgestos que disputam atenção no fluxo digital. O “like” é a moeda que confirma a eficácia do signo.

Talvez a questão mais profunda seja: até que ponto esses signos de distinção nos aproximam dos outros ou nos afastam? Eles podem ser pontes, quando se transformam em partilha de experiências e afinidades; mas podem ser muros, quando se tornam barreiras de exclusão e desprezo.

Como observou Bourdieu, a luta pela distinção é interminável, porque, assim que um grupo se apropria de um signo, outro precisa inventar um novo para se diferenciar. É um jogo sem fim — e talvez o exercício filosófico esteja em perceber esse movimento e, de vez em quando, suspender o jogo, buscando formas de ser que não dependam tanto daquilo que carregamos como marcas externas.

domingo, 24 de agosto de 2025

Sorrateiro Ostracismo

A Exclusão pelo Silêncio

Há exclusões que chegam com barulho: uma porta batida, uma ordem explícita, uma palavra cortante. Mas há outras que se instalam como poeira, devagar e sem anúncio. Não se trata de expulsar alguém do espaço comum, mas de apagar sua presença até que ela não incomode mais. É esse o ostracismo sorrateiro, tão enraizado em nosso cotidiano brasileiro que às vezes nem o percebemos — embora doa profundamente em quem o sofre.

Nas relações de trabalho, ele aparece no esquecimento calculado. O funcionário mais velho, ou o colega que pensa diferente, não é demitido, mas também não é convidado para o almoço de equipe, não é chamado para a reunião que decide os rumos do setor. Continua ali, sentado na mesma sala, mas com sua voz abafada por um muro invisível.

Na política, o ostracismo ganha a forma de indiferença coletiva. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos — todos ainda habitam o mapa, mas raramente habitam a agenda pública. São lembrados em datas específicas ou quando a tragédia explode, mas logo voltam ao silêncio estrutural. Não há proibição de fala, apenas a recusa em escutar.

Na cultura, a exclusão sorrateira aparece como uma seleção seletiva do que “vale” como arte. O samba de roda, o teatro comunitário, a poesia de periferia — tudo isso sobrevive com força, mas à margem, sem holofotes, sem financiamento. Enquanto isso, a indústria cultural escolhe o que exporta, como se só o que atravessa fronteiras fosse digno de memória.

E nas cidades? Basta andar pelas ruas para notar o pacto social tácito: pessoas em situação de rua não são oficialmente invisíveis, mas passamos diante delas como se fossem parte da paisagem. O silêncio dos passantes constrói uma barreira mais eficaz do que qualquer muro. É exclusão sem decreto, mas não menos cruel.

No espaço digital, o ostracismo sorrateiro encontra uma forma nova: o “vácuo”. Não há bloqueio, não há briga aberta, mas a ausência de resposta, a não-curtida, o comentário ignorado. A exclusão acontece pelo nada — e talvez por isso doa mais, porque a ausência é um buraco difícil de nomear.

O filósofo brasileiro Paulo Freire nos lembra que “calar a palavra do outro” é uma das formas mais profundas de opressão, pois nega ao sujeito o direito de existir no diálogo. E é justamente isso que o ostracismo sorrateiro opera: uma pedagogia silenciosa que corrói, não pelo choque, mas pelo esvaziamento.

Reconhecer esse mecanismo talvez seja o primeiro passo para enfrentá-lo. Pois resistir, aqui, não significa apenas gritar contra quem exclui, mas também romper o pacto do silêncio: olhar de volta, escutar de verdade, reincluir na roda quem foi deixado de fora. No fundo, o ostracismo sorrateiro só triunfa porque muitos aceitam calar junto.

E se há algo que a filosofia nos ensina é que a vida comum se sustenta no reconhecimento mútuo. Sem ele, restamos como sombras num palco iluminado — presentes, mas invisíveis.


Mapas e Filtros

O Que Vemos e o Que Escolhemos Não Ver

Outro dia, olhava um mapa turístico da cidade. As ruas eram corretas, os pontos famosos estavam lá, mas algo me chamou atenção: não havia becos, terrenos baldios ou lugares “sem interesse”. O mapa não mentia — apenas não dizia tudo. E percebi que, no fundo, a vida funciona do mesmo jeito. Cada um de nós carrega um mapa próprio, que não é a realidade em si, mas a versão filtrada que conseguimos (ou queremos) suportar.

O sociólogo brasileiro Muniz Sodré, ao tratar da mediação cultural, lembra que qualquer representação do mundo é sempre filtrada. Isso vale para o jornal que escolhe quais notícias publicar, para o fotógrafo que enquadra uma cena e até para a memória, que apaga ou suaviza episódios difíceis. O mapa é a ordem que damos ao caos; o filtro é a escolha — consciente ou não — de quais pedaços do caos entram nesse desenho.

No cotidiano, mapeamos e filtramos o tempo todo. Ao contar como foi o dia para alguém, omitimos o que não parece relevante (ou conveniente). Ao lembrar de uma viagem, destacamos momentos felizes e deixamos de lado o desconforto da fila no aeroporto. Até na conversa interna que temos com nós mesmos, fazemos cortes: certas dores ficam de fora do relato porque não sabemos ainda como lidar com elas.

Mas há um risco: quando confundimos o mapa com o território, passamos a acreditar que a realidade é só aquilo que cabe na nossa versão filtrada. É como viver olhando o mundo através de óculos com lentes coloridas e esquecer que o céu não é daquela cor. Muniz Sodré diria que isso é perigoso porque empobrece a experiência, reduzindo a vida ao que se encaixa no desenho já conhecido.

Por outro lado, não há como viver sem filtros. Um mapa sem seleção seria ilegível; uma vida sem escolhas de foco seria insuportável. A questão talvez não seja eliminar filtros, mas revisá-los de tempos em tempos, para que não virem grades invisíveis. Afinal, um mapa é útil não por mostrar tudo, mas por indicar caminhos — e às vezes o melhor caminho é justamente aquele que antes não aparecia.

Talvez a filosofia dos mapas e filtros nos ensine que viver bem é alternar entre seguir o traçado e se permitir caminhar fora dele. Porque há becos que não estão no mapa, mas que levam a lugares onde a vida finalmente parece inteira.


sábado, 23 de agosto de 2025

Medos e Coragens

Às vezes, parece que a vida é uma dança improvisada entre dois parceiros: o medo e a coragem. Um dá o passo atrás, o outro insiste em avançar. O curioso é que eles não são inimigos declarados — muitas vezes, se completam. Quem nunca sentiu aquele frio na barriga antes de tomar uma decisão importante? O medo avisa: “cuidado”. A coragem responde: “vai mesmo assim”. No cotidiano, isso aparece em situações pequenas: falar em público, iniciar uma conversa difícil, mudar de emprego. E, em cada caso, existe um tipo diferente de medo e, por consequência, um tipo diferente de coragem.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, fala da “vertigem da liberdade”: o medo não é só receio do que pode dar errado, mas também do que pode dar certo. A coragem, nesse sentido, não é ausência de medo, mas a escolha de agir apesar dele.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, coloca a coragem como uma virtude que está no meio-termo: nem covardia (domínio do medo) nem temeridade (ausência de prudência). É o equilíbrio que torna possível enfrentar batalhas, externas ou internas, com dignidade.

Por outro lado, Paul Tillich, filósofo e teólogo, lembra em A Coragem de Ser que a coragem fundamental é afirmar-se diante da ameaça do não-ser — o medo mais profundo que temos, o da finitude. Esse tipo de coragem é existencial: não é só atravessar a rua escura ou se expor no trabalho, mas enfrentar o vazio e continuar vivendo.

Se olharmos para a vida prática, percebemos que há coragens sociais (como levantar a voz contra injustiças), coragens íntimas (como admitir um erro para quem amamos) e coragens silenciosas (como levantar-se da cama em dias difíceis). Do mesmo modo, há medos de perda (financeira, afetiva), medos de julgamento (o olhar do outro que pesa), medos do desconhecido (novos caminhos) e até medos de nós mesmos (do que somos capazes de fazer ou sentir).

Talvez o mais inovador seja perceber que coragem e medo não são forças contrárias, mas sim irmãos gêmeos: só há coragem porque existe medo. Se não tivéssemos medo, nossas ações seriam automáticas, não corajosas. O medo, em vez de inimigo, é o palco onde a coragem se apresenta.

Como diria o pensador brasileiro Rubem Alves, “o medo é o preço que pagamos pela liberdade de escolher”. E é justamente nesse preço que a coragem floresce.


Saturação Totalitária

Uma reflexão curta e informal

Não é preciso viver sob um regime autoritário declarado para sentir a opressão de uma presença constante: mensagens, alertas, comandos, imagens, algoritmos, opiniões, exigências. Estamos sempre conectados, e ainda assim, cada vez mais confinados. Não por grades de ferro, mas por um excesso. Há algo sufocante na abundância que nos cerca. O excesso de tudo – informação, visibilidade, escolhas, cobrança – pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de dominação.

Vivemos um tipo de saturação totalitária: não o totalitarismo clássico dos partidos únicos e dos líderes carismáticos, mas uma saturação difusa, sutil, tecnificada, que atua por excesso e não por proibição. Aqui, o controle não se dá por censura, mas por inundação. Não se manda calar, mas se fala tanto que o silêncio se torna impossível.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, já apontava para esse novo modelo de dominação: não vivemos mais sob um “poder disciplinar” repressivo, mas sob uma “sociedade do desempenho”, onde cada um se explora a si mesmo em nome da produtividade. O indivíduo se transforma em empreendedor de si, e nesse processo, se torna cúmplice da própria opressão. A saturação totalitária é o modo como esse novo poder se manifesta: pela multiplicação das possibilidades, pela superexposição, pela aceleração do tempo e pela constante pressão para estar presente, atualizado e otimizado.

O totalitarismo do século XXI é amigável, colorido e eficiente. Ele se traveste de liberdade e se infiltra nas estruturas mais íntimas da vida: na saúde, no lazer, nos relacionamentos e até na forma como nos percebemos. Não nos diz o que fazer, mas nos apresenta tantas opções que qualquer escolha parece errada. No fim, somos exauridos não por falta de opções, mas por não conseguirmos suportar a abundância delas.

Talvez resistir a essa saturação passe por reaprender a escolher o silêncio, o intervalo, o limite. Passa por um ato revolucionário simples: desconectar-se. E lembrar que, às vezes, a liberdade não está em ter tudo, mas em poder dizer “não” a quase tudo.


Alienações do Trabalho


No meio da correria do dia, muita gente já se pegou pensando: “mas afinal, o que estou fazendo da minha vida dentro desse emprego?” É como se a pessoa acordasse, pegasse ônibus lotado, batesse o ponto, cumprisse ordens, e no final do mês recebesse um salário que mal cobre as contas. O estranho é que, no processo todo, ela sente que pouco ou nada dela mesma está presente. O trabalho está lá, mas a pessoa parece estar em outro lugar. Essa sensação tem nome antigo e pesado: alienação.

Alienar-se é afastar-se de si, é ver sua energia criativa ser sugada para algo que não tem rosto, cheiro ou significado. Pense em um operário que monta cem peças por dia, mas nunca vê o produto final. Ou no motorista de aplicativo que roda até a madrugada, sem reconhecer a cidade que cruza porque tudo se tornou quilometragem e tarifa. Até no escritório de vidro, com ar-condicionado e café expresso, a alienação pode morar: quando alguém passa horas preenchendo relatórios sem nunca entender a finalidade deles.

Karl Marx descreveu quatro formas de alienação: do produto (não reconhecemos aquilo que fazemos), do processo (não controlamos como fazemos), da nossa essência (perdemos a criatividade e a humanidade no trabalho), e dos outros (transformamos colegas em competidores). No fundo, é como se o trabalho, que deveria ser espaço de realização, fosse sequestrado pela lógica da sobrevivência.

No Brasil, a alienação tem ainda um sabor particular. Como lembra o crítico e pensador Roberto Schwarz, a desigualdade social molda nossa relação com o trabalho: aqui, muitas vezes, trabalhar não é caminho para emancipação, mas apenas um jeito de se manter à tona. Assim, a alienação não é só uma sensação abstrata — ela se confunde com a realidade concreta de milhões que vivem de bicos, subempregos ou de jornadas intermináveis.

O mais curioso é que, mesmo diante disso, muitos ainda encontram brechas de resistência: um pedreiro que canta enquanto levanta uma parede, uma professora que inventa jogos para ensinar mesmo com falta de recursos, ou um vendedor que cria amizades sinceras no meio das metas sufocantes. Nessas pequenas rachaduras, a alienação não desaparece, mas é lembrada de que não venceu completamente.

Em resumo, falar de alienações do trabalho é falar de um paradoxo: aquilo que deveria nos aproximar da vida, muitas vezes, nos afasta dela. O desafio está em transformar o trabalho em algo que devolva sentido — nem sempre possível, mas sempre desejável.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Coisas pela Essência


Às vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.

Na correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a confiança.

O problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e paciência, pede coragem para atravessar as aparências.

Rubem Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no outro não só um rosto, mas um universo.

Olhar para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.

Fernando Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede em quantidade, mas em profundidade.

Então, olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o sabor mais puro.

Estratégia de Criatividade

Entre a Faísca e o Roteiro

A criatividade é muitas vezes tratada como um sopro espontâneo, um raio que cai de repente. Mas, se olharmos com mais cuidado, veremos que os momentos criativos mais potentes costumam nascer de uma combinação paradoxal: liberdade de imaginar somada a um método para não se perder. É aqui que entra a estratégia de criatividade — um plano que não engessa, mas canaliza o fluxo inventivo.

O pensador brasileiro Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, é um exemplo vivo dessa ideia. Sua obra não se limitava a “ser criativo”; ele estruturou procedimentos para que outras pessoas pudessem criar, mesmo sem formação artística prévia. Para Boal, a estratégia era libertar a imaginação de bloqueios sociais e pessoais, ao mesmo tempo em que oferecia jogos e técnicas para que a invenção tivesse forma e alcance.

No cotidiano, estratégias de criatividade aparecem nos lugares mais simples:

  • Um cozinheiro que improvisa novos pratos, mas mantém um conjunto de temperos-base sempre à mão.
  • Um professor que incentiva debates livres, mas define um tema central para não dispersar.
  • Um escritor que anota ideias soltas todos os dias, mas reserva um horário fixo para organizá-las em histórias.

A vantagem dessa abordagem é dupla. Sem estratégia, a criatividade pode virar apenas um monte de tentativas inconclusas. Sem criatividade, a estratégia se transforma em rotina vazia. Quando ambas se encontram, surgem soluções que não só impressionam, mas funcionam.

Boal diria que a estratégia de criatividade é como um palco: precisa de luz, cenário e direção, mas também de espaço para que o improviso floresça. É o equilíbrio entre preparar o terreno e permitir que o inesperado aconteça.

No fundo, pensar a criatividade como estratégia é aceitar que o “momento eureka” raramente vem do nada. Ele é, na maior parte das vezes, o resultado de muitas tentativas, erros e ajustes silenciosos — um trabalho quase invisível que prepara o instante em que a faísca acende.


Incerteza de Indexicais

Entre o Eu, o Aqui e o Agora

A filosofia da linguagem nos deu muitos instrumentos para entender como nomeamos o mundo — mas os indexicais continuam sendo como portas que se movem conforme nos aproximamos. “Eu”, “aqui”, “agora” não apontam para nada fixo; são coordenadas móveis que se deslocam com o próprio sujeito. O que torna esses termos fascinantes é a sua incerteza essencial: só têm sentido no momento em que são proferidos e, imediatamente, esse sentido se dissolve, como se fosse areia escorrendo entre os dedos.

Imagine alguém dizendo “Estou com fome agora”. Essa frase, capturada numa gravação, será verdadeira no instante do registro, mas perde a garantia de verdade no instante seguinte. É um mapa cujo “você está aqui” muda antes que possamos dobrar a esquina. O mesmo vale para “Eu”: a pessoa que diz eu ao amanhecer não é a mesma que dirá eu à noite, mesmo que seja o mesmo corpo.

O filósofo brasileiro Vilém Flusser — ainda que tenha trabalhado mais com comunicação e cultura do que com a semântica formal — oferece um ponto de apoio. Ao discutir a mediação dos signos, Flusser nos lembra que a linguagem é sempre uma projeção de situação. Isso significa que cada indexical não apenas aponta para uma posição no espaço-tempo, mas revela e esconde simultaneamente o sujeito que o profere. Se “eu” muda a cada instante, não se trata apenas de uma limitação da linguagem, mas da própria instabilidade de quem fala.

No cotidiano, essa incerteza é mais comum do que percebemos. Um pai que diz “Volto já” pode estar falando de cinco minutos ou de cinco anos — o tempo indexical “já” depende de contextos invisíveis, expectativas tácitas, histórias partilhadas. Um casal que discute e ouve “Estou aqui” não escuta apenas uma informação geográfica, mas uma afirmação emocional, talvez desesperada. Os indexicais são tanto coordenadas do GPS quanto coordenadas da alma.

A incerteza, portanto, não é defeito — é a marca de que a linguagem vive junto com quem fala. Flusser talvez diria que essa “móvel ambiguidade” é a única forma possível de diálogo verdadeiro, pois força a escuta atenta e a reconstrução do sentido a cada instante.

O perigo está em esquecer essa natureza instável e cristalizar os indexicais como se fossem absolutos. Quando um governante diz “agora é hora de mudança” ou “estamos juntos”, a força retórica vem justamente da suspensão dessa instabilidade — como se o “agora” fosse universal e não apenas um ponto efêmero na corrente do tempo.

A filosofia da incerteza de indexicais nos convida a duas tarefas:

  1. Reconhecer que o sentido de eu, aqui, agora nunca é definitivo, mas se reconfigura a cada enunciação.
  2. Aceitar que entender o outro exige decifrar não apenas as palavras, mas o contexto vivo que as sustenta.

Assim, cada “eu” é um rastro e um prenúncio, cada “aqui” é um lugar e um deslocamento, cada “agora” é instante e memória. E a incerteza não é obstáculo, mas talvez a mais bela prova de que ainda estamos falando — e nos escutando — uns aos outros.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Escrita Viva

A escrita sempre encontra caminho quando há quem a queira viva.

Não se trata apenas de técnica ou estilo, mas de um desejo profundo de dizer algo que faça sentido para alguém — mesmo que esse alguém seja o próprio escritor. Quando há verdade pulsando por trás das palavras, elas não ficam presas no papel. Elas respiram, ecoam, seguem vivendo nas cabeças e nos corações de quem as lê.

Escrever não é só organizar letras, é organizar o mundo. Às vezes, é uma tentativa de consertá-lo. Outras vezes, é só o gesto de testemunhar — e já basta. A escrita viva não teme a imperfeição. Ela nasce com vírgulas tremendo, com ideias pela metade, com sentimentos que nem sempre sabem se explicar. Mas está viva porque vem de dentro. E tudo que vem de dentro tem força, mesmo que sussurre.

O filósofo francês Maurice Blanchot, em O Espaço Literário, dizia que “escrever é dar voz ao silêncio”. E talvez esse seja o segredo da escrita viva: ela traduz o que ainda não tinha nome, mas já existia em algum canto da alma. Ela não precisa ser genial. Precisa ser honesta. É por isso que, muitas vezes, um bilhete simples emociona mais que um tratado erudito.

A escrita viva é aquela que se permite duvidar. Que começa uma frase sem saber exatamente como vai terminar. Que escuta o que surge entre as palavras e respeita o que escapa ao controle. Não se escreve apenas com as mãos — escreve-se com a memória, com o corpo, com as experiências acumuladas. E também com o silêncio que veio antes do texto.

Essa escrita não busca impressionar, mas comunicar. E por isso ela encontra caminhos. Quem escreve com alma toca a alma de quem lê. Não importa o gênero, o tema, a gramática. O que importa é o gesto de entrega. Há textos corretos e mortos. E há textos imperfeitos e vivos — porque alguém, em algum lugar, escreveu como quem acende uma vela.

A escrita viva não se encerra no escritor. Ela é uma travessia. Começa num coração inquieto e termina em outro que se reconhece. Nesse intervalo, muita coisa pode acontecer. Pode curar. Pode lembrar. Pode acordar.

E isso já é mais que suficiente para continuar escrevendo.


Matemática e Misticismo

Quando o cálculo encontra o invisível

Às vezes parece que vivemos em dois mundos separados: de um lado, a objetividade fria dos números, das contas do banco, das planilhas intermináveis; do outro, a subjetividade quente das crenças, dos rituais, das intuições. Mas basta observar mais de perto para ver que esses mundos se encontram o tempo todo. A matemática e o misticismo, que à primeira vista parecem opostos, sempre caminharam lado a lado.

Pense, por exemplo, na numerologia: ainda hoje muita gente acredita que a data de nascimento ou o número de uma casa pode dizer algo sobre a vida de uma pessoa. Ou nos signos e na astrologia, que calculam posições de astros em frações de graus. Até a superstição popular vive disso: o número treze, a escada com sete degraus, a sorte do par ou do ímpar. O curioso é que, mesmo quem não se considera “místico”, busca padrões secretos nos números: a senha do celular, a placa do carro, a coincidência de aniversários. Parece que temos necessidade de acreditar que há mais do que simples cálculo.

Esse impulso tem raízes antigas. Pitágoras, no século VI a.C., não via contradição entre matemática e espiritualidade. Para ele, o número era a própria estrutura do cosmos, princípio que organizava tanto o movimento dos astros quanto a vida dos homens. Descobrir que os sons musicais obedeciam a proporções numéricas não era só ciência: era uma revelação de que a ordem divina se escondia por trás daquilo que chamamos de beleza. Quando os pitagóricos desenhavam a tétraktis — triângulo formado pela soma dos quatro primeiros números (1+2+3+4=10) — não estavam apenas fazendo geometria, mas venerando o símbolo da perfeição.

Talvez seja isso que nos seduz até hoje. A matemática nos mostra a precisão, mas também nos sugere mistério. Cada número parece esconder uma qualidade invisível. O três dá sensação de completude, o sete é tido como número sagrado em várias culturas, o doze organiza o tempo em meses e horas. No fundo, não aceitamos que os números sejam apenas ferramentas neutras: precisamos acreditar que eles também falam de destino, de ordem secreta, de algo maior do que nós.

No cotidiano, esse encontro aparece nos detalhes mais banais. Quando alguém escolhe o andar do prédio para morar, evita certas datas para decisões importantes ou repete rituais com base em contagens (“vou respirar dez vezes antes da reunião”), está praticando uma forma moderna de pitagorismo. A lógica e o misticismo convivem sem conflito: usamos o cartão de crédito para pagar a conta exata, e depois, ao ver que a soma da fatura termina em “7”, achamos que pode ser um sinal de sorte.

Pitágoras talvez sorrisse diante disso. Para ele, os números nunca foram apenas sinais no quadro-negro, mas janelas para a harmonia do universo. Se ainda hoje vemos nos cálculos a possibilidade de um enigma espiritual, é porque continuamos, sem querer, pitagóricos. Vivemos entre a conta do banco e o oráculo, entre a exatidão e o presságio. E nesse espaço ambíguo, entre matemática e misticismo, seguimos tentando decifrar o que os números querem nos dizer.